Quando a esperança venceu o medo, o Brasil começou a reescrever sua história. Lula chamou o povo brasileiro para reconstruir nosso país. Um país de cor, de todos os cheiros, de todas as vontades, de todos os sonhos. O povo atendeu ao chamado e, hoje, está construindo seu presente tendo como referencia seu passado e mirando no futuro. Quando a esperança vence o medo, o sonho torna-se realidade.
Do Portal do Luis Nassif:
"Lula: Governar é fazer o óbvio
O presidente Lula participou de um evento hoje (dia 03 de setembro) em Santa Maria(RS) onde inaugurou sete campi de quatro universidades públicas gaúchas: Universidade Federal de Santa Maria(UFSM),Universidade Federal do Pampa (Unipampa),Fundação Universidade Federal do Rio Grande (Furg) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Em seu discurso,Lula reafirma e consolida sua atuação em defesa da universidade pública e gratuita para mais brasileiros."
A lição e o óbvio
"Muitos de vocês jovens que estão me ouvindo agora serão um dia autoridades em suas cidades ,em seus Estados,em suas universidades...O grande legado que eu poderia deixar depois de oito anos de mandato e que pudesse servir de lição de vida para quem quer governar as cidades,os Estados ou a União depois de mim,que tenha uma palavra mágica,uma palavra simples que todo mundo sabe,mas que muitas vezes nós nos esquecemos.A palavra do sucesso é a palavra óbvio.Se cada um de nós fizéssemos apenas o óbvio quando estamos no governo,nós não erraríamos e sabíamos a revolução que estamos fazendo neste país,neste momento."
A estratégia
"Uma vez,lá na Secretaria de Assuntos Estratégicos do Governo,nós encomendamos um estudo para saber qual era a mais importante prioridade da sociedade brasileira e essa pesquisa foi feita por telefone dos mais diferentes segmentos da sociedade e entrevistamos milhares de pessoas...E só tinha uma unanimidade: todo mundo queria uma Educação de qualidade.Era unânime,100% queria uma Educação de qualidade e quando nós perguntamos se era possível atingir essa Educação de qualidade,mais de 80% não acreditavam que nós pudéssemos fazer uma Educação de qualidade no Brasil.Ou seja,era um povo que sabia o que queria,mas era um povo que tinha a convicção que seus governantes não seriam capazes de atender aquilo que era a necessidade maior da sociedade brasileira.
Foi por isso que tomamos uma decisão no Governo...Quando você vira Governo,seja prefeito,governador,vale para presidente da república e vale para reitor também.Ou seja,você tem a base do Governo que quer fazer investimento,você tem a base do Governo que quer fazer contenção de despeza para poder pagar o que o Estado deve e você tem aqueles que são responsáveis pela arrecadação.Então tudo que você tenta fazer no Governo,aparece um ou mais que lhe diz para você que não pode gastar.Você não pode gastar na Educação,na Saúde... Ou seja,tudo vira gasto e nada é tratado como se fosse investimento.No primeiro ano de governo,nós numa reunião ministerial,eu tomei uma decisão de que era proibido nas reuniões ministeriais e nas reuniões comigo que era proibido qualquer ministro falar na palavra gasto e tratar-se de investimento na Educação.Era proibido!"
Sobre o ajuste fiscal
"Por que nós éramos induzidos a entender que o principal quando alguém que quer governar uma cidade,um Estado ou uma União é você fazer uma contabilidade em que no final do ano zere.Você não tem despesa,você não tem não fez nada,mas você não fez dívida e isso algumas pessoas gostam,quando na verdade todo mundo sabe que pra você colher o futuro é preciso você tem que fazer investimento hoje,é preciso fazer alguma dívida para você ter retorno amanhã ou depois de amanhã.
Então nós mudamos duas décadas o que no Brasil só pensava em ajuste fiscal e quando nós ouvimos essa palavra,ajuste fiscal, significa aumentar imposto,significa reduzir salário...Toda vez que alguém falar em ajuste fiscal você pode ter certeza que significa aumentar imposto e reduzir salário.Salário de quem? Da máquina pública que muitas vezes foi acusada de ganhar muito,mas eu estou cansado de ver como presidente da república,gente de qualidade do governo,da máquina pública que era tido com marajá há dez anos atrás ganhando 20 mil reais e ser convidado por uma multinacional para ganhar 200 mil reais ou 300 mil reais por mês,inclusive gente de qualidade de uma empresa como a PETROBRAS que ganha 40 mil reais e é convidado para prestar serviço por 100 mil ou 80 mil dólares à outras empresas.Então nós invertemos esse quadro,quando se tratar de Educação,nós temos que fazer investimento e nós temos que medir a a consequência desse investimento na certeza que esse dinheiro seja bem aplicado para que tenhamos um retorno como um grande cientista,como um grande pesquisador,como alguém que vai contribuir para o crescimento do país."
A razão de sua alta popularidade
"Outra coisa que nós tomamos como decisão...No Brasil,presidente da república,um ministro da Educação,não se reuniam nem com estudantes e muito menos com os reitores.Eu não sei qual era o medo que os reitores causavam,até ministros da Educação haviam sido reitores... É inacreditável!
Possivelmente fosse o mesmo medo que os presidentes tinham de receber prefeitos e vocês prefeitos sabem que a visão que se tinha na época é que se o presidente fosse governar com vocês,vocês tinham muito dinheiro com o presidente.Então ele também não recebia prefeitos.Imaginem o absurdo do absurdo: eu sou o presidente de um país em que eu não recebo um reitor,em que não recebo um prefeito,em que eu não recebo estudantes,em que eu não recebo os trabalhadores,não recebo suas entidades... O que estamos fazendo na presidência da república? Para quem nós estamos governando?
Veja,eu fui desde de 2003 à todas as marchas de prefeitos que fizeram em Brasília,não espera o prefeito pedir audiência comigo,eu pegava todo meu ministério e vocês são testemunhas,levava 30 ministros para participar da marcha dos prefeitos...Eles apresentavam suas reivindicações e nós olhando uns nos olhos dos outros dizíamos nós podemos ou nós não podemos.O que haveria um presidente de ter medo de um prefeito,o que haveria um presidente de ter medo de um reitor,o que haveria um presidente de ter medo de um estudante?"
Relação com os estudantes e o diálogo
Esses dias em Caruaru,eu e o companheiro Fernando Haddad tivemos uma surpresa.O Yann,presidente da UBES foi preocupado conversar comigo e com o Fernando Haddad e falar...Olha,ô ministro,nós estamos com um problema aqui,por que quando o presidente Lula tomou posse,nós apresentamos 13 pontos de reivindicação e vocês já cederam tudo.O que que a gente faz?
Ou seja,na verdade quando uma pessoa qualquer por falta de inteligência política acha que o governo cooptou a UNE ou a UBES,na verdade foram eles que cooptaram com o governo para fazer aquilo que tinham que ser feito como pagamento de dívidas com os estudantes brasileiros.Nós só aprendemos conversando com reitores,Antes de eu ser presidente ,eu cansei de passar em universidades e o reitor me convidava para visitar banheiros sem papel higiênico,não tinha dinheiro,azulejo caído,não tinha dinheiro para reparar...Essa era a situação da universidade brasileira.Como é que a gente poderia melhorar a situação do país se a gente não chamasse para dizer:vamos ajudar a consertar esse país!
E tenho muito orgulho de dizer para esses magníficos reitores que estão nos assistindo pela TV que não quero ser eu o único,mas já carrego a primazia de ser o primeiro presidente da república que se reuniu todo ano com todos os reitores de todas as universidades federais,todos os reitores dos IFFs e com todos os estudantes representados pela União Nacional dos Estudantes que não me tiraram um pedaço.Esse dedo eu perdi quando eu tinha 17 anos de idade e nem pensava em ser presidente da república.
É com mais orgulho ainda,ao deixar a presidência da república,eu assisto ao meu ministro da Ciência e Tecnologia ir na SBPC e ser aplaudido de pé.Fernando,eles não tinham coragem de ir no dia da posse,imagine no final do mandato?
Na nossa cabeça,numa democracia existe espaço pra uma pessoa levantar um cartaz contra,um cartaz a favor,existe espaço pra uma vaia,existe espaço para um aplauso e não temos que ter medo disso.São essas coisas que vão se fortalecendo dentro de nós a questão democracia."
A democracia,o Estado e a sociedade
"Aquele Palácio do Planalto bonito do jeito que era -falam que nós avacalhamos-Na verdade nós democratizamos ,ali era chic,era para reis,rainhas,príncipes e princesas ou banqueiro ou empresário.Ali,nós começamos a colocar todo mundo.Eu lembro de um dia que houve uma briga em relação aos portadores de deficiência visual e seus cães guias. A Igreja não queria,o Metrô não queria que seus cachorros entrassem ,os shoppings estavam proibindo...O que que fiz para mostrar? Eu trouxe pra dentro do Palácio os portadores de deficiência visual e seus cachorros e nenhum desrespeitou o Palácio do Planalto ou fez qualquer sujeira no Palácio.Como é que a gente não quer proibir alguém que quer entrar no Palácio do Planalto e deixar de fora seus olhos que são seus cachorros?
Ali naquele Palácio entrou catador de papel que nunca imaginou entrar,moradores de rua que nunca imaginaram entrar e não precisava trocar de roupa,vieram do jeito que quiseram vir,ali entrou sem-teto,para que nós estabelecêssemos uma nova relação entre Estado e a sociedade.Para que a gente não tivesse medo,por que o político tem uma deficiência mental,ou seja,na época da eleição ele anda na rua de carro aberto,beija todo mundo,abraça todo mundo.Todo político em época de eleição fala mal de banqueiro,fala mal de empresário,fala mal de latifúndio e fala bem do pobre.Não há nada mais sagrado do que pobre em época de eleição.Coloca uma criança rica,coloca uma criança pobre e coloca um político na frente que ele vai logo na criança pobre pra ´pegar pra dar um beijinho.Depois que terminam as eleições,quem vai jantar com eles são os ricos e não são os pobres."
O preconceito
"O que nós estamos querendo é mudar essa lógica,essa lógica preconceituosa que levou esse país a tantos anos de atraso.A lógica perversa de que a inteligência era confundida com conhecimento ou com os anos de escolaridade,alógica perversa de que o Brasil devia ser governando para 35% da população e o resto é o resto...
O preconceito que não permitia que um operário pudesse chegar à presidência do Brasil,que um negro não pudesse chegar à presidência da África do Sul,um índio à presidência da Bolívia e assim por diante os preconceitos vão sendo derrubados e agora um negro eleito à presidência dos Estados Unidos pra mostrar que é possível através da democracia a gente conquistar mais espaço."
O papel da universidade brasileira
"A mim me inquieta companheiros reitores e meu ministro da Educação,a universidade não estar preocupada com que está acontecendo fora da universidade,na sua cidade,no bairro.As vezes uma universidade é encostada numa favela e você pergunta quantas vezes os alunos e professores foram passar um dia conversando com aquele favelado.Não foram por que não fazem parte de seu habitat natural.
As realizações
[...]"Faltam três meses e poucos dias para o fim do meu mandato,cada dia vale ouro e ainda temos que inaugurar setenta e poucas Escolas Técnicas e nós vamos inaugurar uma a uma "[...]
[...]"Hoje nós já estamos com 117 ou 118 extensões universitárias,tentando levar para todo território nacional ,de Manaus à Coari,tentando levar braços das universidades federais que eu não sei por que foram criadas somente nas capitais.Nós queremos,como diz o Olívio Dutra,espraiar em todo o território nacional, as nossas universidades federais...Nós não podemos nos contentar com país sendo o maior exportador de café do mundo,o maior exportador de minério de ferro do mundo,o maior exportador de suco de laranja do mundo,não! Isso é coisa do século passado.No século 21 temos que exportar outra coisa,temos que exportar conhecimento,temos que exportar inteligência."
Luiz Inácio Lula da Silva,presidente e Estadista brasileiro em discurso histórico proferido na cidade de Santa Maria(RS)
sábado, 4 de setembro de 2010
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Tiriricando, Observatório da Imprensa:
HUMOR NAS ELEIÇÕES
O mundo dos Tiriricas
Por Luciano Martins Costa em 3/9/2010
Comentário para o programa radiofônico do OI, 3/9/2010
A imprensa registra de maneira desigual a decisão do Supremo Tribunal Federal liberando a gozação de candidatos em programas humorísticos veiculados pela mídia. De quebra, a imprensa em geral também ganhou o direito de divulgar críticas diretas de jornalistas a políticos em período de campanha eleitoral. Dessa maneira, fica suspensa a aplicação do artigo 2, correspondente a essas restrições, que constavam da Lei 9.504, aprovada em 1997.
O Estado de S.Paulo, que havia tratado do assunto quando a proibição estava em vigor, agora ignorou completamente a liberação.
A decisão do STF poderia ser motivo para celebração, talvez uma festa da democracia. Mas há muita controvérsia sobre as escolhas da mídia, seja no material considerado sério, dito jornalístico, seja nas produções de entretenimento, como as novelas e os programas humorísticos.
As preferências das empresas de comunicação sequer são camufladas, e não apenas nos jornais e revistas de circulação nacional. Também na imprensa regional são visíveis as escolhas políticas, para um lado ou para o outro do espectro partidário. Portanto, pode-se esperar um festival de manipulações no mês que antecede o primeiro turno das eleições.
Liberou geral
O ministro Carlos Ayres Britto, autor da liminar que na semana passada havia liberado provisoriamente as piadas sobre candidatos na TV e no rádio durante o período eleitoral, declarou considerar a atividade de humoristas como uma das atribuições da imprensa.
Trata-se de uma inovação interessante, a ser incluida nos currículos das faculdades de comunicação. Principalmente depois que eles foram tornados inócuos, por conta de decisão anterior do STF que eliminou a obrigatoriedade do diploma específico para o exercício da profissão.
Talvez, inspirados por essa curiosa interpretação, os diretores de redação comecem a pensar na criação do cargo de editor de piada.
Não se pode afirmar que, com isso, a qualidade da imprensa brasileira venha a sofrer um impacto positivo. Mas certamente vai ficar mais engraçado ler jornais e assistir aos noticiários da televisão, uma vez que agora é permitido fazer "trucagem, montagem, ou outro recurso de áudio e vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido ou coligação", conforme determinava o artigo suspenso.
Só não se pode afirmar que, com isso, a qualidade da imprensa brasileira venha a sofrer um impacto positivo. Vai ficar apenas mais coerente: os candidatos de quem a imprensa não gosta vão todos virar Tiriricas.
O mundo dos Tiriricas
Por Luciano Martins Costa em 3/9/2010
Comentário para o programa radiofônico do OI, 3/9/2010
A imprensa registra de maneira desigual a decisão do Supremo Tribunal Federal liberando a gozação de candidatos em programas humorísticos veiculados pela mídia. De quebra, a imprensa em geral também ganhou o direito de divulgar críticas diretas de jornalistas a políticos em período de campanha eleitoral. Dessa maneira, fica suspensa a aplicação do artigo 2, correspondente a essas restrições, que constavam da Lei 9.504, aprovada em 1997.
O Estado de S.Paulo, que havia tratado do assunto quando a proibição estava em vigor, agora ignorou completamente a liberação.
A decisão do STF poderia ser motivo para celebração, talvez uma festa da democracia. Mas há muita controvérsia sobre as escolhas da mídia, seja no material considerado sério, dito jornalístico, seja nas produções de entretenimento, como as novelas e os programas humorísticos.
As preferências das empresas de comunicação sequer são camufladas, e não apenas nos jornais e revistas de circulação nacional. Também na imprensa regional são visíveis as escolhas políticas, para um lado ou para o outro do espectro partidário. Portanto, pode-se esperar um festival de manipulações no mês que antecede o primeiro turno das eleições.
Liberou geral
O ministro Carlos Ayres Britto, autor da liminar que na semana passada havia liberado provisoriamente as piadas sobre candidatos na TV e no rádio durante o período eleitoral, declarou considerar a atividade de humoristas como uma das atribuições da imprensa.
Trata-se de uma inovação interessante, a ser incluida nos currículos das faculdades de comunicação. Principalmente depois que eles foram tornados inócuos, por conta de decisão anterior do STF que eliminou a obrigatoriedade do diploma específico para o exercício da profissão.
Talvez, inspirados por essa curiosa interpretação, os diretores de redação comecem a pensar na criação do cargo de editor de piada.
Não se pode afirmar que, com isso, a qualidade da imprensa brasileira venha a sofrer um impacto positivo. Mas certamente vai ficar mais engraçado ler jornais e assistir aos noticiários da televisão, uma vez que agora é permitido fazer "trucagem, montagem, ou outro recurso de áudio e vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido ou coligação", conforme determinava o artigo suspenso.
Só não se pode afirmar que, com isso, a qualidade da imprensa brasileira venha a sofrer um impacto positivo. Vai ficar apenas mais coerente: os candidatos de quem a imprensa não gosta vão todos virar Tiriricas.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Apóie a nova Representação do MSM à Justiça Eleitoral
Do Blog Cidadania

Posted by eduguim on 02/09/10 • Categorized as Aviso
Tem início, neste post, a nova campanha do Movimento dos Sem Mídia por adesões à Representação que a ONG fará à Justiça Eleitoral brasileira contra o desafio da lei que regula as eleições no país, desafio esse representado pela prática ILEGAL de concessões públicas de rádio e tevê manifestarem opinião favorável a pelo menos um candidato no processo eleitoral de 2010.
O que é mais grave nessa prática é que o candidato favorecido pelas concessões públicas em tela disputa a Presidência da República, o que torna inaceitável que possa ter êxito em alcançar cargo dessa importância valendo-se de favorecimento ilegal por meios que pertencem a toda a sociedade e não, apenas, a grupos políticos amigos e/ou aliados dos concessionários.
Após debates e estudos, a Presidência e a Diretoria Jurídica do Movimento dos Sem Mídia compuseram minuta da Representação que será feita em benefício de eleições livres, limpas e democráticas, sem concurso de estratégia ilegal como é o uso de uma concessão pública em benefício de interesses particulares de grupos políticos e de empresários do setor de comunicação.
Trata-se de um documento preliminar que abro para contribuições, alterações e supressões por parte dos leitores deste blog durante o processo de finalização da medida a ser encaminhada à Procuradoria Geral Eleitoral em Brasília no menor prazo possível. Abaixo, a minuta da Representação.
*
Representação do Movimento dos Sem Mídia – MSM à Procuradoria Geral Eleitoral Federal – PGE sobre possível atuação ilegal de órgãos de mídia no atual processo eleitoral.
A Lei Federal nº 9.504, promulgada em 30/09/1997 e conhecida como Lei Geral das Eleições, regula o processo eleitoral deste ano no Brasil e dispõe, em seu artigo 45, sobre condutas vedadas aos veículos de mídia, visando o respeito à lei de propaganda eleitoral permitida e garantir as condições de igualdade e isonomia entre os candidatos que disputam o pleito.
Determina o artigo 45 da Lei :
– A partir de 1º de Julho do ano da eleição, é vedado às emissoras de rádio e televisão, em sua programação normal e noticiário:
III – veicular propaganda política ou difundir opinião favorável ou contrária a candidato, partido, coligação e aos seus órgãos ou representantes;
IV – dar tratamento privilegiado a candidato, partido ou coligação;
Ocorre que, neste ano, a campanha eleitoral de 2010, como já havia ocorrido na de 2006, foi fartamente discutida pela sociedade brasileira. Vários órgãos de mídia, principalmente redes de televisão e rádio, podem estar avançando e extrapolando os limites da legalidade fixados na Lei 9.504/97 no que diz respeito a tratamento igualitário aos candidatos que disputam estas eleições. Pela cobertura e abrangência que possuem sobre o território brasileiro, esses meios de comunicação podem influir decisivamente na vontade soberana do eleitorado distorcendo e influindo ilegalmente no resultado do pleito que se avizinha, ao arrepio do que determina a lei eleitoral supracitada.
A questão das redes de televisão e rádio é muito grave e afeta diretamente o interesse público, pois essas empresas somente funcionam porque exploram concessões públicas, outorgadas pelo Estado brasileiro. Portanto, exploram um bem que pertence a todos os cidadãos, o chamado espectro eletromagnético, através do qual transmitem e retransmitem programação para todo o território nacional, de maneira que essa programação não pode ser usada para incentivo, defesa ou promoção de grupos políticos determinados, pois constitui infração do que determina a legislação eleitoral vigente.
Sem a autorização do Governo Federal para funcionarem nos termos da lei que regula a matéria, as emissoras de TV e rádio não podem efetuar a transmissão de suas programações no território nacional e, assim, essas empresas de comunicação, mais do que qualquer outra organização ou entidade juridicamente constituída perante as leis brasileiras, têm que se ater aos termos das prerrogativas contidas nas concessões públicas que detêm e também devem obedecer rigorosamente a quaisquer restrições legais que se interponham.
Não obstante a legislação eleitoral, como mero exemplo do que vem ocorrendo relata-se aqui que certas redes de televisão e rádio podem ter extrapolado os limites da lei no que diz respeito a tratamento igualitário que devem dispensar aos candidatos que disputam o cargo de Presidente da República, sendo fato amplamente comentado pela população e por blogs e sites na internet que está havendo favorecimento ao candidato do PSDB, José Serra. São anomalias como as de 1º de setembro último, por exemplo, quando um apresentador e um comentarista de telejornais da Globo e do SBT, os senhores Carlos Nascimento e Merval Pereira, entre outros, apoiaram abertamente acusação do candidato do PSDB à Presidência, José Serra, à candidata do PT, Dilma Rousseff, de que ela e sua campanha teriam ordenado o vazamento de dados sigilosos da Receita Federal concernentes à filha daquele candidato, senhora Verônica Allende Serra [vídeos dos programas em anexo].
A cobertura enviesada e parcial de redes de televisão e de rádio sobre fatos e ações políticas das candidaturas no atual processo eleitoral pode constituir verdadeira “propaganda eleitoral negativa” contra uma candidatura e, no caso em tela, vitimização da outra, violando os dispositivos da lei 9.504/97, de maneira que deve ser objeto de investigação e coibida pela Procuradoria Geral Eleitoral – PGE e pelo TSE – Tribunal Superior Eleitoral. E o que é pior: sem que exista uma única prova que sustente a acusação comprada, in limine, pelos concessionários públicos supracitados.
A ONG Movimento dos Sem Mídia – MSM, diante de resultados díspares entre os quatro maiores institutos de pesquisas eleitorais do País no início deste ano, propôs, de forma republicana, Representação perante a douta Procuradoria Geral Eleitoral – PGE “pedindo investigação sobre a realização e divulgação de pesquisas eleitorais fraudulentas”. A Representação foi aceita, estando em curso Inquérito na Superintendência da Polícia Federal em Brasília – DF para investigar a denúncia. Mais uma vez, frente a fatos e ações de órgãos de mídia que revelam indícios de tentativas de influenciar ilicitamente o processo eleitoral, o Movimento dos Sem Mídia – MSM, organização da sociedade civil, na defesa dos interesses maiores da República, da Democracia e do Estado de Direito, prepara nova Representação. A manifestação do MSM à Justiça Eleitoral será aberta a apoio de todo e qualquer cidadão brasileiro a investigação da atuação de redes de televisão e rádio que pode estar tentando influir indevidamente na vontade soberana do eleitorado, podendo vir a distorcer os resultados da eleição presidencial vindoura.
São Paulo, 1º de setembro de 2010
Posted by eduguim on 02/09/10 • Categorized as Aviso
Tem início, neste post, a nova campanha do Movimento dos Sem Mídia por adesões à Representação que a ONG fará à Justiça Eleitoral brasileira contra o desafio da lei que regula as eleições no país, desafio esse representado pela prática ILEGAL de concessões públicas de rádio e tevê manifestarem opinião favorável a pelo menos um candidato no processo eleitoral de 2010.
O que é mais grave nessa prática é que o candidato favorecido pelas concessões públicas em tela disputa a Presidência da República, o que torna inaceitável que possa ter êxito em alcançar cargo dessa importância valendo-se de favorecimento ilegal por meios que pertencem a toda a sociedade e não, apenas, a grupos políticos amigos e/ou aliados dos concessionários.
Após debates e estudos, a Presidência e a Diretoria Jurídica do Movimento dos Sem Mídia compuseram minuta da Representação que será feita em benefício de eleições livres, limpas e democráticas, sem concurso de estratégia ilegal como é o uso de uma concessão pública em benefício de interesses particulares de grupos políticos e de empresários do setor de comunicação.
Trata-se de um documento preliminar que abro para contribuições, alterações e supressões por parte dos leitores deste blog durante o processo de finalização da medida a ser encaminhada à Procuradoria Geral Eleitoral em Brasília no menor prazo possível. Abaixo, a minuta da Representação.
*
Representação do Movimento dos Sem Mídia – MSM à Procuradoria Geral Eleitoral Federal – PGE sobre possível atuação ilegal de órgãos de mídia no atual processo eleitoral.
A Lei Federal nº 9.504, promulgada em 30/09/1997 e conhecida como Lei Geral das Eleições, regula o processo eleitoral deste ano no Brasil e dispõe, em seu artigo 45, sobre condutas vedadas aos veículos de mídia, visando o respeito à lei de propaganda eleitoral permitida e garantir as condições de igualdade e isonomia entre os candidatos que disputam o pleito.
Determina o artigo 45 da Lei :
– A partir de 1º de Julho do ano da eleição, é vedado às emissoras de rádio e televisão, em sua programação normal e noticiário:
III – veicular propaganda política ou difundir opinião favorável ou contrária a candidato, partido, coligação e aos seus órgãos ou representantes;
IV – dar tratamento privilegiado a candidato, partido ou coligação;
Ocorre que, neste ano, a campanha eleitoral de 2010, como já havia ocorrido na de 2006, foi fartamente discutida pela sociedade brasileira. Vários órgãos de mídia, principalmente redes de televisão e rádio, podem estar avançando e extrapolando os limites da legalidade fixados na Lei 9.504/97 no que diz respeito a tratamento igualitário aos candidatos que disputam estas eleições. Pela cobertura e abrangência que possuem sobre o território brasileiro, esses meios de comunicação podem influir decisivamente na vontade soberana do eleitorado distorcendo e influindo ilegalmente no resultado do pleito que se avizinha, ao arrepio do que determina a lei eleitoral supracitada.
A questão das redes de televisão e rádio é muito grave e afeta diretamente o interesse público, pois essas empresas somente funcionam porque exploram concessões públicas, outorgadas pelo Estado brasileiro. Portanto, exploram um bem que pertence a todos os cidadãos, o chamado espectro eletromagnético, através do qual transmitem e retransmitem programação para todo o território nacional, de maneira que essa programação não pode ser usada para incentivo, defesa ou promoção de grupos políticos determinados, pois constitui infração do que determina a legislação eleitoral vigente.
Sem a autorização do Governo Federal para funcionarem nos termos da lei que regula a matéria, as emissoras de TV e rádio não podem efetuar a transmissão de suas programações no território nacional e, assim, essas empresas de comunicação, mais do que qualquer outra organização ou entidade juridicamente constituída perante as leis brasileiras, têm que se ater aos termos das prerrogativas contidas nas concessões públicas que detêm e também devem obedecer rigorosamente a quaisquer restrições legais que se interponham.
Não obstante a legislação eleitoral, como mero exemplo do que vem ocorrendo relata-se aqui que certas redes de televisão e rádio podem ter extrapolado os limites da lei no que diz respeito a tratamento igualitário que devem dispensar aos candidatos que disputam o cargo de Presidente da República, sendo fato amplamente comentado pela população e por blogs e sites na internet que está havendo favorecimento ao candidato do PSDB, José Serra. São anomalias como as de 1º de setembro último, por exemplo, quando um apresentador e um comentarista de telejornais da Globo e do SBT, os senhores Carlos Nascimento e Merval Pereira, entre outros, apoiaram abertamente acusação do candidato do PSDB à Presidência, José Serra, à candidata do PT, Dilma Rousseff, de que ela e sua campanha teriam ordenado o vazamento de dados sigilosos da Receita Federal concernentes à filha daquele candidato, senhora Verônica Allende Serra [vídeos dos programas em anexo].
A cobertura enviesada e parcial de redes de televisão e de rádio sobre fatos e ações políticas das candidaturas no atual processo eleitoral pode constituir verdadeira “propaganda eleitoral negativa” contra uma candidatura e, no caso em tela, vitimização da outra, violando os dispositivos da lei 9.504/97, de maneira que deve ser objeto de investigação e coibida pela Procuradoria Geral Eleitoral – PGE e pelo TSE – Tribunal Superior Eleitoral. E o que é pior: sem que exista uma única prova que sustente a acusação comprada, in limine, pelos concessionários públicos supracitados.
A ONG Movimento dos Sem Mídia – MSM, diante de resultados díspares entre os quatro maiores institutos de pesquisas eleitorais do País no início deste ano, propôs, de forma republicana, Representação perante a douta Procuradoria Geral Eleitoral – PGE “pedindo investigação sobre a realização e divulgação de pesquisas eleitorais fraudulentas”. A Representação foi aceita, estando em curso Inquérito na Superintendência da Polícia Federal em Brasília – DF para investigar a denúncia. Mais uma vez, frente a fatos e ações de órgãos de mídia que revelam indícios de tentativas de influenciar ilicitamente o processo eleitoral, o Movimento dos Sem Mídia – MSM, organização da sociedade civil, na defesa dos interesses maiores da República, da Democracia e do Estado de Direito, prepara nova Representação. A manifestação do MSM à Justiça Eleitoral será aberta a apoio de todo e qualquer cidadão brasileiro a investigação da atuação de redes de televisão e rádio que pode estar tentando influir indevidamente na vontade soberana do eleitorado, podendo vir a distorcer os resultados da eleição presidencial vindoura.
São Paulo, 1º de setembro de 2010
A reedição do modelo Collor de marketing
Do Luis Nassif
"É tênue a separação entre uma acusação - a de que Dilma é a responsável pela quebra de sigilo - e a infâmia, no ouvido do eleitor. Quando a onda está contra o candidato que faz a acusação, um erro é fatal. Essa sintonia não parece que está sendo conseguida. O aumento da rejeição do candidato tucano, desde o início da propaganda eleitoral, é alarmante"
Do Valor
Oposição a Lula virou amizade, quase amor
Maria Inês Nassif
Sem bater em Lula, o marketing de Serra tenta transformá-lo em vítima de Dilma
Em 1989, Fernando Collor de Mello, ex-governador do Estado mais pobre da Federação, Alagoas, assumiu um discurso ofensivo - no sentido também de ofender -, selecionou uma série de desaforos destinados a abalar um governo caindo de impopularidade e partidos em crise, e definiu bordões para causar pânico em torno do candidato de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, seu principal concorrente. Collor venceu atirando para todos os lados. Levou junto um partido que inventou antes das eleições, o PRN, que morreu junto com o seu curto reinado.
A eleição de Collor foi a consagração do marketing político como arma eleitoral. Os alvos do candidato eram escolhidos em pesquisas qualitativas, que definiam os inimigos a combater para alcançar popularidade e as fragilidades do principal concorrente. Pegou um país saído do massacre ideológico do discurso anticomunista da ditadura e que vivia uma hiperinflação. Atacou o governo José Sarney pela incompetência administrativa e Lula pelo temor da classe média. Além do horário eleitoral gratuito, tinha o apoio de uma mídia que estava sem candidatos, sofria com a hiperinflação e preferia que o PT ficasse longe do poder.
Foi o início e o auge da influência do marketing político. E o marketing foi tão eficiente porque não brigou com os fatos: o governo era impopular mesmo e seu candidato não subia nas pesquisas; a classe média e as elites tinham medo real de Lula, eram maleáveis a um discurso moralista e de direita e faziam a cabeça dos de baixo. O PMDB, o grande partido do momento, vivia a crise do governo José Sarney e a compartimentação dos interesses de seus líderes regionais e abandonou aos lobos o seu candidato a presidente, Ulysses Guimarães.
Os marqueteiros de Collor trabalharam em terreno fértil - e sua agressividade foi guindada à condição de ira divina. Um impeachment e quatro eleições depois, todavia, a eficiência desse modelo é questionável. Simplesmente porque vai contra a realidade.
Em 2006, nas eleições pós-mensalão, a oposição tentou reeditar o discurso de Collor. Os alvos eram um governo que os partidos adversários consideravam acabado e um partido, o PT, que tinha por decadente. Na cabeça dos partidos oposicionistas, Lula era um Collor pré-impeachment ou um José Sarney em final de mandato: estava condenado a deixar o poder. O modelo do discurso agressivo, beirando as bravatas machistas do Collor presidente, foi o escolhido para derrubar Lula - ou pelo impeachment, em 2005, ou pelo voto, em 2006. Um senador, no plenário, chegou a ameaçar bater em Lula.
O erro de avaliação foi fatal para a oposição. A popularidade de Lula nas pesquisas subiu rapidamente após a ofensiva dos partidos oposicionistas no Congresso. Em 2006, o candidato tucano, Geraldo Alckmin, chegou a ter mais votos no primeiro do que no segundo turno. A avaliação da oposição, sobre a qual o discurso político foi construído, não levou em conta mudanças que estavam se produzindo no país. Os programas de transferência de renda, em especial o Bolsa Família, despiram as classes média e alta do papel de mediadores de voto das classes menos favorecidas. Lula tinha um patrimônio eleitoral próprio. A agressividade do discurso da oposição, em vez de desgastar o presidente que disputava a reeleição, vitimizou-o. Produziu solidariedade, em vez de provocar aversão.
Da vitória de Lula em 2006 para cá, o modelo Collor de marketing político teria que ter passado por grandes mudanças. Elas foram apenas cosméticas. O marketing de Serra, nos primeiros dias de propaganda eleitoral gratuita, optou por não comprar briga com Lula e não negar a sua popularidade. O problema é que o discurso soou falso. Desde 2005, a oposição aparece na mídia em confronto radical com o presidente que agora é tratado com condescendência, quase amor. No último round eleitoral, Serra tem se apegado às quebras de sigilo fiscal de pessoas próximas a ele. As acusações recaem sobre a candidata do PT, Dilma Rousseff, e sobre o seu partido, e não sobre o chefe de um governo cuja Receita Federal deixou vazar sigilos.
Enquanto o marketing de Dilma a une a Lula, o de Serra tenta separá-los. Os índices de pesquisa acabam mostrando que a eficiência do marketing é tão maior quanto mais próxima da realidade. As estratégias de campanha de Dilma deslizam numa realidade em que o eleitor tende à continuidade, gosta do presidente e incorporou naturalmente o trabalho de identificação feito entre a candidata e o seu padrinho. As estratégias eleitorais de Serra nadam contra a corrente de um eleitorado majoritariamente governista e da identificação da ex-ministra com o governo que é amplamente aprovado pela população.
A saída de Serra é tentar ser, ele próprio, a vítima. A algoz tem que ser Dilma, porque Lula não tem colado nesse papel. Como a prancha de Serra está contra a onda, no entanto, o marketing teria que conseguir uma sintonia muito fina. É tênue a separação entre uma acusação - a de que Dilma é a responsável pela quebra de sigilo - e a infâmia, no ouvido do eleitor. Quando a onda está contra o candidato que faz a acusação, um erro é fatal. Essa sintonia não parece que está sendo conseguida. O aumento da rejeição do candidato tucano, desde o início da propaganda eleitoral, é alarmante.
Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras
"É tênue a separação entre uma acusação - a de que Dilma é a responsável pela quebra de sigilo - e a infâmia, no ouvido do eleitor. Quando a onda está contra o candidato que faz a acusação, um erro é fatal. Essa sintonia não parece que está sendo conseguida. O aumento da rejeição do candidato tucano, desde o início da propaganda eleitoral, é alarmante"
Do Valor
Oposição a Lula virou amizade, quase amor
Maria Inês Nassif
Sem bater em Lula, o marketing de Serra tenta transformá-lo em vítima de Dilma
Em 1989, Fernando Collor de Mello, ex-governador do Estado mais pobre da Federação, Alagoas, assumiu um discurso ofensivo - no sentido também de ofender -, selecionou uma série de desaforos destinados a abalar um governo caindo de impopularidade e partidos em crise, e definiu bordões para causar pânico em torno do candidato de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, seu principal concorrente. Collor venceu atirando para todos os lados. Levou junto um partido que inventou antes das eleições, o PRN, que morreu junto com o seu curto reinado.
A eleição de Collor foi a consagração do marketing político como arma eleitoral. Os alvos do candidato eram escolhidos em pesquisas qualitativas, que definiam os inimigos a combater para alcançar popularidade e as fragilidades do principal concorrente. Pegou um país saído do massacre ideológico do discurso anticomunista da ditadura e que vivia uma hiperinflação. Atacou o governo José Sarney pela incompetência administrativa e Lula pelo temor da classe média. Além do horário eleitoral gratuito, tinha o apoio de uma mídia que estava sem candidatos, sofria com a hiperinflação e preferia que o PT ficasse longe do poder.
Foi o início e o auge da influência do marketing político. E o marketing foi tão eficiente porque não brigou com os fatos: o governo era impopular mesmo e seu candidato não subia nas pesquisas; a classe média e as elites tinham medo real de Lula, eram maleáveis a um discurso moralista e de direita e faziam a cabeça dos de baixo. O PMDB, o grande partido do momento, vivia a crise do governo José Sarney e a compartimentação dos interesses de seus líderes regionais e abandonou aos lobos o seu candidato a presidente, Ulysses Guimarães.
Os marqueteiros de Collor trabalharam em terreno fértil - e sua agressividade foi guindada à condição de ira divina. Um impeachment e quatro eleições depois, todavia, a eficiência desse modelo é questionável. Simplesmente porque vai contra a realidade.
Em 2006, nas eleições pós-mensalão, a oposição tentou reeditar o discurso de Collor. Os alvos eram um governo que os partidos adversários consideravam acabado e um partido, o PT, que tinha por decadente. Na cabeça dos partidos oposicionistas, Lula era um Collor pré-impeachment ou um José Sarney em final de mandato: estava condenado a deixar o poder. O modelo do discurso agressivo, beirando as bravatas machistas do Collor presidente, foi o escolhido para derrubar Lula - ou pelo impeachment, em 2005, ou pelo voto, em 2006. Um senador, no plenário, chegou a ameaçar bater em Lula.
O erro de avaliação foi fatal para a oposição. A popularidade de Lula nas pesquisas subiu rapidamente após a ofensiva dos partidos oposicionistas no Congresso. Em 2006, o candidato tucano, Geraldo Alckmin, chegou a ter mais votos no primeiro do que no segundo turno. A avaliação da oposição, sobre a qual o discurso político foi construído, não levou em conta mudanças que estavam se produzindo no país. Os programas de transferência de renda, em especial o Bolsa Família, despiram as classes média e alta do papel de mediadores de voto das classes menos favorecidas. Lula tinha um patrimônio eleitoral próprio. A agressividade do discurso da oposição, em vez de desgastar o presidente que disputava a reeleição, vitimizou-o. Produziu solidariedade, em vez de provocar aversão.
Da vitória de Lula em 2006 para cá, o modelo Collor de marketing político teria que ter passado por grandes mudanças. Elas foram apenas cosméticas. O marketing de Serra, nos primeiros dias de propaganda eleitoral gratuita, optou por não comprar briga com Lula e não negar a sua popularidade. O problema é que o discurso soou falso. Desde 2005, a oposição aparece na mídia em confronto radical com o presidente que agora é tratado com condescendência, quase amor. No último round eleitoral, Serra tem se apegado às quebras de sigilo fiscal de pessoas próximas a ele. As acusações recaem sobre a candidata do PT, Dilma Rousseff, e sobre o seu partido, e não sobre o chefe de um governo cuja Receita Federal deixou vazar sigilos.
Enquanto o marketing de Dilma a une a Lula, o de Serra tenta separá-los. Os índices de pesquisa acabam mostrando que a eficiência do marketing é tão maior quanto mais próxima da realidade. As estratégias de campanha de Dilma deslizam numa realidade em que o eleitor tende à continuidade, gosta do presidente e incorporou naturalmente o trabalho de identificação feito entre a candidata e o seu padrinho. As estratégias eleitorais de Serra nadam contra a corrente de um eleitorado majoritariamente governista e da identificação da ex-ministra com o governo que é amplamente aprovado pela população.
A saída de Serra é tentar ser, ele próprio, a vítima. A algoz tem que ser Dilma, porque Lula não tem colado nesse papel. Como a prancha de Serra está contra a onda, no entanto, o marketing teria que conseguir uma sintonia muito fina. É tênue a separação entre uma acusação - a de que Dilma é a responsável pela quebra de sigilo - e a infâmia, no ouvido do eleitor. Quando a onda está contra o candidato que faz a acusação, um erro é fatal. Essa sintonia não parece que está sendo conseguida. O aumento da rejeição do candidato tucano, desde o início da propaganda eleitoral, é alarmante.
Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Desbaratada rede de prostituição masculina
BBC Brasil: Espanha desbarata rede de prostituição masculina de brasileiros
Prisões foram feitas em cinco cidades diferentes da Espanha
A polícia nacional da Espanha anunciou nesta terça-feira a prisão de 14 pessoas envolvidas em uma rede dedicada a explorar sexualmente homens brasileiros.
Segundo a polícia, a rede, formada em sua maioria por brasileiros, atraía outras pessoas do país com passagens de avião e promessas de trabalho na Europa.
Ao chegar à Espanha, eles eram obrigados a se prostituir para pagar dívidas que chegavam a 4 mil euros (cerca de R$ 8,9 mil).
Os homens eram distribuídos por diferentes casas de encontros pelo país e precisavam estar disponíveis para programas 24 horas por dia.
Para atrair clientes, as fotos dos brasileiros foram publicadas em anúncios em revistas e em sites na internet anunciando seus serviços.
Viagra
Segundo a polícia, os homens recebiam da rede de prostituição Viagra, cocaína e outras drogas.
Eles eram obrigados a dar à rede 50% do que recebiam com os programas e pagar pelo alojamento e alimentação, além de quitar a dívida da passagem e do transporte.
De acordo com as autoridades policiais, os homens que se recusavam a cumprir as ordens da gangue ou causavam algum problema eram submetidos a ameaças de morte.
Até às 12h desta terça-feira, a polícia espanhola ainda não tinha um balanço com o número de homens explorados pela rede, mas 17 deles também foram detidos pelas autoridades locais sob a acusação de estarem ilegalmente no país.
As prisões foram feitas pela polícia nas cidades de Palma de Mallorca, León, Barcelona, Alicante e Madri.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Deu no Conversa Afiada: O Pará e o Brasil não são o que o jn mostrou. O jn é uma fraude
* Publicado em 27/08/2010, no Conversa Afiada
Amigo navegante Antonio, paraense, liga de Belém para demonstrar profunda irritação com a visão haitiana do Brasil, pelo jornal nacional.
Diz o Antonio.
Para ir a Jacundá, no Pará, o jornal nacional teve que fazer escala em Marabá, não é isso ?
Por que ele não deu um pulinho a Marabá ?
A reportagem sobre Jacundá faz parte dessa nova espécie de jornalismo aero-rocambolesco, para denegrir a imagem do Brasil – do jeito que o Ali Kamel gosta.
Marabá talvez seja o maior pólo de crescimento da economia brasileira hoje.
Marabá é uma China de crescimento econômico.
A Vale constrói ali uma usina de laminados, a Alpa, que, sozinha, cria 18 mil empregos.
A Alpa será uma das principais beneficiárias da usina de Belo Monte.
(Belo Monte, que a urubóloga Miriam Leitão criticou tanto, será a terceira maior hidrelétrica do mundo – um horror !)
Por causa da Alpa e da energia de Belo Monte, 40 indústrias se instalarão em Marabá.
Em Marabá passa uma das maiores pontes ferroviárias sobre rio do mundo, para levar o minério de ferro que sai de Carajás a caminho do Maranhão.
Veja que horror !
A população de Marabá deve crescer 150% até 2014.
Até lá serão criados 70 mil novos empregos e a associação comercial calcula que serão investidos US$ 33 bilhões.
No momento em Marabá se constrói um shopping-center de 30 mil metros quadrados de área de loja , com lojas âncoras do padrão de Riachuelo, Marisa e C&A.
O responsável pelo empreendimento é o grupo Leolá, que tem mais de 60 lojas na região de Marabá.
O jornal nacional, amigo navegante, é uma fraude.
Esse sorteio das cidades brasileiras pelo jornal nacional lembra muito o Globope.
Veja como o jornal nacional descreve o Brasil (e o Pará):
Violência é um dos principais problemas de Jacundá, PA
Terceiro destino do JN no Ar é a quinta cidade mais violenta do Pará, e 96% da população não tem acesso ao sistema de esgoto.
imprimir
O sorteio de quarta-feira, aqui no Jornal Nacional, determinou que a equipe do JN no Ar cruzasse o Brasil, do Sul para o Norte, em direção à cidade de Jacundá, no Pará.
Nesta quinta, antes de mostrar a reportagem do Ernesto Paglia, a gente vai apresentar algumas informações importantes sobre o estado.
Pará: 7,5 milhões de habitantes. É o estado mais populoso do norte, e o que produz mais riquezas. Apesar disso, tem o menor rendimento médio mensal da região.
Os paraenses convivem com a segunda maior taxa de homicídios do país. Por outro lado, são os que têm a maior expectativa de vida do Norte.
“A diversidade nossa é imensa: suco de cupuaçu, nosso tacacá, nossa maniçoba, nosso pato no tucupi”.
Mais da metade dos moradores não recebe água encanada, e 96% não têm esgoto. O analfabetismo atinge 9,3 % da população, um pouco abaixo da média nacional, que é de 9,8%.
O Pará tem 4,7 milhões de eleitores. Para chegar ao destino, o jato que leva a equipe do repórter Ernesto Paglia pousou em Marabá, no Aeroporto João Corrêa da Rocha.
O repórter Ernesto Paglia falou, ao vivo, do aeroporto e contou o que eles encontraram em Jacundá.
Vocês sabem que Jacundá é uma destas comunidades relativamente jovens do Norte do país. Parece que as pessoas foram se implantando na cidade, de forma pioneira; e o Estado, as instituições e a lei só vão chegando aos poucos, e nem sempre são bem assimilados, bem adaptados pela população local, esses pioneiros que estão lá.
São só 15 km asfaltados de Marabá até Jacundá, mas mesmo esta é uma viagem bastante sacrificada.
A estrada de Jacundá é estreita, marcada por remendos e freadas de caminhão.
A política é tensa. E aparece logo na chegada. Somos rodeados por partidários do candidato que teve mais votos em 2008, mas não assumiu a prefeitura, por causa de problemas com a Justiça Eleitoral.
“Estamos em um processo democrático que Jacundá não está tendo”.
“Tenho 16 anos e posso andar de moto. Aqui é assim, não tem lei não”.
Nas ruas, não vimos viaturas. Só uma blitz da Polícia Rodoviária, fora da cidade.
Mesmo na rodovia, a fiscalização não resolve. Motoqueiros irregulares esperam no acostamento até o bloqueio ir embora. E nem pensam em legalizar a própria situação. “Eu estou sem carteira, porque o governo não dá chance pra gente. É culpa do governo, porque eu tenho que desembolsar R$ 1,5 mil, e eu ganho um salário mínimo. Ainda tenho que ir em Marabá tirar carteira, porque em Jacundá não tira”.
Ilegalidade mais grave aparece no desabafo da moradora: “Tem violência, assassinatos, bandidagem”. Jacundá é a quinta cidade mais violenta do Pará, estado com o maior número de conflitos no campo do país, e o maior número de homicídios no Norte.
Em uma reunião anual, que estava acontecendo nesta quinta-feira em Jacundá, encontramos gente preocupada com outros problemas da cidade: a prostituição infantil e o abuso sexual de menores.
Ano passado, 52 casos de violência sexual foram registrados em Jacundá. Uma agricultora procurou o Conselho Tutelar semana passada para denunciar um vizinho abusou da filha dela, deficiente mental, de quatorze anos: “Ele aproveitou que ela tem esse problema, e se aproveitou dela”.
As madeireiras são importantes na economia de Jacundá. Uma das maiores é de um ex-prefeito. Parte da madeira, diz o dono, é nativa, retirada sob supervisão da Secretaria do Meio Ambiente do Pará. A outra vem do replantio de áreas que já foram exploradas no passado.
“Nós estamos partindo para o reflorestamento, porque agora nós temos condições para reflorestar”, disse o dono da madeireira, Adão Ribeiro.
Cuidar do futuro ainda é exceção por aqui. As pequenas carvoarias, que concentram muitos casos de trabalho escravo, mostram o lado mais atrasado deste pedaço do Pará.
“Todos que estão aqui, com certeza não queriam estar aqui. Mas fazer o que?”.
Paulo Henrique Amorim
Amigo navegante Antonio, paraense, liga de Belém para demonstrar profunda irritação com a visão haitiana do Brasil, pelo jornal nacional.
Diz o Antonio.
Para ir a Jacundá, no Pará, o jornal nacional teve que fazer escala em Marabá, não é isso ?
Por que ele não deu um pulinho a Marabá ?
A reportagem sobre Jacundá faz parte dessa nova espécie de jornalismo aero-rocambolesco, para denegrir a imagem do Brasil – do jeito que o Ali Kamel gosta.
Marabá talvez seja o maior pólo de crescimento da economia brasileira hoje.
Marabá é uma China de crescimento econômico.
A Vale constrói ali uma usina de laminados, a Alpa, que, sozinha, cria 18 mil empregos.
A Alpa será uma das principais beneficiárias da usina de Belo Monte.
(Belo Monte, que a urubóloga Miriam Leitão criticou tanto, será a terceira maior hidrelétrica do mundo – um horror !)
Por causa da Alpa e da energia de Belo Monte, 40 indústrias se instalarão em Marabá.
Em Marabá passa uma das maiores pontes ferroviárias sobre rio do mundo, para levar o minério de ferro que sai de Carajás a caminho do Maranhão.
Veja que horror !
A população de Marabá deve crescer 150% até 2014.
Até lá serão criados 70 mil novos empregos e a associação comercial calcula que serão investidos US$ 33 bilhões.
No momento em Marabá se constrói um shopping-center de 30 mil metros quadrados de área de loja , com lojas âncoras do padrão de Riachuelo, Marisa e C&A.
O responsável pelo empreendimento é o grupo Leolá, que tem mais de 60 lojas na região de Marabá.
O jornal nacional, amigo navegante, é uma fraude.
Esse sorteio das cidades brasileiras pelo jornal nacional lembra muito o Globope.
Veja como o jornal nacional descreve o Brasil (e o Pará):
Violência é um dos principais problemas de Jacundá, PA
Terceiro destino do JN no Ar é a quinta cidade mais violenta do Pará, e 96% da população não tem acesso ao sistema de esgoto.
imprimir
O sorteio de quarta-feira, aqui no Jornal Nacional, determinou que a equipe do JN no Ar cruzasse o Brasil, do Sul para o Norte, em direção à cidade de Jacundá, no Pará.
Nesta quinta, antes de mostrar a reportagem do Ernesto Paglia, a gente vai apresentar algumas informações importantes sobre o estado.
Pará: 7,5 milhões de habitantes. É o estado mais populoso do norte, e o que produz mais riquezas. Apesar disso, tem o menor rendimento médio mensal da região.
Os paraenses convivem com a segunda maior taxa de homicídios do país. Por outro lado, são os que têm a maior expectativa de vida do Norte.
“A diversidade nossa é imensa: suco de cupuaçu, nosso tacacá, nossa maniçoba, nosso pato no tucupi”.
Mais da metade dos moradores não recebe água encanada, e 96% não têm esgoto. O analfabetismo atinge 9,3 % da população, um pouco abaixo da média nacional, que é de 9,8%.
O Pará tem 4,7 milhões de eleitores. Para chegar ao destino, o jato que leva a equipe do repórter Ernesto Paglia pousou em Marabá, no Aeroporto João Corrêa da Rocha.
O repórter Ernesto Paglia falou, ao vivo, do aeroporto e contou o que eles encontraram em Jacundá.
Vocês sabem que Jacundá é uma destas comunidades relativamente jovens do Norte do país. Parece que as pessoas foram se implantando na cidade, de forma pioneira; e o Estado, as instituições e a lei só vão chegando aos poucos, e nem sempre são bem assimilados, bem adaptados pela população local, esses pioneiros que estão lá.
São só 15 km asfaltados de Marabá até Jacundá, mas mesmo esta é uma viagem bastante sacrificada.
A estrada de Jacundá é estreita, marcada por remendos e freadas de caminhão.
A política é tensa. E aparece logo na chegada. Somos rodeados por partidários do candidato que teve mais votos em 2008, mas não assumiu a prefeitura, por causa de problemas com a Justiça Eleitoral.
“Estamos em um processo democrático que Jacundá não está tendo”.
“Tenho 16 anos e posso andar de moto. Aqui é assim, não tem lei não”.
Nas ruas, não vimos viaturas. Só uma blitz da Polícia Rodoviária, fora da cidade.
Mesmo na rodovia, a fiscalização não resolve. Motoqueiros irregulares esperam no acostamento até o bloqueio ir embora. E nem pensam em legalizar a própria situação. “Eu estou sem carteira, porque o governo não dá chance pra gente. É culpa do governo, porque eu tenho que desembolsar R$ 1,5 mil, e eu ganho um salário mínimo. Ainda tenho que ir em Marabá tirar carteira, porque em Jacundá não tira”.
Ilegalidade mais grave aparece no desabafo da moradora: “Tem violência, assassinatos, bandidagem”. Jacundá é a quinta cidade mais violenta do Pará, estado com o maior número de conflitos no campo do país, e o maior número de homicídios no Norte.
Em uma reunião anual, que estava acontecendo nesta quinta-feira em Jacundá, encontramos gente preocupada com outros problemas da cidade: a prostituição infantil e o abuso sexual de menores.
Ano passado, 52 casos de violência sexual foram registrados em Jacundá. Uma agricultora procurou o Conselho Tutelar semana passada para denunciar um vizinho abusou da filha dela, deficiente mental, de quatorze anos: “Ele aproveitou que ela tem esse problema, e se aproveitou dela”.
As madeireiras são importantes na economia de Jacundá. Uma das maiores é de um ex-prefeito. Parte da madeira, diz o dono, é nativa, retirada sob supervisão da Secretaria do Meio Ambiente do Pará. A outra vem do replantio de áreas que já foram exploradas no passado.
“Nós estamos partindo para o reflorestamento, porque agora nós temos condições para reflorestar”, disse o dono da madeireira, Adão Ribeiro.
Cuidar do futuro ainda é exceção por aqui. As pequenas carvoarias, que concentram muitos casos de trabalho escravo, mostram o lado mais atrasado deste pedaço do Pará.
“Todos que estão aqui, com certeza não queriam estar aqui. Mas fazer o que?”.
Paulo Henrique Amorim
domingo, 29 de agosto de 2010
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Um texto que emociona, brilhante!
Copiado do Tijolaço.com, de Brizola Neto

São Paulo precisa ser líder nesta mudança
Ao longo do dia, vou tentar analisar os resultados do Datafolha em detalhes, agora que o instituto de pesquisa parece ter “entregado os pontos” e passado a fazer estatística em lugar de propaganda política. Como todos já sabem, a pesquisa divulgada hoje pela Folha de S. Paulo coloca Dilma 20 pontos à frente de Serra, com 49%, contra 29% do candidato tucano.
Ipiranga, um símbolo que São Paulo precisa partilhar com o Brasil
Ainda hoje de manhã, porque a gente não é de ferro, também posto uma sugestão de novo jingle para a campanha serrista, já que a gente tem o direito de ver, em matéria de pesquisas, como dizem os versos de Geraldo Vandré, “a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar”.
Agora, entretanto, queria refletir com vocês sobre a oportunidade que se abre diante nós e que não pode ser desperdiçada.
Estamos nos aproximando de uma vitória estrondosa do povo brasileiro. A política, se não pode prescindir das pesquisas estatísticas, não se faz apenas com elas, mas com coerência de pensamento, sinceridade de sentimentos e, sobretudo, sensibilidade para perceber como caminha o processo social, como se forma e se expressa a consciência do povo brasileiro.
Não é preciso dizer que Lula percebeu isso como poucos, e tenho certeza de que eu aqui, modestamente, não incorria no erro de não perceber os sinais que ele dava.
Porque tudo que as pesquisas mostram, hoje, já existia, de forma subjacente, latente, perceptível, embora silenciosa.
Essa não seria a eleição do “paz e amor”, do “ele não morde”, do “não é comunista”. Seria a eleição da afirmação de um destino para o Brasil e para o povo brasileiro, com muito mais evidência do que foi a dele próprio, Luís Inácio Lula da Silva.
Lula o compreendeu, já desde o momento em que ungiu Dilma como sua candidata à sucessão.
Sua escolha, ela própria, foi um sinal. Não foi a simpatia, o peso eleitoral regional, o traquejo político que Dilma pudesse ter – embora quem a conheça sabe que a dureza que, eventualmente, ela possa ter transmitido a alguns venha não de sua natureza pessoal, mas da função de anteparo e de gestora que o presidente lhe dera ao colocá-la à frente da Casa Civil.
Dilma não é a candidata de Lula por acaso, ou apenas por qualquer simpatia pessoal que ele lhe vote. É a candidata de Lula porque nela Lula viu as características, ideológicas e de caráter pessoal, para assumir, a seu lado, o comando de um processo de transformação profunda do Brasil, o qual ainda mal começou.
Os últimos anos assemelham-se, metaforicamente, ao processo que se passou nos anos 30.
Lá, o Brasil arcaico, rural, das províncias e da política oligárquica, por uma ruptura das elites, de um lado, e um inconformismo popular que já se expressara no tenentismo e na Coluna Prestes, precisava romper aquelas estruturas para se tornar moderno, urbano, industrial. E numa sociedade que pretendia tornar-se moderna, urbana, industrial, as massas populares são, necessariamente, personagens protagônicos.
A inclusão dessas massas na vida nacional, substituindo a hegemonia patriarcal, teve em Getúlio Vargas seu ponto fulcral. Embora desde bem antes defendesse os valores de humanidade – então, os “princípios cristãos” de dignidade humana – o torvelinho de transformações é menos obra de Vargas do que do processo social. Seu valor e grandeza são tê-lo absorvido e simbolizado, introjetado tanto isto em si que sua própria vida física se tornou ferramenta deste seu dever de líder popular.
Esta mudança exigiu rupturas. E a maior delas foi, evidentemente, a perda de parte do poder das oligarquias paulistas. Um poder que não era apenas econômico, mas político ideológico. O argumento, claro, era a democracia em perigo – e a democracia, até ali, era a das eleições a bico de pena – e o discurso é que São Paulo era “a província” rica que sustentava o pobre Brasil. A história da locomotiva que puxava o pesado trem Brasil.
Só um louco deixaria de reconhecer a pujança de São Paulo e o caráter empreendedor de seu povo, inclusive daqueles que se tornaram, ali, os “capitães de indústria”.
Mas suas elites não viram que a modernização do Brasil, feita pelo Governo Vargas, significou até para elas um progresso e uma riqueza em escala que jamais teriam no Brasil arcaico que lamentaram em armas perder em 32.
Até os anos 60, o poder nacional foi repartido e São Paulo jamais teve prejuízos com isso. Foi lá que se formaram as grandes empresas brasileiras e para lá se dirigiram as que vinham de fora para implantar-se aqui, como a automobilística.
Mas, no pós-64, São Paulo tornou-se um vórtice, que engoliu tudo o que o Brasil produzia, de bom e de mau. Engoliu porque o capital financeiro tornou-a o ponto de desequilíbrio da vida nacional, porque ali passou-se a viver da grana que ergue e destrói coisas belas, como nos cantou Caetano Veloso. Até mesmo parte do pensamento acadêmico de São Paulo absorveu e processou sofisticamente essa deformação, renegando tudo o que que o Brasil extra-São Paulo produzira em lutas sociais. Deste núcleo, justamente, é que vieram os Fernando Henrique Cardoso e os José Serra.
O luxo e a miséria, a cultura e a exclusão, o bom e o mau passaram a se concentrar de tal maneira que os problemas de São Paulo já não têm soluções locais, porque depende de que ela faça parte de um país do qual ela não sugue, junto com as riquezas, a pobreza que não tem onde sobreviver.
Quando o Nordeste cresce, dá emprego e vida digna a seus filhos, faz bem a São paulo que não incha. Quando o Centro-Oeste encontra sua vocação agroindustrial, faz bem a São Paulo que pode trocar espaços e atividades mais adequadas á densidade de seu território. Quando se faz progredir a Amazônia sem destruí-la com a ganância dos grandes e o desespero dos pequenos, limpa-se o ar dos paulistas. Quando o Rio se recupera e recupera sua alegria, São Paulo ganha seu irmão implicante e divertido, que, de tão perto que está, não pode ficar senão ombro a ombro com ela, com as cotoveladas que os irmãos se dão.
Este novo momento de transformação do Brasil não pode ser feito contra São Paulo, nem muito menos sem ele. O Brasil do povo é, é claro, o Brasil onde povo paulista é protagonista. As elites dali tentam afastá-lo desta vocação de brasilidade, de integração que vem desde as bandeiras, dizendo que elas farão (ou fazem) de São Paulo um lugar perfeito. Mas como pode ser perfeito um lugar em que a miséria e o medo fecham os vidros dos carros, onde a periferia vira um quisto que se avoluma e ameaça engolfar toda a vida.
Temos todos um dever, a começar por Lula. Estender a vitória de Dilma a São Paulo como quem estende a mão a um irmão que foi levado a não se sentir parte da família. E a mão de São Paulo vai se estender, porque sua mão é a do povo, não de suas elites. Alguns companheiros, a meu ver, entendem mal esta missão, e cuidam de se tornarem palatáveis para a ela, nem que tenham de fazer um cursinho rápido de inglês, como disse ontem Lula ao comentar a reação da família Frias ao fato de ele pretender ser presidente da república sem falar o idioma dos dominadores.
Nós, cariocas, gaúchos, baianos, pernambucanos, cearenses, acreanos, somos todos paulistas porque amamos o progresso dessa terra e o povo que a ergueu e fez progredir, vindo de toda a parte. E os paulistas compreendem isso. Houve 1932, mas 14 anos depois, lá elegeram Getúlio senador com uma retumbante votação.
Dilma já está na frente em São Paulo, como em todo o Brasil. Vamos todos, de todas as partes, chamar São Paulo, o povo paulista e dizer: venham, venham, meus irmãos, venham ser líderes, como a sua capacidade lhes permite, de um país só, de um sonho só, de uma mudança na vida brasileira que só fará de São Paulo um lugar melhor para todos os paulistas.
São Paulo precisa ser líder nesta mudança
Ao longo do dia, vou tentar analisar os resultados do Datafolha em detalhes, agora que o instituto de pesquisa parece ter “entregado os pontos” e passado a fazer estatística em lugar de propaganda política. Como todos já sabem, a pesquisa divulgada hoje pela Folha de S. Paulo coloca Dilma 20 pontos à frente de Serra, com 49%, contra 29% do candidato tucano.
Ipiranga, um símbolo que São Paulo precisa partilhar com o Brasil
Ainda hoje de manhã, porque a gente não é de ferro, também posto uma sugestão de novo jingle para a campanha serrista, já que a gente tem o direito de ver, em matéria de pesquisas, como dizem os versos de Geraldo Vandré, “a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar”.
Agora, entretanto, queria refletir com vocês sobre a oportunidade que se abre diante nós e que não pode ser desperdiçada.
Estamos nos aproximando de uma vitória estrondosa do povo brasileiro. A política, se não pode prescindir das pesquisas estatísticas, não se faz apenas com elas, mas com coerência de pensamento, sinceridade de sentimentos e, sobretudo, sensibilidade para perceber como caminha o processo social, como se forma e se expressa a consciência do povo brasileiro.
Não é preciso dizer que Lula percebeu isso como poucos, e tenho certeza de que eu aqui, modestamente, não incorria no erro de não perceber os sinais que ele dava.
Porque tudo que as pesquisas mostram, hoje, já existia, de forma subjacente, latente, perceptível, embora silenciosa.
Essa não seria a eleição do “paz e amor”, do “ele não morde”, do “não é comunista”. Seria a eleição da afirmação de um destino para o Brasil e para o povo brasileiro, com muito mais evidência do que foi a dele próprio, Luís Inácio Lula da Silva.
Lula o compreendeu, já desde o momento em que ungiu Dilma como sua candidata à sucessão.
Sua escolha, ela própria, foi um sinal. Não foi a simpatia, o peso eleitoral regional, o traquejo político que Dilma pudesse ter – embora quem a conheça sabe que a dureza que, eventualmente, ela possa ter transmitido a alguns venha não de sua natureza pessoal, mas da função de anteparo e de gestora que o presidente lhe dera ao colocá-la à frente da Casa Civil.
Dilma não é a candidata de Lula por acaso, ou apenas por qualquer simpatia pessoal que ele lhe vote. É a candidata de Lula porque nela Lula viu as características, ideológicas e de caráter pessoal, para assumir, a seu lado, o comando de um processo de transformação profunda do Brasil, o qual ainda mal começou.
Os últimos anos assemelham-se, metaforicamente, ao processo que se passou nos anos 30.
Lá, o Brasil arcaico, rural, das províncias e da política oligárquica, por uma ruptura das elites, de um lado, e um inconformismo popular que já se expressara no tenentismo e na Coluna Prestes, precisava romper aquelas estruturas para se tornar moderno, urbano, industrial. E numa sociedade que pretendia tornar-se moderna, urbana, industrial, as massas populares são, necessariamente, personagens protagônicos.
A inclusão dessas massas na vida nacional, substituindo a hegemonia patriarcal, teve em Getúlio Vargas seu ponto fulcral. Embora desde bem antes defendesse os valores de humanidade – então, os “princípios cristãos” de dignidade humana – o torvelinho de transformações é menos obra de Vargas do que do processo social. Seu valor e grandeza são tê-lo absorvido e simbolizado, introjetado tanto isto em si que sua própria vida física se tornou ferramenta deste seu dever de líder popular.
Esta mudança exigiu rupturas. E a maior delas foi, evidentemente, a perda de parte do poder das oligarquias paulistas. Um poder que não era apenas econômico, mas político ideológico. O argumento, claro, era a democracia em perigo – e a democracia, até ali, era a das eleições a bico de pena – e o discurso é que São Paulo era “a província” rica que sustentava o pobre Brasil. A história da locomotiva que puxava o pesado trem Brasil.
Só um louco deixaria de reconhecer a pujança de São Paulo e o caráter empreendedor de seu povo, inclusive daqueles que se tornaram, ali, os “capitães de indústria”.
Mas suas elites não viram que a modernização do Brasil, feita pelo Governo Vargas, significou até para elas um progresso e uma riqueza em escala que jamais teriam no Brasil arcaico que lamentaram em armas perder em 32.
Até os anos 60, o poder nacional foi repartido e São Paulo jamais teve prejuízos com isso. Foi lá que se formaram as grandes empresas brasileiras e para lá se dirigiram as que vinham de fora para implantar-se aqui, como a automobilística.
Mas, no pós-64, São Paulo tornou-se um vórtice, que engoliu tudo o que o Brasil produzia, de bom e de mau. Engoliu porque o capital financeiro tornou-a o ponto de desequilíbrio da vida nacional, porque ali passou-se a viver da grana que ergue e destrói coisas belas, como nos cantou Caetano Veloso. Até mesmo parte do pensamento acadêmico de São Paulo absorveu e processou sofisticamente essa deformação, renegando tudo o que que o Brasil extra-São Paulo produzira em lutas sociais. Deste núcleo, justamente, é que vieram os Fernando Henrique Cardoso e os José Serra.
O luxo e a miséria, a cultura e a exclusão, o bom e o mau passaram a se concentrar de tal maneira que os problemas de São Paulo já não têm soluções locais, porque depende de que ela faça parte de um país do qual ela não sugue, junto com as riquezas, a pobreza que não tem onde sobreviver.
Quando o Nordeste cresce, dá emprego e vida digna a seus filhos, faz bem a São paulo que não incha. Quando o Centro-Oeste encontra sua vocação agroindustrial, faz bem a São Paulo que pode trocar espaços e atividades mais adequadas á densidade de seu território. Quando se faz progredir a Amazônia sem destruí-la com a ganância dos grandes e o desespero dos pequenos, limpa-se o ar dos paulistas. Quando o Rio se recupera e recupera sua alegria, São Paulo ganha seu irmão implicante e divertido, que, de tão perto que está, não pode ficar senão ombro a ombro com ela, com as cotoveladas que os irmãos se dão.
Este novo momento de transformação do Brasil não pode ser feito contra São Paulo, nem muito menos sem ele. O Brasil do povo é, é claro, o Brasil onde povo paulista é protagonista. As elites dali tentam afastá-lo desta vocação de brasilidade, de integração que vem desde as bandeiras, dizendo que elas farão (ou fazem) de São Paulo um lugar perfeito. Mas como pode ser perfeito um lugar em que a miséria e o medo fecham os vidros dos carros, onde a periferia vira um quisto que se avoluma e ameaça engolfar toda a vida.
Temos todos um dever, a começar por Lula. Estender a vitória de Dilma a São Paulo como quem estende a mão a um irmão que foi levado a não se sentir parte da família. E a mão de São Paulo vai se estender, porque sua mão é a do povo, não de suas elites. Alguns companheiros, a meu ver, entendem mal esta missão, e cuidam de se tornarem palatáveis para a ela, nem que tenham de fazer um cursinho rápido de inglês, como disse ontem Lula ao comentar a reação da família Frias ao fato de ele pretender ser presidente da república sem falar o idioma dos dominadores.
Nós, cariocas, gaúchos, baianos, pernambucanos, cearenses, acreanos, somos todos paulistas porque amamos o progresso dessa terra e o povo que a ergueu e fez progredir, vindo de toda a parte. E os paulistas compreendem isso. Houve 1932, mas 14 anos depois, lá elegeram Getúlio senador com uma retumbante votação.
Dilma já está na frente em São Paulo, como em todo o Brasil. Vamos todos, de todas as partes, chamar São Paulo, o povo paulista e dizer: venham, venham, meus irmãos, venham ser líderes, como a sua capacidade lhes permite, de um país só, de um sonho só, de uma mudança na vida brasileira que só fará de São Paulo um lugar melhor para todos os paulistas.
sábado, 14 de agosto de 2010
Os riscos de uma Terceira Guerra Mundial
Da Carta Maior:

Objetivo Irã: os riscos de uma Terceira Guerra Mundial
As consequências de um ataque mais amplo por parte dos EUA, da OTAN e de Israel contra o Irã são de grande alcance. A guerra e a crise econômica estão intimamente relacionadas. A economia de guerra é financiada por Wall Street que, por sua vez, se ergue como credor da administração dos EUA. Por sua vez, “a luta pelo petróleo” no Oriente Médio e Ásia Central serve diretamente aos interesses dos gigantes do petróleo anglo-estadunidense. Os EUA e seus aliados estão “batendo os tambores da guerra” na altura de uma depressão econômica mundial, para não mencionar a catástrofe ambiental mais grave na história da humanidade. O artigo é de Michel Chossudovsky, diretor do Centro para Investigação sobre a Globalização.
Michel Chossudovsky - Global Research
Centro para a Investigação da Globalização (Global Research on Globalization)
A humanidade está numa encruzilhada perigosa. Os preparativos de guerra para atacar o Irã estão em estágio avançado. Sistemas de alta tecnologia, incluindo armas nucleares, estão totalmente desenvolvidos. Esta aventura militar está colocada sobre o tabuleiro de xadrez do Pentágono desde meados da década de 1990. Primeiro o Iraque, depois o Irã, segundo documentos desclassificados de 1995, do Comando Central dos EUA.
A escalada é parte da agenda militar. Além do Irã, próximo objetivo junto com a Síria e o Líbano, esse desdobramento estratégico ameaça também a Coréia do Norte, a China e a Rússia. Desde 2005, os EUA e seus aliados, incluídos aqui os Estados Unidos da OTAN e Israel, estão envolvidos numa ampla atividade e no armazenamento de sistemas de armas avançados.
Os sistemas de defesa aéreos dos EUA, os países membros da OTAN e Israel estão totalmente integrados. Trata-se de uma tarefa coordenada pelo Pentágono, pela OTAN e pela Força de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês), com a participação ativa de militares de vários países da OTAN e não só, incluindo os estados árabes de primeira linha (os membros da OTAN do Mediterrâneo e a Iniciativa de Cooperação de Istambul), Arábia Saudita, Japão, Coréia do Sul, Índia, Indonésia, Singapura, Austrália, entre outros. A OTAN se compõe de 28 estados membros. Outros 21 países são membros do Conselho da Aliança Euro-Atlântica (EAPC); o Diálogo Mediterrânico e a Iniciativa de Cooperação de Istambul contam com dez países árabes e Israel.
O papel do Egito, dos Estados do Golfo e da Arábia Saudita (dentro de uma aliança militar ampliada) é de particular relevância. O Egito controla o trânsito de barcos de guerra e de barcos petroleiros pelo Canal de Suez. Arábia Saudita e os Estados do Golfo ocupam a costa ocidental do sul do Golfo Pérsico, o estreito de Ormuz e o Golfo de Omã.
Em princípios de junho deste ano o Egito informou que permitiu a onze barcos dos EUA e de Israel passar pelo Canal de Suez, numa aparente sinalização ao Irã. Em 12 de junho, vozes da imprensa regional informaram que os sauditas haviam dado a Israel autorização para sobrevoar seu espaço aéreo (Mirak Weissbach Muriel, Israel Insane War on Iran Must Be Prevented, Global Research, 31 de julho de 2010). Na doutrina militar consagrada após o 11 de setembro, o estabelecimento massivo de armamento militar se definiu como parte da chamada Guerra Global contra o terrorismo, dirigido para organizações terroristas não estatais, como a Al Qaeda e os chamados Estados patrocinadores do terrorismo, entre eles o Irã, Síria, Líbano e Sudão.
A criação de novas bases militares dos EUA, o armazenamento de armas avançadas, incluindo as armas nucleares táticas, etc. foram levadas a cabo como parte da preventiva doutrina militar defensiva debaixo do guarda chuva da "Guerra Global contra o Terrorismo".
Guerra e crise econômica
As consequências de um ataque mais amplo por parte dos EUA, da OTAN e de Israel contra o Irã são de grande alcance. A guerra e a crise econômica estão intimamente relacionadas. A economia de guerra é financiada por Wall Street que, por sua vez, se ergue como credor da administração dos EUA.
Os produtores de armas dos EUA são os destinatários de bilhões de dólares do Departamento de Defesa do país, pelos contratos de aquisição de sistemas de armas avançadas.
Por sua vez, “a luta pelo petróleo” no Oriente Médio e Ásia Central serve diretamente aos interesses dos gigantes do petróleo anglo-estadunidense. Os EUA e seus aliados estão “batendo os tambores da guerra” na altura de uma depressão econômica mundial, para não mencionar a catástrofe ambiental mais grave na história da humanidade. Por amarga ironia, a British Petroleum, uma das maiores jogadoras do tabuleiro de xadrez geopolítico da Ásia Central no Médio Oriente, antigamente conhecida como Anglo-Persian Oil, causou a terrível catástrofe ecológica no Golfo do México.
Meios de desinformação
A opinião pública, influenciada pelo barulho dos meios de comunicação, oferece apoio tático, indiferente ou ignorante dos possíveis impactos daquilo que se mantém propositalmente como um fator punitivo da operação dirigida contra as instalações nucleares do Irã em lugar de uma guerra total.
Os preparativos de guerra incluem o aumento da atividade dos fabricantes de armas nucleares dos EUA e de Israel. Neste contexto, as consequências devastadoras de uma guerra nuclear são banalizadas ou simplesmente não se mencionam. A crise “real” que ameaça a humanidade é o “aquecimento global” e não a guerra.
A guerra contra o Irã é apresentada à opinião pública como um tema banal entre tantos outros. Não é apresentado como uma ameaça à Mãe Terra, como é o caso do aquecimento global. Não se noticia com destaque. O fato de que um ataque contra o Irã poderia levar a uma potencial escalada e o desencadear uma guerra global não é motivo de preocupação.
Culto à morte e a destruição
A máquina global de matar é sustentada pelo culto à morte e pela destruição que impregnam muitos dos filmes de Hollywood, e por não mencionar as guerras no horário nobre. E também pelas séries de televisão sobre delinquência.
Este culto à matança está respaldado pela CIA e pelo Pentágono, que apóia, financiando, produções de Hollywood como instrumento de propaganda de guerra.
O ex-agente da CIA Bob Baer disse: "Existe uma simbiose entre a CIA e Hollywood e revelou que o ex-diretor da CIA, George Tenet, se encontra atualmente em Hollywood, conversando com os estúdios. (Matthew Alford and Robie Graham, “Lights, Camera Covert Action: The Deep Politics of Hollywood”, Global Research, 31 de janeiro de 2009).
A máquina de matar se desenvolveu em nível global dentro do marco de estrutura de comando de combate unificado. E é mantida habitualmente por instituições de governo, meios corporativos, altos funcionários e intelectuais que se colocam à disposição de uma Nova Ordem Mundial a partir de um grupo de pensadores de Washington e dos institutos de investigação de estudos estratégicos, como instrumento indiscutível da paz e da prosperidade mundial. É a cultura da morte e da violência gravando-se na consciência humana.
A guerra está amplamente aceita como parte de um projeto social: a Pátria tem que ser defendida e protegida.
A violência legitimada e as execuções extrajudiciais contra os terroristas são mantidas nas democracias ocidentais como instrumentos necessários de segurança nacional.
Uma “guerra humanitária” é sustentada pela chamada comunidade internacional. Não é condenada como um ato criminoso. Seus principais idealizadores são recompensados por suas contribuições à paz mundial. Em relação ao Irã, o que se está desenvolvendo é a legitimação direta de uma guerra em nome de uma idéia ilusória de segurança mundial.
Um ataque aéreo “preventivo” contra o Irã levaria a uma escalada. Na atualidade existem três teatros de guerra no Oriente Médio e Ásia Central: Iraque, Afeganistão/Paquistão e Palestina.
Se o Irã se tornar objeto de um ataque “preventivo” por forças aliadas, toda a região, desde o Mediterrâneo Oriental até a fronteira da China com o Afeganistão e o Paquistão poderia arder em chamas, o que nos conduz, potencialmente, a um cenário de Terceira Guerra Mundial.
A guerra se estenderia ao Líbano e a Síria. É muito pouco provável que se os ataques, caso se concretizassem, ficassem circunscritos a instalações nucleares do Irã, como afirmam as declarações oficiais dos EUA e da OTAN. O mais provável será um ataque aéreo tanto a infraestruturas militares como civis, sistemas de transporte, fábricas e edifícios públicos.
O Irã, com dez por cento estimados do petróleo mundial, ocupa o terceiro lugar em reservas de gás, depois da Arábia Saudita (25%) e o Iraque (11%), pelo tamanho de suas reservas. Em comparação, os EUA têm menos de 2,8% das reservas mundiais de petróleo. (Cf. Eric Waddell, The Battle for Oil, Global Research, dezembro de 2004).
É de grande importância o recente descobrimento no Irã, nas regiões de Soumar e Halgan, das segundas maiores reservas mundiais conhecidas que se estimam em 12,4 bilhões de pés cúbicos. Apontar as armas ao Irã não só consiste em recuperar o controle anglo-estadunidense sobre o petróleo e a economia de gás, incluindo-se as rotas de oleodutos, mas também questiona a influência da China e da Rússia na região.
O ataque planificado contra o Irã faz parte de um mapa global coordenado de orientação militar. É parte da “longa guerra do Pentágono”, uma proveitosa guerra sem fronteiras, um projeto de dominação mundial, uma sequencia de operações militares.
Os planificadores militares dos EUA e da OTAN têm previsto diversos cenários da escalada militar. E são também muito conscientes das implicações geopolíticas, como por exemplo, saber que a guerra poderá se estender para além da região do Oriente Médio e da Ásia Central. Os efeitos econômicos sobre os mercados do petróleo, etc. são também analisados. Enquanto o Irã, a Síria e o Líbano são os objetivos imediatos, China, Rússia, Coréia do Norte, sem contar Venezuela e Cuba, são também objeto de ameaça dos EUA.
Está em jogo a estrutura das alianças militares. As atividades militares da OTAN-EUA-Israel, incluindo manobras e exercícios realizados na Rússia e suas fronteiras próximas com a China têm uma relação direta com a guerra proposta contra o Irã. Estas ameaças veladas, incluindo o seu calendário, constituem um claro aviso aos antigos poderes da época da Guerra Fria, para evitar que possam ou venham a interferir em um ataque dos EUA ao Irã.
Guerra Mundial
O objetivo estratégico em médio prazo é chegar ao Irã e neutralizar seus aliados, através da diplomacia dos tiros de canhão. O objetivo militar em longo prazo é dirigir-se diretamente à China e a Rússia.
Ainda que o Irã seja o objetivo imediato, o desdobramento militar não se limita ao Oriente Médio e a Ásia Central. Uma agenda militar global está estabelecida. O avanço das tropas de coalizão e os sistemas de armas avançadas dos EUA, da OTAN e seus sócios, está se configurando de forma simultânea em todas as principais regiões do mundo.
As recentes ações dos militares dos EUA em frente as costas da Coréia do Norte em forma de manobras são parte de um desenho global. Os exercícios militares, simulações de guerra, o deslocamento de armas, etc. dos EUA, da OTAN e seus aliados que se estão realizando simultaneamente nos principais pontos geopolíticos, visam principalmente a Rússia e a China.
-A península da Coréia, o Mar do Japão, o estreito de Taiwan, o Mar Meridional da China, ameaçam a China.
- O deslocamento de mísseis Patriot para Polônia, o Centro de Alerta próximo à República Checa, ameaça a Rússia.
- Avanços navais na Bulgária, na Romênia e Mar Negro, ameaçam a Rússia.
- Avanços de tropas da OTAN e dos EUA na Geórgia também.
- Um deslocamento naval de grande dimensão no Golfo Pérsico, incluindo-se submarinos israelenses, dirigidos contra o Irã.
Ao mesmo tempo, o Mediterrâneo Oriental, o Mar Negro, o Caribe, América Central e região andina da América do Sul, são as zonas de militarização em curso. Na América Latina e no Caribe, as ameaças se dirigem à Venezuela e a Cuba.
“Ajuda militar” dos EUA
Por sua vez, transferências de armas em grande escala foram feitas sob a bandeira norte americana como “ajuda militar” a países selecionados, incluindo-se cinco bilhões de dólares num acordo de armamento com a Índia que se destina a melhorar as capacidades bélicas da Índia contra a China. (Huge U.S – Índia Arms Deal To Contain China, Global Times, 13 de julho de 2010).
“Isto (a venda de armas) significa melhorar as relações entre Washington e Nova Delhi e, de forma deliberada ou não terá o efeito de conter a influência da China na região”. (Citado em Rick Rozoff, Confronting both China and Russia: U.S. Risks Military Clash With China in Yellow Sea, Global Research, 16 de julho de 2010).
Os EUA conseguiram acordos de cooperação militar com alguns países do sul da Ásia Oriental, como Singapura, Vietnã e Indonésia, incluindo sua “ajuda militar”, assim como a participação em manobras militares, sempre dirigidas pelos Estados Unidos, na órbita do Pacífico (julho/agosto de 2010). Esses acordos são de apoio às implementações de armas dirigidas contra a República Popular da China. (Cf. Rick Rozoff, op. Cit.)
Do mesmo modo e mais diretamente relacionado ao ataque planificado contra o Irã, os EUA estão armando os Estados do Golfo (Bahrein, Kuwait, Qatar e os Emirados Árabes Unidos) com o interceptador de mísseis terra-ar Patriot Advanced Capability-3 (THAAD), assim como os baseados nos modelos de mísseis mar-3, interceptadores instalados em barcos de guerra de classe Aegis no Golfo Pérsico. (Cf. Rick Rozoff, NATO’s Role in the Military Encirclement of Iran, 10 de fevereiro de 2010).
Calendário de provisão e armazenamento militar
No que diz respeito à transferência de armas dos EUA para sócios e aliados, o crucial é o momento da entrega e do seu desdobramento. O lançamento de uma operação militar dos EUA ocorrerá, uma vez que esses sistemas de armas estejam em seu lugar mediante o desenvolvimento efetivo da aplicação e da capacitação do pessoal preparado. (Por exemplo, a Índia)
Estamos falando de um desenho militar mundial cuidadosamente coordenado e controlado pelo Pentágono, com a participação de forças armadas combinadas de mais de quarenta países. Esse desdobramento militar mundial é, com certeza, o maior desdobramento de sistema de armas avançados da história.
Por sua vez, os EUA e seus aliados têm estabelecido novas bases militares em diferentes partes do mundo. “A superfície da terra está estruturada como se fosse um enorme campo de batalha” (Cf. Jules Dufour, The Worldwide Network of US Military Bases, Investigación Global, 01 de julho de 2007).
O Comando Unificado da estrutura geográfica dividida em comandos de combate tem como base uma estratégia de militarização em nível global. “Os militares norte americanos têm bases em 63 países. E novas bases foram construídas a partir do 11 de setembro de 2001 em sete países. No total, existem 255.065 militares dos EUA distribuídos por todo o mundo”. (Cf. Jules Dufour, op. Cit.)
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O cenário da Terceira Guerra Mundial
Esse desdobramento militar se produz em várias regiões e ao mesmo tempo sob a coordenação dos comandos regionais dos EUA com a participação de aliados no armazenamento de arsenais norte americanos, inclusive antigos inimigos, como o Vietnã e o Japão.
O contexto atual se caracteriza por uma acumulação militar global controlada por uma superpotência mundial que está utilizando seus aliados para desencadear numerosas guerras regionais.
A diferença que se estabelece com a Segunda Guerra Mundial, que foi também uma conjunção de distintas guerras regionais, é que com a tecnologia de comunicações e sistemas de armas da década de 1940, não havia estratégia em “tempo real” para coordenar as ações militares entre grandes regiões geográficas.
A guerra mundial se apóia num desdobramento coordenado de uma só potência militar dominante, que supervisiona as ações de seus aliados e sócios.
Com exceção de Hiroshima e Nagasak, a Segunda Guerra Mundial se caracterizou pelo uso de armas convencionais. A planificação de uma guerra mundial se baseia na militarização do espaço ultra terrestre.
Se uma guerra contra o Irã se inicia, não somente o uso de armas nucleares, mas toda uma gama de novos sistemas de armas avançadas, incluindo armas eletrônicas e técnicas de modificação ambiental, seria utilizada.
O Conselho de Segurança das Nações Unidas
O Conselho de Segurança da ONU aprovou em princípios de junho último uma quarta rodada de sanções de grande alcance contra a República Islâmica do Irã, que incluem o embargo de armas e “controles financeiros mais estritos”.
Em amarga ironia, esta resolução foi aprovada poucos dias depois da negativa pura e simples do mesmo Conselho de Segurança em adotar uma moção de condenação ao Estado de Israel em seu ataque à Frota pela Liberdade em Gaza em águas internacionais.
Tanto a China quanto a Rússia, pressionados pelos EUA, têm apoiado o regime de sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas em seu próprio prejuízo. Suas decisões no CS contribuem para enfraquecer sua própria aliança militar, a Organização de Cooperação de Xangai (OCS), onde o Irã tem o estatuto de observador. A resolução do Conselho de Segurança congela os respectivos acordos de cooperação militar e econômica da China e da Rússia com o Irã. Isto tem graves repercussões no sistema de defesa aérea do Irã que, em parte, depende da tecnologia e da experiência russas. A Resolução do Conselho de Segurança outorga, de fato, “luz verde” para liberar uma guerra preventiva contra o Irã.
A inquisição estadunidense: construção de um consenso político para a guerra
Em coro, os meios de comunicação ocidentais têm qualificado o Irã como uma ameaça à segurança mundial por seu suposto (inexistente) programa de armas nucleares. Fazendo eco com as declarações oficiais, os meios de comunicação estão exigindo agora a aplicação de bombardeios punitivos dirigidos contra o Irã, a fim de salvaguardar a integridade de Israel.
Esse mesmos meios de comunicação fazem soar os tambores de guerra. O propósito é incutir na mente das pessoas, a partir da repetição de notícias até a exaustão, a idéia de que a ameaça iraniana é real e que a República islâmica deve ser “banida”.
O processo de criação de um consenso para fazer a guerra é similar ao da Inquisição espanhola. Requer e exige submissão à idéia de que a guerra é uma tarefa humanitária.
Contudo, conhecida e documentada, a verdadeira ameaça à segurança global vem da aliança EUA-OTAN-Israel; na verdade, a realidade por um ambiente inquisitorial é exatamente o seu oposto: os belicistas parecem estar comprometidos com a paz, enquanto as vítimas da guerra se apresentam como protagonistas do conflito.
Considerando que em 2006 quase dois terços dos norte americanos se opunham a uma ação militar contra o Iraque, uma recente pesquisa feita em 2010 pela Reuter-Zogby, indica que 56% dos estadunidenses são favoráveis a uma ação militar da OTAN contra o Irã. A construção de um consenso político que se nutre de uma mentira não pode, contudo, confiar somente na posição oficial daqueles que são a fonte da própria mentira.
Os movimentos pacifistas nos EUA, que em parte têm sido infiltrados e cooptados, assumiram uma posição fragilizada em relação ao Irã. O movimento contra a guerra está dividido. A ênfase se coloca contra as guerras que estão em andamento (Afeganistão e Iraque) ao invés de se oporem vigorosamente a guerras que estão sendo preparadas e que se encontram sobre o tabuleiro de xadrez do Pentágono.
Desde a posse de Barack Obama, o movimento contra a guerra perdeu muito da sua força. Por outro lado, aqueles que se opõem ativamente às guerras no Afeganistão e no Iraque, não se opõem necessariamente à realização de “bombardeios punitivos” contra o Irã, nem consideram essas ações como atos de guerra. Guerra esta que poderia ser o prelúdio da Terceira Guerra Mundial.
A escalada de protestos contra a guerra em relação ao Irã tem sido mínima em comparação com as enormes manifestações que precederam os bombardeios de 2003 e a invasão do Iraque.
Mas a verdadeira ameaça à segurança do mundo vem da aliança EUA-OTAN-Israel. À operação Irã, não se opuseram, no âmbito diplomático, tanto a China quanto a Rússia, sendo que conta também com o apoio dos governos dos estados árabes de primeira linha que integram o diálogo OTAN - Mediterrâneo. Conta também com o apoio tácito da opinião pública ocidental.
Fazemos aqui um apelo às pessoas de todos os países, nas Américas, Europa Ocidental, Turquia, Israel, em todo o mundo, a levantarem-se contra este projeto militar, contra os seus governos que apóiam a ação militar no Irã, a levantarem-se contra os meios de comunicação que servem para dissimular as devastadoras conseqüências de uma guerra contra o Irã. Esta guerra será uma insanidade.
A Terceira Guerra Mundial é terminal. Albert Einstein sabia dos perigos da guerra nuclear e da extinção da vida na terra, que já começou com a contaminação radioativa resultante do urânio empobrecido. “Não sei com que armas se fará a luta numa III Guerra Mundial, mas na IV Guerra Mundial se lutará com paus e pedras”. Os meios de comunicação, os intelectuais, os cientistas e os políticos, em coro, ofuscam a verdade não contada, ou seja, que a guerra que utiliza ogivas nucleares destrói a humanidade e que este complexo processo de destruição gradual já começou.
Quando a mentira se converte em verdade, já não há volta atrás. Quando a guerra se invoca como uma “tarefa humanitária”, a justiça e todo o sistema jurídico internacional são tomados ao contrário: o pacifismo e o movimento contra a guerra são criminalizados. Opor-se à guerra se converte num ato criminoso.
A mentira deve ser exposta como aquilo que é e o que faz: sanciona a matança indiscriminada de homens, mulheres e crianças. Destrói famílias e pessoas. Destrói o compromisso das pessoas com os seus semelhantes. Impede as pessoas de expressarem sua solidariedade pelos que sofrem. Defende a guerra e o estado policial como a única saída. Destrói o internacionalismo.
Impedir a mentira significa impedir um projeto criminoso de destruição global. Nela, a busca do benefício é a força primordial. Este benefício, movendo a agenda militar, destrói os valores humanos e transforma as pessoas em zumbis inconscientes. Vamos inverter essa maré.
Desafio aos criminosos de guerra em seus altos cargos e em suas poderosas corporações, bem como aos grupos de pressão que os apóiam: fim da inquisição dos Estados Unidos da América. Fim da cruzada militar EUA-OTAN-Israel.Fechem as fábricas de armas e as bases militares. Retirada das tropas dos campos de guerra. Os membros das Forças Armadas devem desobedecer às ordens e negarem-se a participar de uma guerra criminosa.
(*) Michel Chossudovsky é laureado autor, professor (emérito) de Economia na Universidade de Ottawa e diretor do Centro para Investigação sobre a Globalização (CRG), Montreal. É autor de ‘La Globalización de la Pobreza y el Nuevo Orden Mundial’ (2003) e de ‘La guerra de América contra el terrorismo’ (2005). Também é colaborador da Enciclopédia Britânica. Seus escritos são publicados em mais de vinte idiomas.
Tradução do espanhol de Izaías Almada.
Objetivo Irã: os riscos de uma Terceira Guerra Mundial
As consequências de um ataque mais amplo por parte dos EUA, da OTAN e de Israel contra o Irã são de grande alcance. A guerra e a crise econômica estão intimamente relacionadas. A economia de guerra é financiada por Wall Street que, por sua vez, se ergue como credor da administração dos EUA. Por sua vez, “a luta pelo petróleo” no Oriente Médio e Ásia Central serve diretamente aos interesses dos gigantes do petróleo anglo-estadunidense. Os EUA e seus aliados estão “batendo os tambores da guerra” na altura de uma depressão econômica mundial, para não mencionar a catástrofe ambiental mais grave na história da humanidade. O artigo é de Michel Chossudovsky, diretor do Centro para Investigação sobre a Globalização.
Michel Chossudovsky - Global Research
Centro para a Investigação da Globalização (Global Research on Globalization)
A humanidade está numa encruzilhada perigosa. Os preparativos de guerra para atacar o Irã estão em estágio avançado. Sistemas de alta tecnologia, incluindo armas nucleares, estão totalmente desenvolvidos. Esta aventura militar está colocada sobre o tabuleiro de xadrez do Pentágono desde meados da década de 1990. Primeiro o Iraque, depois o Irã, segundo documentos desclassificados de 1995, do Comando Central dos EUA.
A escalada é parte da agenda militar. Além do Irã, próximo objetivo junto com a Síria e o Líbano, esse desdobramento estratégico ameaça também a Coréia do Norte, a China e a Rússia. Desde 2005, os EUA e seus aliados, incluídos aqui os Estados Unidos da OTAN e Israel, estão envolvidos numa ampla atividade e no armazenamento de sistemas de armas avançados.
Os sistemas de defesa aéreos dos EUA, os países membros da OTAN e Israel estão totalmente integrados. Trata-se de uma tarefa coordenada pelo Pentágono, pela OTAN e pela Força de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês), com a participação ativa de militares de vários países da OTAN e não só, incluindo os estados árabes de primeira linha (os membros da OTAN do Mediterrâneo e a Iniciativa de Cooperação de Istambul), Arábia Saudita, Japão, Coréia do Sul, Índia, Indonésia, Singapura, Austrália, entre outros. A OTAN se compõe de 28 estados membros. Outros 21 países são membros do Conselho da Aliança Euro-Atlântica (EAPC); o Diálogo Mediterrânico e a Iniciativa de Cooperação de Istambul contam com dez países árabes e Israel.
O papel do Egito, dos Estados do Golfo e da Arábia Saudita (dentro de uma aliança militar ampliada) é de particular relevância. O Egito controla o trânsito de barcos de guerra e de barcos petroleiros pelo Canal de Suez. Arábia Saudita e os Estados do Golfo ocupam a costa ocidental do sul do Golfo Pérsico, o estreito de Ormuz e o Golfo de Omã.
Em princípios de junho deste ano o Egito informou que permitiu a onze barcos dos EUA e de Israel passar pelo Canal de Suez, numa aparente sinalização ao Irã. Em 12 de junho, vozes da imprensa regional informaram que os sauditas haviam dado a Israel autorização para sobrevoar seu espaço aéreo (Mirak Weissbach Muriel, Israel Insane War on Iran Must Be Prevented, Global Research, 31 de julho de 2010). Na doutrina militar consagrada após o 11 de setembro, o estabelecimento massivo de armamento militar se definiu como parte da chamada Guerra Global contra o terrorismo, dirigido para organizações terroristas não estatais, como a Al Qaeda e os chamados Estados patrocinadores do terrorismo, entre eles o Irã, Síria, Líbano e Sudão.
A criação de novas bases militares dos EUA, o armazenamento de armas avançadas, incluindo as armas nucleares táticas, etc. foram levadas a cabo como parte da preventiva doutrina militar defensiva debaixo do guarda chuva da "Guerra Global contra o Terrorismo".
Guerra e crise econômica
As consequências de um ataque mais amplo por parte dos EUA, da OTAN e de Israel contra o Irã são de grande alcance. A guerra e a crise econômica estão intimamente relacionadas. A economia de guerra é financiada por Wall Street que, por sua vez, se ergue como credor da administração dos EUA.
Os produtores de armas dos EUA são os destinatários de bilhões de dólares do Departamento de Defesa do país, pelos contratos de aquisição de sistemas de armas avançadas.
Por sua vez, “a luta pelo petróleo” no Oriente Médio e Ásia Central serve diretamente aos interesses dos gigantes do petróleo anglo-estadunidense. Os EUA e seus aliados estão “batendo os tambores da guerra” na altura de uma depressão econômica mundial, para não mencionar a catástrofe ambiental mais grave na história da humanidade. Por amarga ironia, a British Petroleum, uma das maiores jogadoras do tabuleiro de xadrez geopolítico da Ásia Central no Médio Oriente, antigamente conhecida como Anglo-Persian Oil, causou a terrível catástrofe ecológica no Golfo do México.
Meios de desinformação
A opinião pública, influenciada pelo barulho dos meios de comunicação, oferece apoio tático, indiferente ou ignorante dos possíveis impactos daquilo que se mantém propositalmente como um fator punitivo da operação dirigida contra as instalações nucleares do Irã em lugar de uma guerra total.
Os preparativos de guerra incluem o aumento da atividade dos fabricantes de armas nucleares dos EUA e de Israel. Neste contexto, as consequências devastadoras de uma guerra nuclear são banalizadas ou simplesmente não se mencionam. A crise “real” que ameaça a humanidade é o “aquecimento global” e não a guerra.
A guerra contra o Irã é apresentada à opinião pública como um tema banal entre tantos outros. Não é apresentado como uma ameaça à Mãe Terra, como é o caso do aquecimento global. Não se noticia com destaque. O fato de que um ataque contra o Irã poderia levar a uma potencial escalada e o desencadear uma guerra global não é motivo de preocupação.
Culto à morte e a destruição
A máquina global de matar é sustentada pelo culto à morte e pela destruição que impregnam muitos dos filmes de Hollywood, e por não mencionar as guerras no horário nobre. E também pelas séries de televisão sobre delinquência.
Este culto à matança está respaldado pela CIA e pelo Pentágono, que apóia, financiando, produções de Hollywood como instrumento de propaganda de guerra.
O ex-agente da CIA Bob Baer disse: "Existe uma simbiose entre a CIA e Hollywood e revelou que o ex-diretor da CIA, George Tenet, se encontra atualmente em Hollywood, conversando com os estúdios. (Matthew Alford and Robie Graham, “Lights, Camera Covert Action: The Deep Politics of Hollywood”, Global Research, 31 de janeiro de 2009).
A máquina de matar se desenvolveu em nível global dentro do marco de estrutura de comando de combate unificado. E é mantida habitualmente por instituições de governo, meios corporativos, altos funcionários e intelectuais que se colocam à disposição de uma Nova Ordem Mundial a partir de um grupo de pensadores de Washington e dos institutos de investigação de estudos estratégicos, como instrumento indiscutível da paz e da prosperidade mundial. É a cultura da morte e da violência gravando-se na consciência humana.
A guerra está amplamente aceita como parte de um projeto social: a Pátria tem que ser defendida e protegida.
A violência legitimada e as execuções extrajudiciais contra os terroristas são mantidas nas democracias ocidentais como instrumentos necessários de segurança nacional.
Uma “guerra humanitária” é sustentada pela chamada comunidade internacional. Não é condenada como um ato criminoso. Seus principais idealizadores são recompensados por suas contribuições à paz mundial. Em relação ao Irã, o que se está desenvolvendo é a legitimação direta de uma guerra em nome de uma idéia ilusória de segurança mundial.
Um ataque aéreo “preventivo” contra o Irã levaria a uma escalada. Na atualidade existem três teatros de guerra no Oriente Médio e Ásia Central: Iraque, Afeganistão/Paquistão e Palestina.
Se o Irã se tornar objeto de um ataque “preventivo” por forças aliadas, toda a região, desde o Mediterrâneo Oriental até a fronteira da China com o Afeganistão e o Paquistão poderia arder em chamas, o que nos conduz, potencialmente, a um cenário de Terceira Guerra Mundial.
A guerra se estenderia ao Líbano e a Síria. É muito pouco provável que se os ataques, caso se concretizassem, ficassem circunscritos a instalações nucleares do Irã, como afirmam as declarações oficiais dos EUA e da OTAN. O mais provável será um ataque aéreo tanto a infraestruturas militares como civis, sistemas de transporte, fábricas e edifícios públicos.
O Irã, com dez por cento estimados do petróleo mundial, ocupa o terceiro lugar em reservas de gás, depois da Arábia Saudita (25%) e o Iraque (11%), pelo tamanho de suas reservas. Em comparação, os EUA têm menos de 2,8% das reservas mundiais de petróleo. (Cf. Eric Waddell, The Battle for Oil, Global Research, dezembro de 2004).
É de grande importância o recente descobrimento no Irã, nas regiões de Soumar e Halgan, das segundas maiores reservas mundiais conhecidas que se estimam em 12,4 bilhões de pés cúbicos. Apontar as armas ao Irã não só consiste em recuperar o controle anglo-estadunidense sobre o petróleo e a economia de gás, incluindo-se as rotas de oleodutos, mas também questiona a influência da China e da Rússia na região.
O ataque planificado contra o Irã faz parte de um mapa global coordenado de orientação militar. É parte da “longa guerra do Pentágono”, uma proveitosa guerra sem fronteiras, um projeto de dominação mundial, uma sequencia de operações militares.
Os planificadores militares dos EUA e da OTAN têm previsto diversos cenários da escalada militar. E são também muito conscientes das implicações geopolíticas, como por exemplo, saber que a guerra poderá se estender para além da região do Oriente Médio e da Ásia Central. Os efeitos econômicos sobre os mercados do petróleo, etc. são também analisados. Enquanto o Irã, a Síria e o Líbano são os objetivos imediatos, China, Rússia, Coréia do Norte, sem contar Venezuela e Cuba, são também objeto de ameaça dos EUA.
Está em jogo a estrutura das alianças militares. As atividades militares da OTAN-EUA-Israel, incluindo manobras e exercícios realizados na Rússia e suas fronteiras próximas com a China têm uma relação direta com a guerra proposta contra o Irã. Estas ameaças veladas, incluindo o seu calendário, constituem um claro aviso aos antigos poderes da época da Guerra Fria, para evitar que possam ou venham a interferir em um ataque dos EUA ao Irã.
Guerra Mundial
O objetivo estratégico em médio prazo é chegar ao Irã e neutralizar seus aliados, através da diplomacia dos tiros de canhão. O objetivo militar em longo prazo é dirigir-se diretamente à China e a Rússia.
Ainda que o Irã seja o objetivo imediato, o desdobramento militar não se limita ao Oriente Médio e a Ásia Central. Uma agenda militar global está estabelecida. O avanço das tropas de coalizão e os sistemas de armas avançadas dos EUA, da OTAN e seus sócios, está se configurando de forma simultânea em todas as principais regiões do mundo.
As recentes ações dos militares dos EUA em frente as costas da Coréia do Norte em forma de manobras são parte de um desenho global. Os exercícios militares, simulações de guerra, o deslocamento de armas, etc. dos EUA, da OTAN e seus aliados que se estão realizando simultaneamente nos principais pontos geopolíticos, visam principalmente a Rússia e a China.
-A península da Coréia, o Mar do Japão, o estreito de Taiwan, o Mar Meridional da China, ameaçam a China.
- O deslocamento de mísseis Patriot para Polônia, o Centro de Alerta próximo à República Checa, ameaça a Rússia.
- Avanços navais na Bulgária, na Romênia e Mar Negro, ameaçam a Rússia.
- Avanços de tropas da OTAN e dos EUA na Geórgia também.
- Um deslocamento naval de grande dimensão no Golfo Pérsico, incluindo-se submarinos israelenses, dirigidos contra o Irã.
Ao mesmo tempo, o Mediterrâneo Oriental, o Mar Negro, o Caribe, América Central e região andina da América do Sul, são as zonas de militarização em curso. Na América Latina e no Caribe, as ameaças se dirigem à Venezuela e a Cuba.
“Ajuda militar” dos EUA
Por sua vez, transferências de armas em grande escala foram feitas sob a bandeira norte americana como “ajuda militar” a países selecionados, incluindo-se cinco bilhões de dólares num acordo de armamento com a Índia que se destina a melhorar as capacidades bélicas da Índia contra a China. (Huge U.S – Índia Arms Deal To Contain China, Global Times, 13 de julho de 2010).
“Isto (a venda de armas) significa melhorar as relações entre Washington e Nova Delhi e, de forma deliberada ou não terá o efeito de conter a influência da China na região”. (Citado em Rick Rozoff, Confronting both China and Russia: U.S. Risks Military Clash With China in Yellow Sea, Global Research, 16 de julho de 2010).
Os EUA conseguiram acordos de cooperação militar com alguns países do sul da Ásia Oriental, como Singapura, Vietnã e Indonésia, incluindo sua “ajuda militar”, assim como a participação em manobras militares, sempre dirigidas pelos Estados Unidos, na órbita do Pacífico (julho/agosto de 2010). Esses acordos são de apoio às implementações de armas dirigidas contra a República Popular da China. (Cf. Rick Rozoff, op. Cit.)
Do mesmo modo e mais diretamente relacionado ao ataque planificado contra o Irã, os EUA estão armando os Estados do Golfo (Bahrein, Kuwait, Qatar e os Emirados Árabes Unidos) com o interceptador de mísseis terra-ar Patriot Advanced Capability-3 (THAAD), assim como os baseados nos modelos de mísseis mar-3, interceptadores instalados em barcos de guerra de classe Aegis no Golfo Pérsico. (Cf. Rick Rozoff, NATO’s Role in the Military Encirclement of Iran, 10 de fevereiro de 2010).
Calendário de provisão e armazenamento militar
No que diz respeito à transferência de armas dos EUA para sócios e aliados, o crucial é o momento da entrega e do seu desdobramento. O lançamento de uma operação militar dos EUA ocorrerá, uma vez que esses sistemas de armas estejam em seu lugar mediante o desenvolvimento efetivo da aplicação e da capacitação do pessoal preparado. (Por exemplo, a Índia)
Estamos falando de um desenho militar mundial cuidadosamente coordenado e controlado pelo Pentágono, com a participação de forças armadas combinadas de mais de quarenta países. Esse desdobramento militar mundial é, com certeza, o maior desdobramento de sistema de armas avançados da história.
Por sua vez, os EUA e seus aliados têm estabelecido novas bases militares em diferentes partes do mundo. “A superfície da terra está estruturada como se fosse um enorme campo de batalha” (Cf. Jules Dufour, The Worldwide Network of US Military Bases, Investigación Global, 01 de julho de 2007).
O Comando Unificado da estrutura geográfica dividida em comandos de combate tem como base uma estratégia de militarização em nível global. “Os militares norte americanos têm bases em 63 países. E novas bases foram construídas a partir do 11 de setembro de 2001 em sete países. No total, existem 255.065 militares dos EUA distribuídos por todo o mundo”. (Cf. Jules Dufour, op. Cit.)
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O cenário da Terceira Guerra Mundial
Esse desdobramento militar se produz em várias regiões e ao mesmo tempo sob a coordenação dos comandos regionais dos EUA com a participação de aliados no armazenamento de arsenais norte americanos, inclusive antigos inimigos, como o Vietnã e o Japão.
O contexto atual se caracteriza por uma acumulação militar global controlada por uma superpotência mundial que está utilizando seus aliados para desencadear numerosas guerras regionais.
A diferença que se estabelece com a Segunda Guerra Mundial, que foi também uma conjunção de distintas guerras regionais, é que com a tecnologia de comunicações e sistemas de armas da década de 1940, não havia estratégia em “tempo real” para coordenar as ações militares entre grandes regiões geográficas.
A guerra mundial se apóia num desdobramento coordenado de uma só potência militar dominante, que supervisiona as ações de seus aliados e sócios.
Com exceção de Hiroshima e Nagasak, a Segunda Guerra Mundial se caracterizou pelo uso de armas convencionais. A planificação de uma guerra mundial se baseia na militarização do espaço ultra terrestre.
Se uma guerra contra o Irã se inicia, não somente o uso de armas nucleares, mas toda uma gama de novos sistemas de armas avançadas, incluindo armas eletrônicas e técnicas de modificação ambiental, seria utilizada.
O Conselho de Segurança das Nações Unidas
O Conselho de Segurança da ONU aprovou em princípios de junho último uma quarta rodada de sanções de grande alcance contra a República Islâmica do Irã, que incluem o embargo de armas e “controles financeiros mais estritos”.
Em amarga ironia, esta resolução foi aprovada poucos dias depois da negativa pura e simples do mesmo Conselho de Segurança em adotar uma moção de condenação ao Estado de Israel em seu ataque à Frota pela Liberdade em Gaza em águas internacionais.
Tanto a China quanto a Rússia, pressionados pelos EUA, têm apoiado o regime de sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas em seu próprio prejuízo. Suas decisões no CS contribuem para enfraquecer sua própria aliança militar, a Organização de Cooperação de Xangai (OCS), onde o Irã tem o estatuto de observador. A resolução do Conselho de Segurança congela os respectivos acordos de cooperação militar e econômica da China e da Rússia com o Irã. Isto tem graves repercussões no sistema de defesa aérea do Irã que, em parte, depende da tecnologia e da experiência russas. A Resolução do Conselho de Segurança outorga, de fato, “luz verde” para liberar uma guerra preventiva contra o Irã.
A inquisição estadunidense: construção de um consenso político para a guerra
Em coro, os meios de comunicação ocidentais têm qualificado o Irã como uma ameaça à segurança mundial por seu suposto (inexistente) programa de armas nucleares. Fazendo eco com as declarações oficiais, os meios de comunicação estão exigindo agora a aplicação de bombardeios punitivos dirigidos contra o Irã, a fim de salvaguardar a integridade de Israel.
Esse mesmos meios de comunicação fazem soar os tambores de guerra. O propósito é incutir na mente das pessoas, a partir da repetição de notícias até a exaustão, a idéia de que a ameaça iraniana é real e que a República islâmica deve ser “banida”.
O processo de criação de um consenso para fazer a guerra é similar ao da Inquisição espanhola. Requer e exige submissão à idéia de que a guerra é uma tarefa humanitária.
Contudo, conhecida e documentada, a verdadeira ameaça à segurança global vem da aliança EUA-OTAN-Israel; na verdade, a realidade por um ambiente inquisitorial é exatamente o seu oposto: os belicistas parecem estar comprometidos com a paz, enquanto as vítimas da guerra se apresentam como protagonistas do conflito.
Considerando que em 2006 quase dois terços dos norte americanos se opunham a uma ação militar contra o Iraque, uma recente pesquisa feita em 2010 pela Reuter-Zogby, indica que 56% dos estadunidenses são favoráveis a uma ação militar da OTAN contra o Irã. A construção de um consenso político que se nutre de uma mentira não pode, contudo, confiar somente na posição oficial daqueles que são a fonte da própria mentira.
Os movimentos pacifistas nos EUA, que em parte têm sido infiltrados e cooptados, assumiram uma posição fragilizada em relação ao Irã. O movimento contra a guerra está dividido. A ênfase se coloca contra as guerras que estão em andamento (Afeganistão e Iraque) ao invés de se oporem vigorosamente a guerras que estão sendo preparadas e que se encontram sobre o tabuleiro de xadrez do Pentágono.
Desde a posse de Barack Obama, o movimento contra a guerra perdeu muito da sua força. Por outro lado, aqueles que se opõem ativamente às guerras no Afeganistão e no Iraque, não se opõem necessariamente à realização de “bombardeios punitivos” contra o Irã, nem consideram essas ações como atos de guerra. Guerra esta que poderia ser o prelúdio da Terceira Guerra Mundial.
A escalada de protestos contra a guerra em relação ao Irã tem sido mínima em comparação com as enormes manifestações que precederam os bombardeios de 2003 e a invasão do Iraque.
Mas a verdadeira ameaça à segurança do mundo vem da aliança EUA-OTAN-Israel. À operação Irã, não se opuseram, no âmbito diplomático, tanto a China quanto a Rússia, sendo que conta também com o apoio dos governos dos estados árabes de primeira linha que integram o diálogo OTAN - Mediterrâneo. Conta também com o apoio tácito da opinião pública ocidental.
Fazemos aqui um apelo às pessoas de todos os países, nas Américas, Europa Ocidental, Turquia, Israel, em todo o mundo, a levantarem-se contra este projeto militar, contra os seus governos que apóiam a ação militar no Irã, a levantarem-se contra os meios de comunicação que servem para dissimular as devastadoras conseqüências de uma guerra contra o Irã. Esta guerra será uma insanidade.
A Terceira Guerra Mundial é terminal. Albert Einstein sabia dos perigos da guerra nuclear e da extinção da vida na terra, que já começou com a contaminação radioativa resultante do urânio empobrecido. “Não sei com que armas se fará a luta numa III Guerra Mundial, mas na IV Guerra Mundial se lutará com paus e pedras”. Os meios de comunicação, os intelectuais, os cientistas e os políticos, em coro, ofuscam a verdade não contada, ou seja, que a guerra que utiliza ogivas nucleares destrói a humanidade e que este complexo processo de destruição gradual já começou.
Quando a mentira se converte em verdade, já não há volta atrás. Quando a guerra se invoca como uma “tarefa humanitária”, a justiça e todo o sistema jurídico internacional são tomados ao contrário: o pacifismo e o movimento contra a guerra são criminalizados. Opor-se à guerra se converte num ato criminoso.
A mentira deve ser exposta como aquilo que é e o que faz: sanciona a matança indiscriminada de homens, mulheres e crianças. Destrói famílias e pessoas. Destrói o compromisso das pessoas com os seus semelhantes. Impede as pessoas de expressarem sua solidariedade pelos que sofrem. Defende a guerra e o estado policial como a única saída. Destrói o internacionalismo.
Impedir a mentira significa impedir um projeto criminoso de destruição global. Nela, a busca do benefício é a força primordial. Este benefício, movendo a agenda militar, destrói os valores humanos e transforma as pessoas em zumbis inconscientes. Vamos inverter essa maré.
Desafio aos criminosos de guerra em seus altos cargos e em suas poderosas corporações, bem como aos grupos de pressão que os apóiam: fim da inquisição dos Estados Unidos da América. Fim da cruzada militar EUA-OTAN-Israel.Fechem as fábricas de armas e as bases militares. Retirada das tropas dos campos de guerra. Os membros das Forças Armadas devem desobedecer às ordens e negarem-se a participar de uma guerra criminosa.
(*) Michel Chossudovsky é laureado autor, professor (emérito) de Economia na Universidade de Ottawa e diretor do Centro para Investigação sobre a Globalização (CRG), Montreal. É autor de ‘La Globalización de la Pobreza y el Nuevo Orden Mundial’ (2003) e de ‘La guerra de América contra el terrorismo’ (2005). Também é colaborador da Enciclopédia Britânica. Seus escritos são publicados em mais de vinte idiomas.
Tradução do espanhol de Izaías Almada.
domingo, 6 de junho de 2010
Do Blog do Miro: O dossiê do simulacro de imprensa

O dossiê do simulacro de imprensa
Reproduzo artigo enviado pelo amigo Gilson Caroni:
Pena que a ficção tenha durado tão pouco. Mas a trama era tão frágil que foi desconstruída com um simples artigo de Luiz Nassif. Trabalhando com a lógica dos fatos, o blogueiro mostrou que o anunciado “novo escorregão petista" era, na verdade, um livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr. Uma obra tão reveladora dos bastidores tucanos que, antes mesmo de existir editorialmente, já virou leitura obrigatória.
Quem acompanha a história da imprensa brasileira sabe de suas conexões com interesses dominantes na sociedade fracionada. Conhece, e bem, como são editados fatos e discursos. Tem noção aguda de que a autonomia relativa de uma redação encontra seus limites nos interesses do patronato. Franklin Martins, Helena Chagas e Rodrigo Viana, demitidos em 2006, estão aí como “respaldo de provas robustas”, “evidências empíricas", sempre solicitadas pelos defensores da grande mídia corporativa quando acusados de trabalhar para partidos da dose, com doses descomunais de panfletarismo.
É de autoria de Paulo Francis a máxima segundo a qual “a história é monótona, a cada minuto nasce um leitor idiota”. Parece que, pelo que temos visto nos últimos oito anos, a suposta idiotia do leitor é algo datado, sem sinalização concreta nos dias atuais. Ainda assim, convém confrontar supostas espertezas que podem custar caro ao campo democrático-popular. Quando isso ocorre, a direita comemora com blocos editorializados no Jornal Nacional. E, claro, a nau dos insensatos ainda chama de bom jornalismo o que não passa de desabrida propaganda ideológica.
Na verdade, os jornalões produzem noticiário somente para leitores alinhados com sua política editorial e os colunistas, do alto de sua insignificância, escrevem para prestar conta apenas a seus patrões. Laurindo Leal Lalo Filho foi preciso ao definir o papel que sobrou o jornalismo impresso protofascista: ser fonte de munição para os veículos eletrônicos (rádio, TV e internet).
Faltou pouco para que a última edição do JN (sábado, 6/6) tivesse fundo musical. Afinal, era comemorativa e o regozijo com um suposto gol contra do adversário é conhecido do torcedor brasileiro. Se servir para ocultar as conquistas do atual governo, e o crescimento da candidatura de Dilma Roussef, tanto melhor. Saímos do campo futebolístico e adentramos a arena da luta de classes, sempre com a elegância da boa diagramação e o capricho nos títulos fortes.
O "dossiê", supostamente produzido pelo núcleo de campanha da ex-ministra, envolvendo Serra e pessoas próximas a ele, foi um presente “inesperado” para aqueles 5% que não se conformam com a reedição de um fenômeno inédito até 2006: uma vitória política, já consolidada no imaginário do eleitorado, não se desdobrar em vitória eleitoral.
Sejamos francos, só mesmo sendo muito ingênuo para cair no “conto do dossiê”. Qualquer pessoa, com um mínimo de bom senso, farejaria de longe a óbvia “trampa”. Um mínimo de pragmatismo saberia que vídeos e papéis, ainda que bombásticos, não teriam qualquer efeito prático à essa altura do campeonato em que, para o PT, a terceira eleição para a presidência da República é um fato altamente provável.
Tentou-se, sem o menor cuidado investigativo, reeditar a aventura midiática de 2006. Qual foi a construção que se procurou vender à época, no chamado “escândalo dos aloprados”? Um pouco de tática de luta sindical misturada ao desespero da facção paulista do partido, ávida por assegurar uma hegemonia em risco, poderia explicar o tiro eleitoral que quase acertou o pé. Ainda mais quando se farejavam as intenções de tucanos lacerdistas e os seguidos pronunciamentos do presidente do TSE (Marco Aurélio Mello) a lhes prometer sustentação legal em sua aventura. Os desmentidos não tardaram a aparecer e o "escândalo", tal como o do “mensalão”, passou a ter valor tão somente como provisão para efetiva perda de estoque informativo.
Para piorar, nas eleições passadas, ainda haveria outro “dossiê” a ser escondido no noticiário global. E ele veio do Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio). Para desespero dos expoentes da Teoria da Dependência, que agora elegeram a UDN como modelo, o nível de pobreza caiu 19,18% nos três primeiros anos do governo Lula, o maior recuo em dez anos. Somemos a isso a retomada do emprego, estagnada há uma década, segundo Marcelo Néri, coordenador da pesquisa.
Mas, há quatro anos, o que mais impressionava no “dossiê” a ser ocultado viria a seguir: Os pobres e ricos tiveram obtiveram ganhos. Porém, segundo Néri, "50% dos mais pobres aumentaram sua renda em 8,5%, enquanto os 10% mais ricos, depois de cinco anos de perdas, tiveram ganhos de cerca 6%. A classe média teve um crescimento um pouco menor, de 5,5% da renda.”
Era esse o governo que tinha privilegiado banqueiros? Os editores se calaram. Aqueles que deveriam sempre se pautar por evidências empíricas que valem o sal de todo mês ficaram calados. Desde então, a grande imprensa se condenou a não cobrir questões programáticas, fugir da grande política, chafurdando no sistema de valências da desqualificação pessoal e de histórias fantasiosas.
Se a grande mídia acreditasse em suas próprias representações, seria desnecessário reiterar que, se existem indícios, por mais tênues que sejam, de possível envolvimento de José Serra com os irregularidades da privataria, por ação ou omissão, tal possibilidade deveria ser investigada. Para um jornalismo correto denúncias não são liminarmente desqualificadas.
Para gáudio dos golpistas, seu colosso midiático produzirá edições inesquecíveis de Vejas e Épocas nas próximas semanas. Muito embora a população já tenha sinalizado que a direita pode estar gastando tinta e papel em vão, a dobradinha TSE-TV Globo estará no ar “orientando” os eleitores a não votar em candidatos envolvidos em “escândalos”. Claro que não relembra que a maioria deles é peça de ficção produzida nas melhores redações. Nunca, desde 1964, o empenho em derrotar uma liderança foi tão evidente a ponto de pôr no chão o marketing editorial de várias publicações.
Com tudo isso, creio que é bom lembrar que sobressaltos no período eleitoral já eram esperados. Mas alguns, convenhamos, são evitáveis. A direita não se deu sequer ao trabalho de atualizar métodos. A “venezuelização” do monopólio global já lançou sua palavra de ordem: a eleição não será televisionada. Este é o mote que assusta. E, que me desculpem os observadores mais apaixonados pelo ofício, as generalizações não incorrem em risco de erro. Lanzettas e Onésimos frequentarão páginas e telas por um bom tempo ainda. São os personagens à procura de um autor. Pobre Pirandello.
***
Em tempo: Nunca as evidências estiveram tão à mostra e custaram tão barato. O pesquisador deve ir à banca e procurar pelos seguintes títulos: O Globo, O Estado de S.Paulo e Zero Hora. Uma olhada nas manchetes e títulos das dobras superiores já será de grande valia. Se quiser uma amostragem repleta de cores e luzes, deve procurar por publicações semanais. São um pouco mais caras, mas são muito piores.
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sábado, 5 de junho de 2010
Um título novo, pra um filme velho!
Vi o Mundo apresenta:
Os porões da privataria
De Amaury Ribeiro Jr.
Introdução
Quem recebeu e quem pagou propina. Quem enriqueceu na função pública. Quem usou o poder para jogar dinheiro público na ciranda da privataria. Quem obteve perdões escandalosos de bancos públicos. Quem assistiu os parentes movimentarem milhões em paraísos fiscais. Um livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., que trabalhou nas mais importantes redações do País, tornando-se um especialista na investigação de crimes de lavagem do dinheiro, vai descrever os porões da privatização da era FHC. Seus personagens pensaram ou pilotaram o processo de venda das empresas estatais. Ou se aproveitaram do processo. Ribeiro Jr. promete mostrar, além disso, como ter parentes ou amigos no alto tucanato ajudou a construir fortunas. Entre as figuras de destaque da narrativa estão o ex-tesoureiro de campanhas de José Serra e Fernando Henrique Cardoso, Ricardo Sérgio de Oliveira, o próprio Serra e três de seus parentes: a filha Verônica Serra, o genro Alexandre Bourgeois e o primo Gregório Marin Preciado. Todos eles, afirma, têm o que explicar ao Brasil.
Ribeiro Jr. vai detalhar, por exemplo, as ligações perigosas de José Serra com seu clã. A começar por seu primo Gregório Marin Preciado, casado com a prima do ex-governador Vicência Talan Marin. Além de primos, os dois foram sócios. O “Espanhol”, como Marin é conhecido, precisa explicar onde obteve US$3,2 milhões para depositar em contas de uma empresa vinculada a Ricardo Sérgio de Oliveira, homem-forte do Banco do Brasil durante as privatizações dos anos de 1990. E continuará relatando como funcionam as empresas offshores semeadas em paraísos fiscais do Caribe pela filha – e sócia — do ex-governador, Verônica Serra, e por seu genro, Alexandre Bourgeois. Como os dois tiram vantagem das suas operações, como seu dinheiro ingressa no Brasil…
Atrás da máxima “siga o dinheiro!”, Ribeiro Jr perseguiu o caminho de ida e volta dos valores movimentados por políticos e empresários entre o Brasil e os paraísos fiscais do Caribe, mais especificamente as Ilhas Virgens Britânicas, descoberta por Cristóvão Colombo em 1493 e por muitos brasileiros espertos depois disso. Nestas ilhas, uma empresa equivale a uma caixa postal, as contas bancárias ocultam o nome do titular e a população de pessoas jurídicas é maior do que a de pessoas de carne e osso. Não é por acaso que todo dinheiro de origem suspeita busca refúgio nos paraísos fiscais, onde também são purificados os recursos do narcotráfico, do contrabando, do tráfico de mulheres, do terrorismo e da corrupção.
A trajetória do empresário Gregório Marin Preciado, ex-sócio, doador de campanha e primo do candidato do PSDB à Presidência da República, mescla uma atuação no Brasil e no exterior. Ex-integrante do conselho de administração do Banco do Estado de São Paulo (Banespa), então o banco público paulista, nomeado quando Serra era secretário de Planejamento do governo estadual, Preciado obteve uma redução de sua dívida no Banco do Brasil de R$448 milhões(1) para irrisórios R$4,1 milhões. Na época, Ricardo Sérgio de Oliveira era diretor da área internacional do BB e o todo-poderoso articulador das privatizações sob FHC. (Ricardo Sérgio é aquele do “estamos no limite da irresponsabilidade. Se der m…”, o momento Péricles de Atenas do Governo do Farol – PHA)
Ricardo Sérgio também ajudaria o primo de Serra, representante da Iberdrola, da Espanha, a montar o consórcio Guaraniana. Sob influência do ex-tesoureiro de Serra e de FHC, mesmo sendo Preciado devedor milionário e relapso do BB, o banco também se juntaria ao Guaraniana para disputar e ganhar o leilão de três estatais do setor elétrico(2).
O que é mais inexplicável, segundo o autor, é que o primo de Serra, imerso em dívidas, tenha depositado US$3,2 milhões no exterior por meio da chamada conta Beacon Hill, no banco JP Morgan Chase, em Nova Iorque. É o que revelam documentos inéditos obtidos dos registros da própria Beacon Hill em poder de Ribeiro Jr. E mais importante ainda é que a bolada tenha beneficiado a Franton Interprises. Coincidentemente, a mesma empresa que recebeu depósitos do ex-tesoureiro de Serra e de FHC, Ricardo Sérgio de Oliveira, de seu sócio Ronaldo de Souza e da empresa de ambos, a Consultatun. A Franton, segundo Ribeiro, pertence a Ricardo Sérgio.
A documentação da Beacon Hill levantada pelo repórter investigativo radiografa uma notável movimentação bancária nos Estados Unidos realizada pelo primo supostamente arruinado do ex-governador. Os comprovantes detalham que a dinheirama depositada pelo parente do candidato tucano à Presidência na Franton oscila de US$17 mil (3 de outubro de 2001) até US$375 mil (10 de outubro de 2002). Os lançamentos presentes na base de dados da Beacon Hill se referem a três anos. E indicam que Preciado lidou com enormes somas em dois anos eleitorais – 1998 e 2002 – e em outro pré-eleitoral – 2001. Seu período mais prolífico foi 2002, quando o primo disputou a Presidência contra Lula. A soma depositada bateu em US$1,5 milhão.
O maior depósito do endividado primo de Serra na Beacon Hill, porém, ocorreu em 25 de setembro de 2001. Foi quando destinou à offshore Rigler o montante de US$404 mil. A Rigler, aberta no Uruguai, outro paraíso fiscal, pertenceria ao doleiro carioca Dario Messer, figurinha fácil desse universo de transações subterrâneas. Na operação Sexta-Feira 13, da Polícia Federal, desfechada no ano passado, o Ministério Público Federal apontou Messer como um dos autores do ilusionismo financeiro que movimentou, por intermédio de contas no exterior, US$20 milhões derivados de fraudes praticadas por três empresários em licitações do Ministério da Saúde.
O esquema Beacon Hill enredou vários famosos, dentre eles o banqueiro Daniel Dantas. Investigada no Brasil e nos Estados Unidos, a Beacon Hill foi condenada pela justiça norte-americana, em 2004, por operar contra a lei.
Percorrendo os caminhos e descaminhos dos milhões extraídos do País para passear nos paraísos fiscais, Ribeiro Jr. constatou a prodigalidade com que o círculo mais íntimo dos cardeais tucanos abre empresas nestes édens financeiros sob as palmeiras e o sol do Caribe. Foi assim com Verônica Serra. Sócia do pai na ACP Análise da Conjuntura, firma que funcionava em São Paulo em imóvel de Gregório Preciado, Verônica começou instalando, na Flórida, a empresa Decidir.com.br, em sociedade com Verônica Dantas, irmã e sócia do banqueiro Daniel Dantas, que arrematou várias empresas nos leilões de privatização realizados na era FHC.
Financiada pelo Banco Opportunity, de Dantas, a empresa possui capital de US$5 milhões. Logo se transfere com o nome Decidir International Limited para o escritório do Ctco Building, em Road Town, ilha de Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas. A Decidir do Caribe consegue trazer todo o ervanário para o Brasil ao comprar R$10 milhões em ações da Decidir do Brasil.com.br, que funciona no escritório da própria Verônica Serra, vice-presidente da empresa. Como se percebe, todas as empresas têm o mesmo nome. É o que Ribeiro Jr. apelida de “empresas-camaleão”. No jogo de gato e rato com quem estiver interessado em saber, de fato, o que as empresas representam e praticam é preciso apagar as pegadas. É uma das dissimulações mais corriqueiras detectada na investigação.
Não é outro o estratagema seguido pelo marido de Verônica, o empresário Alexandre Bourgeois. O genro de Serra abre a Iconexa Inc no mesmo escritório do Ctco Building, nas Ilhas Virgens Britânicas, que interna dinheiro no Brasil ao investir R$7,5 milhões em ações da Superbird.com.br que depois muda de nome para Iconexa S.A. Cria também a Vex capital no Ctco Building, enquanto Verônica passa a movimentar a Oltec Management no mesmo paraíso fiscal. “São empresas-ônibus”, na expressão de Ribeiro Jr., ou seja, levam dinheiro de um lado para o outro.
De modo geral, as offshores cumprem o papel de justificar perante ao Banco Central e à Receita Federal a entrada de capital estrangeiro por meio da aquisição de cotas de outras empresas, geralmente de capital fechado, abertas no País. Muitas vezes, as offshores compram ações de empresas brasileiras em operações casadas na Bolsa de Valores. São frequentemente operações simuladas tendo como finalidade única internar dinheiro nas quais os procuradores dessas offshores acabam comprando ações de suas próprias empresas… Em outras ocasiões, a entrada de capital acontecia pelos sucessivos aumentos de capital da empresa brasileira pela sócia cotista no Caribe, maneira de obter do BC a autorização de aporte do capital no Brasil. Um emprego alternativo das offshores é usá-las para adquirir imóveis no País.
Depois de manusear centenas de documentos, Ribeiro Jr. observa que Ricardo Sérgio, o pivô das privatizações – que articulou os consórcios usando o dinheiro do BB e do fundo de previdência dos funcionários do banco, a Previ, “no limite da irresponsabilidade”, conforme foi gravado no famoso “Grampo do BNDES” –, foi o pioneiro nas aventuras caribenhas entre o alto tucanato. Abriu a trilha rumo às offshores e às contas sigilosas da América Central ainda nos anos de 1980. Fundou a offshore Andover, que depositaria dinheiro na Westchester, em São Paulo, que também lhe pertenci
Ribeiro Jr. promete outras revelações. Uma delas diz respeito a um dos maiores empresários brasileiros, suspeito de pagar propina durante o leilão das estatais, o que sempre desmentiu. Agora, porém, existe evidência, também obtida na conta Beacon Hill, do pagamento da US$410 mil por parte da empresa offshore Infinity Trading, pertencente ao empresário, à Franton Interprises, ligada a Ricardo Sérgio.
(1) A dívida de Preciado com o Banco do Brasil foi estimada em US$140 milhões, segundo declarou o próprio devedor. Esta quantia foi convertida em reais tendo-se como base a cotação cambial do período de aproximadamente R$3,2 por um dólar.
(2) As empresas arrematadas foram a Coelba, da Bahia, a Cosern, do Rio Grande do Norte, e a Celpe, de Pernambuco.
Leia mais: Conversa Afiada
Os porões da privataria
De Amaury Ribeiro Jr.
Introdução
Quem recebeu e quem pagou propina. Quem enriqueceu na função pública. Quem usou o poder para jogar dinheiro público na ciranda da privataria. Quem obteve perdões escandalosos de bancos públicos. Quem assistiu os parentes movimentarem milhões em paraísos fiscais. Um livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., que trabalhou nas mais importantes redações do País, tornando-se um especialista na investigação de crimes de lavagem do dinheiro, vai descrever os porões da privatização da era FHC. Seus personagens pensaram ou pilotaram o processo de venda das empresas estatais. Ou se aproveitaram do processo. Ribeiro Jr. promete mostrar, além disso, como ter parentes ou amigos no alto tucanato ajudou a construir fortunas. Entre as figuras de destaque da narrativa estão o ex-tesoureiro de campanhas de José Serra e Fernando Henrique Cardoso, Ricardo Sérgio de Oliveira, o próprio Serra e três de seus parentes: a filha Verônica Serra, o genro Alexandre Bourgeois e o primo Gregório Marin Preciado. Todos eles, afirma, têm o que explicar ao Brasil.
Ribeiro Jr. vai detalhar, por exemplo, as ligações perigosas de José Serra com seu clã. A começar por seu primo Gregório Marin Preciado, casado com a prima do ex-governador Vicência Talan Marin. Além de primos, os dois foram sócios. O “Espanhol”, como Marin é conhecido, precisa explicar onde obteve US$3,2 milhões para depositar em contas de uma empresa vinculada a Ricardo Sérgio de Oliveira, homem-forte do Banco do Brasil durante as privatizações dos anos de 1990. E continuará relatando como funcionam as empresas offshores semeadas em paraísos fiscais do Caribe pela filha – e sócia — do ex-governador, Verônica Serra, e por seu genro, Alexandre Bourgeois. Como os dois tiram vantagem das suas operações, como seu dinheiro ingressa no Brasil…
Atrás da máxima “siga o dinheiro!”, Ribeiro Jr perseguiu o caminho de ida e volta dos valores movimentados por políticos e empresários entre o Brasil e os paraísos fiscais do Caribe, mais especificamente as Ilhas Virgens Britânicas, descoberta por Cristóvão Colombo em 1493 e por muitos brasileiros espertos depois disso. Nestas ilhas, uma empresa equivale a uma caixa postal, as contas bancárias ocultam o nome do titular e a população de pessoas jurídicas é maior do que a de pessoas de carne e osso. Não é por acaso que todo dinheiro de origem suspeita busca refúgio nos paraísos fiscais, onde também são purificados os recursos do narcotráfico, do contrabando, do tráfico de mulheres, do terrorismo e da corrupção.
A trajetória do empresário Gregório Marin Preciado, ex-sócio, doador de campanha e primo do candidato do PSDB à Presidência da República, mescla uma atuação no Brasil e no exterior. Ex-integrante do conselho de administração do Banco do Estado de São Paulo (Banespa), então o banco público paulista, nomeado quando Serra era secretário de Planejamento do governo estadual, Preciado obteve uma redução de sua dívida no Banco do Brasil de R$448 milhões(1) para irrisórios R$4,1 milhões. Na época, Ricardo Sérgio de Oliveira era diretor da área internacional do BB e o todo-poderoso articulador das privatizações sob FHC. (Ricardo Sérgio é aquele do “estamos no limite da irresponsabilidade. Se der m…”, o momento Péricles de Atenas do Governo do Farol – PHA)
Ricardo Sérgio também ajudaria o primo de Serra, representante da Iberdrola, da Espanha, a montar o consórcio Guaraniana. Sob influência do ex-tesoureiro de Serra e de FHC, mesmo sendo Preciado devedor milionário e relapso do BB, o banco também se juntaria ao Guaraniana para disputar e ganhar o leilão de três estatais do setor elétrico(2).
O que é mais inexplicável, segundo o autor, é que o primo de Serra, imerso em dívidas, tenha depositado US$3,2 milhões no exterior por meio da chamada conta Beacon Hill, no banco JP Morgan Chase, em Nova Iorque. É o que revelam documentos inéditos obtidos dos registros da própria Beacon Hill em poder de Ribeiro Jr. E mais importante ainda é que a bolada tenha beneficiado a Franton Interprises. Coincidentemente, a mesma empresa que recebeu depósitos do ex-tesoureiro de Serra e de FHC, Ricardo Sérgio de Oliveira, de seu sócio Ronaldo de Souza e da empresa de ambos, a Consultatun. A Franton, segundo Ribeiro, pertence a Ricardo Sérgio.
A documentação da Beacon Hill levantada pelo repórter investigativo radiografa uma notável movimentação bancária nos Estados Unidos realizada pelo primo supostamente arruinado do ex-governador. Os comprovantes detalham que a dinheirama depositada pelo parente do candidato tucano à Presidência na Franton oscila de US$17 mil (3 de outubro de 2001) até US$375 mil (10 de outubro de 2002). Os lançamentos presentes na base de dados da Beacon Hill se referem a três anos. E indicam que Preciado lidou com enormes somas em dois anos eleitorais – 1998 e 2002 – e em outro pré-eleitoral – 2001. Seu período mais prolífico foi 2002, quando o primo disputou a Presidência contra Lula. A soma depositada bateu em US$1,5 milhão.
O maior depósito do endividado primo de Serra na Beacon Hill, porém, ocorreu em 25 de setembro de 2001. Foi quando destinou à offshore Rigler o montante de US$404 mil. A Rigler, aberta no Uruguai, outro paraíso fiscal, pertenceria ao doleiro carioca Dario Messer, figurinha fácil desse universo de transações subterrâneas. Na operação Sexta-Feira 13, da Polícia Federal, desfechada no ano passado, o Ministério Público Federal apontou Messer como um dos autores do ilusionismo financeiro que movimentou, por intermédio de contas no exterior, US$20 milhões derivados de fraudes praticadas por três empresários em licitações do Ministério da Saúde.
O esquema Beacon Hill enredou vários famosos, dentre eles o banqueiro Daniel Dantas. Investigada no Brasil e nos Estados Unidos, a Beacon Hill foi condenada pela justiça norte-americana, em 2004, por operar contra a lei.
Percorrendo os caminhos e descaminhos dos milhões extraídos do País para passear nos paraísos fiscais, Ribeiro Jr. constatou a prodigalidade com que o círculo mais íntimo dos cardeais tucanos abre empresas nestes édens financeiros sob as palmeiras e o sol do Caribe. Foi assim com Verônica Serra. Sócia do pai na ACP Análise da Conjuntura, firma que funcionava em São Paulo em imóvel de Gregório Preciado, Verônica começou instalando, na Flórida, a empresa Decidir.com.br, em sociedade com Verônica Dantas, irmã e sócia do banqueiro Daniel Dantas, que arrematou várias empresas nos leilões de privatização realizados na era FHC.
Financiada pelo Banco Opportunity, de Dantas, a empresa possui capital de US$5 milhões. Logo se transfere com o nome Decidir International Limited para o escritório do Ctco Building, em Road Town, ilha de Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas. A Decidir do Caribe consegue trazer todo o ervanário para o Brasil ao comprar R$10 milhões em ações da Decidir do Brasil.com.br, que funciona no escritório da própria Verônica Serra, vice-presidente da empresa. Como se percebe, todas as empresas têm o mesmo nome. É o que Ribeiro Jr. apelida de “empresas-camaleão”. No jogo de gato e rato com quem estiver interessado em saber, de fato, o que as empresas representam e praticam é preciso apagar as pegadas. É uma das dissimulações mais corriqueiras detectada na investigação.
Não é outro o estratagema seguido pelo marido de Verônica, o empresário Alexandre Bourgeois. O genro de Serra abre a Iconexa Inc no mesmo escritório do Ctco Building, nas Ilhas Virgens Britânicas, que interna dinheiro no Brasil ao investir R$7,5 milhões em ações da Superbird.com.br que depois muda de nome para Iconexa S.A. Cria também a Vex capital no Ctco Building, enquanto Verônica passa a movimentar a Oltec Management no mesmo paraíso fiscal. “São empresas-ônibus”, na expressão de Ribeiro Jr., ou seja, levam dinheiro de um lado para o outro.
De modo geral, as offshores cumprem o papel de justificar perante ao Banco Central e à Receita Federal a entrada de capital estrangeiro por meio da aquisição de cotas de outras empresas, geralmente de capital fechado, abertas no País. Muitas vezes, as offshores compram ações de empresas brasileiras em operações casadas na Bolsa de Valores. São frequentemente operações simuladas tendo como finalidade única internar dinheiro nas quais os procuradores dessas offshores acabam comprando ações de suas próprias empresas… Em outras ocasiões, a entrada de capital acontecia pelos sucessivos aumentos de capital da empresa brasileira pela sócia cotista no Caribe, maneira de obter do BC a autorização de aporte do capital no Brasil. Um emprego alternativo das offshores é usá-las para adquirir imóveis no País.
Depois de manusear centenas de documentos, Ribeiro Jr. observa que Ricardo Sérgio, o pivô das privatizações – que articulou os consórcios usando o dinheiro do BB e do fundo de previdência dos funcionários do banco, a Previ, “no limite da irresponsabilidade”, conforme foi gravado no famoso “Grampo do BNDES” –, foi o pioneiro nas aventuras caribenhas entre o alto tucanato. Abriu a trilha rumo às offshores e às contas sigilosas da América Central ainda nos anos de 1980. Fundou a offshore Andover, que depositaria dinheiro na Westchester, em São Paulo, que também lhe pertenci
Ribeiro Jr. promete outras revelações. Uma delas diz respeito a um dos maiores empresários brasileiros, suspeito de pagar propina durante o leilão das estatais, o que sempre desmentiu. Agora, porém, existe evidência, também obtida na conta Beacon Hill, do pagamento da US$410 mil por parte da empresa offshore Infinity Trading, pertencente ao empresário, à Franton Interprises, ligada a Ricardo Sérgio.
(1) A dívida de Preciado com o Banco do Brasil foi estimada em US$140 milhões, segundo declarou o próprio devedor. Esta quantia foi convertida em reais tendo-se como base a cotação cambial do período de aproximadamente R$3,2 por um dólar.
(2) As empresas arrematadas foram a Coelba, da Bahia, a Cosern, do Rio Grande do Norte, e a Celpe, de Pernambuco.
Leia mais: Conversa Afiada
Da Carta Maior: Quem representa perigo para a paz mundial?
Quem representa perigo para a paz mundial?
Lula tinha afirmado que um país que possui armas nucleares não tem condições morais para exigir que outros não tenham. Da mesma forma que afirmou que a mediação dos EUA no conflito entre Israel e Palestina não tinha promovido a paz, porque os EUA possuem interesses diretamente vinculados a Israel, não possuindo credenciais para mediar o conflito com um mínimo de objetividade.
O acordo logrado com o Irã confirma esse critério. O Brasil e a Turquia, membros atuais do Conselho de Segurança, aderentes ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, países do Sul do mundo, puderam obter com o Irã o acordo que a Agência da ONU pede. No entanto, os EUA - tomados de surpresa, porque não acreditavam (e torciam para) que o acordo pudesse ser obtido, agora apelam para o argumento de que “Não acreditamos na palavra dele”, quando o que buscava era exatamente uma palavra e um esquema de apoio. Obtidos, inviabilizariam as sanções que os EUA querem impor.
A atitude dos EUA é a mesma que tiveram no ataque ao Iraque. Queriam provas de armamento de destruição em massa, não obtiveram, alegaram que sim, havia, com isso passaram por cima do Conselho de Segurança da ONU, junto com a Grã Bretanha atacaram e destruíram a mais antiga civilização da história (foram destruídos os lugares históricos e sagrados, mas protegidas as torres de petróleo – o objetivo real da ocupação).
Quem representa perigo para a paz mundial? O Irã, que talvez pudesse vir a construir armamento nuclear, mas que não ocupa nenhum outro país? Ou os EUA, único país na história que usou a bomba atômica – contra Hiroshima e Nagasaki -, possui um arsenal de todo tipo de armamento que representa a metade de todo o armamento existente no mundo? Que atualmente ocupam o Iraque e o Afeganistão, que tem uma história de invasões, ocupações, desembarques militares, amplamente conhecida?
Que desrespeitou o Conselho de Segurança da ONU e atacou o Iraque, apoiado em acusações que não se confirmaram? Que possui bases militares em mais de 10 países em todo o mundo? Ou Israel, que possui armamento nuclear, ameaça constantemente atacar o Irã e ocupa os territórios que devem, segundo a ONU, ser destinados ao Estado Palestino?
Postado por Emir Sader às 11:54
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Da Carta Maior: Cidadãos Europeus, Uni-vos!
Carta Maior:
Cidadãos Europeus, Uni-vos!
A luta de classes está de volta à Europa e em termos tão novos que os atores sociais estão perplexos e paralisados. O relatório que o FMI acaba de divulgar sobre a economia espanhola é uma declaração de guerra. Os movimentos e as organizações de toda a Europa têm de se articular para mostrar aos governos que a estabilidade dos mercados não pode ser construída sobre as ruínas da estabilidade das vidas dos cidadãos e suas famílias. Não é o socialismo; é a demonstração de que ou a UE cria as condições para o capital produtivo se desvincular relativamente do capital ou o futuro é o fascismo. O artigo é de Boaventura de Sousa Santos
Boaventura de Sousa Santos
Os dados estão lançados, o jogo é claro e quanto mais tarde identificarmos as novas regras mais elevado será o custo para os cidadãos europeus. A luta de classes está de volta à Europa e em termos tão novos que os atores sociais estão perplexos e paralisados. Enquanto prática política, a luta de classes entre o trabalho e o capital nasceu na Europa e, depois de muitos anos de confrontação violenta, foi na Europa que ela foi travada com mais equilíbrio e onde deu frutos mais auspiciosos.
Os adversários verificaram que a institucionalização da luta seria mutuamente vantajosa: o capital consentiria em altos níveis de tributação e de intervenção do Estado em troca de não ver a sua prosperidade ameaçada; os trabalhadores conquistariam importantes direitos sociais em troca de desistirem de uma alternativa socialista. Assim surgiram a concertação social e seus mais invejáveis resultados: altos níveis de competitividade indexados a altos níveis de proteção social; o modelo social europeu e o Estado Providência; a possibilidade, sem precedentes na história, de os trabalhadores e suas famílias poderem fazer planos de
futuro a médio prazo (educação dos filhos, compra de casa); a paz social; o continente com os mais baixos níveis de desigualdade social.
Todo este sistema está à beira do colapso e os resultados são imprevisíveis. O relatório que o FMI acaba de divulgar sobre a economia espanhola é uma declaração de guerra: o acúmulo histórico das lutas sociais, de tantas e tão laboriosas negociações e de equilíbrios tão duramente obtidos, é lançado por terra com inaudita arrogância e a
Espanha é mandada recuar décadas na sua história: reduzir drasticamente os salários, destruir o sistema de pensões, eliminar direitos trabalhistas (facilitar demissões, reduzir indenizações). A mesma receita será imposta a Portugal, como já foi à Grécia, e a outros países da Europa, muito para além da Europa do Sul.
A Europa está sendo vítima de uma OPA por parte do FMI, cozinhada pelos neoliberais que dominam a União Europeia, de Merkel a Barroso, escondidos atrás do FMI para não pagarem os custos políticos da
devastação social. O senso comum neoliberal diz-nos que a culpa é da crise, que vivemos acima das nossas posses e que não há dinheiro para tanto bem-estar. Mas qualquer cidadão comum entende isto: se a FAO calcula que 30 bilhões de dólares seriam suficientes para resolver o problema da fome no mundo e os governos insistem em dizer que não há
dinheiro para isso, como se explica que, de repente, tenham surgido 900 bilhões para salvar o sistema financeiro europeu?
A luta de classes está voltando sob uma nova forma mas com a violência de há cem anos: desta vez, é o capital financeiro quem declara guerra ao trabalho. O que fazer? Haverá resistência mas esta, para ser eficaz, tem de ter em conta dois fatos novos. Primeiro, a fragmentação do trabalho e a sociedade de consumo ditaram a crise dos sindicatos. Nunca os que trabalham trabalharam tanto e nunca lhes foi tão difícil identificarem-se como trabalhadores. A resistência terá nos sindicatos um pilar mas ele
será bem frágil se a luta não for partilhada em pé de igualdade por movimentos de mulheres, ambientalistas, de consumidores, de direitos humanos, de imigrantes, contra o racismo, a xenofobia e a homofobia. A crise atinge todos porque todos são trabalhadores.
Segundo, não há economias nacionais na Europa e, por isso, a resistência ou é europeia ou não existe. As lutas nacionais serão um alvo fácil dos que clamam pela governabilidade ao mesmo tempo que desgovernam. Os movimentos e as organizações de toda a Europa têm de se articular para mostrar aos governos que a estabilidade dos mercados não pode ser construída sobre as ruínas da estabilidade das vidas dos cidadãos e suas famílias. Não é o socialismo; é a demonstração de que ou a UE cria as condições para o capital produtivo se desvincular relativamente do capital financeiro ou o futuro é o fascismo e terá que ser combatido por todos os meios.
Fotos: Bia Barbosa
quarta-feira, 2 de junho de 2010
"Eles não temem o ridículo"
Do Blog Cidadania, postado por Eduardo Guimarães:

" O excelente blog do Professor Hariovaldo já me fez rir muito – se você não conhece precisa conhecer; é um dos sites indicados por este blog, aí ao lado. Inclusive, eu mesmo, por duas vezes, já lhe servi de matéria-prima para seus divertidíssimos posts simulando o discurso reacionário. Mas a caricatura que o blogueiro gozador encarna não chega nem aos pés da caricatura viva e real de reacionário que é o blogueiro da Veja Reinaldo Azevedo.
Vejam só que coisa maluca: o blogueiro Ricardo Kotscho escreveu um post interessante especulando sobre quem são os 5% que aparecem nas pesquisas considerando o governo Lula de péssimo para baixo. Estranhou que as ciências sociais ainda não tenham perscrutado esse universo de pessoas que, aconteça o que acontecer, aferram-se a um discurso que não encontra a menor ressonância nos fatos, de que está tudo uma droga no Brasil.
Os blogueiros da Globo Ricardo Noblat e da Veja Reinaldo Azevedo abordaram o post de Kotscho justamente porque entre seus leitorados devem estar 99% dos 5% que odeiam este governo e que acham que está tudo péssimo no país. No blog do Noblat, ficou para o leitorado dizer o que foi dito pelo próprio Azevedo em post, que o petista Kotscho estaria querendo “fichar” os 5% que não apóiam Lula para que o governo persiga essas pessoas (?!).
Em um país em que um jornal ligado à oposição publica ficha policial falsa de membros do governo na primeira página e chama o presidente da República de maníaco sexual e de cachaceiro; em um país em que uma revista semanal publica foto na capa em que o presidente da República aparece de costas com a marca de um pé no traseiro; em um país em que tudo isso não gera um só processo contra esses veículos como ocorreria em qualquer país democrático, será que dá para levar a sério suposição de que este governo pretenderia perseguir quem não o apóia?
Não tenho a mesma dúvida do Kotscho. Sei muito bem quem são e onde estão esses 5% que não apóiam Lula. Sou vizinho deles, no bairro paulistano do Paraíso. Aliás, convivo com boa parte desse setor da sociedade. Essas pessoas são, em média, de classe média alta, têm renda acima de dez salários mínimos e estão no Sul e no Sudeste. São Minoria entre os mais ricos e escolarizados, mas estão concentradas nesse segmento.
São pessoas que, na média – refiro-me à maioria relativa delas, é claro, jamais a todas –, são racistas, querem separar Sul ou Sudeste do resto do Brasil, chamam o Bolsa Família de “esmola”, não aceitam que negros cursem universidades, querem que o Brasil volte a fazer negócios só com a Europa e com os Estados Unidos… Enfim, que têm saudades do tempo em que consumo, oportunidades e esperança eram coisa de rico.
Mas tenho uma dúvida sobre os tais 5%. Como é que pode um contingente de brasileiros desprezível percentualmente, mas que é rico, influente e escolarizado – apesar da ignorância – não ter absolutamente nenhum medo do ridículo? Como é que pode gente que sempre apoiou violência contra adversários políticos tais como tortura, estupro e assassinatos, ter coragem de acusar suas vítimas?
O excelente blog do Professor Hariovaldo já me fez rir muito – se você não conhece precisa conhecer; é um dos sites indicados por este blog, aí ao lado. Inclusive, eu mesmo, por duas vezes, já lhe servi de matéria-prima para seus divertidíssimos posts simulando o discurso reacionário. Mas a caricatura que o blogueiro gozador encarna não chega nem aos pés da caricatura viva e real de reacionário que é o blogueiro da Veja Reinaldo Azevedo.
Vejam só que coisa maluca: o blogueiro Ricardo Kotscho escreveu um post interessante especulando sobre quem são os 5% que aparecem nas pesquisas considerando o governo Lula de péssimo para baixo. Estranhou que as ciências sociais ainda não tenham perscrutado esse universo de pessoas que, aconteça o que acontecer, aferram-se a um discurso que não encontra a menor ressonância nos fatos, de que está tudo uma droga no Brasil.
Os blogueiros da Globo Ricardo Noblat e da Veja Reinaldo Azevedo abordaram o post de Kotscho justamente porque entre seus leitorados devem estar 99% dos 5% que odeiam este governo e que acham que está tudo péssimo no país. No blog do Noblat, ficou para o leitorado dizer o que foi dito pelo próprio Azevedo em post, que o petista Kotscho estaria querendo “fichar” os 5% que não apóiam Lula para que o governo persiga essas pessoas (?!).
Em um país em que um jornal ligado à oposição publica ficha policial falsa de membros do governo na primeira página e chama o presidente da República de maníaco sexual e de cachaceiro; em um país em que uma revista semanal publica foto na capa em que o presidente da República aparece de costas com a marca de um pé no traseiro; em um país em que tudo isso não gera um só processo contra esses veículos como ocorreria em qualquer país democrático, será que dá para levar a sério suposição de que este governo pretenderia perseguir quem não o apóia?
Não tenho a mesma dúvida do Kotscho. Sei muito bem quem são e onde estão esses 5% que não apóiam Lula. Sou vizinho deles, no bairro paulistano do Paraíso. Aliás, convivo com boa parte desse setor da sociedade. Essas pessoas são, em média, de classe média alta, têm renda acima de dez salários mínimos e estão no Sul e no Sudeste. São Minoria entre os mais ricos e escolarizados, mas estão concentradas nesse segmento.
São pessoas que, na média – refiro-me à maioria relativa delas, é claro, jamais a todas –, são racistas, querem separar Sul ou Sudeste do resto do Brasil, chamam o Bolsa Família de “esmola”, não aceitam que negros cursem universidades, querem que o Brasil volte a fazer negócios só com a Europa e com os Estados Unidos… Enfim, que têm saudades do tempo em que consumo, oportunidades e esperança eram coisa de rico.
Mas tenho uma dúvida sobre os tais 5%. Como é que pode um contingente de brasileiros desprezível percentualmente, mas que é rico, influente e escolarizado – apesar da ignorância – não ter absolutamente nenhum medo do ridículo? Como é que pode gente que sempre apoiou violência contra adversários políticos tais como tortura, estupro e assassinatos, ter coragem de acusar suas vítimas? "
Eduardo Guimarães - Comerciante, blogueiro e ativista político.
" O excelente blog do Professor Hariovaldo já me fez rir muito – se você não conhece precisa conhecer; é um dos sites indicados por este blog, aí ao lado. Inclusive, eu mesmo, por duas vezes, já lhe servi de matéria-prima para seus divertidíssimos posts simulando o discurso reacionário. Mas a caricatura que o blogueiro gozador encarna não chega nem aos pés da caricatura viva e real de reacionário que é o blogueiro da Veja Reinaldo Azevedo.
Vejam só que coisa maluca: o blogueiro Ricardo Kotscho escreveu um post interessante especulando sobre quem são os 5% que aparecem nas pesquisas considerando o governo Lula de péssimo para baixo. Estranhou que as ciências sociais ainda não tenham perscrutado esse universo de pessoas que, aconteça o que acontecer, aferram-se a um discurso que não encontra a menor ressonância nos fatos, de que está tudo uma droga no Brasil.
Os blogueiros da Globo Ricardo Noblat e da Veja Reinaldo Azevedo abordaram o post de Kotscho justamente porque entre seus leitorados devem estar 99% dos 5% que odeiam este governo e que acham que está tudo péssimo no país. No blog do Noblat, ficou para o leitorado dizer o que foi dito pelo próprio Azevedo em post, que o petista Kotscho estaria querendo “fichar” os 5% que não apóiam Lula para que o governo persiga essas pessoas (?!).
Em um país em que um jornal ligado à oposição publica ficha policial falsa de membros do governo na primeira página e chama o presidente da República de maníaco sexual e de cachaceiro; em um país em que uma revista semanal publica foto na capa em que o presidente da República aparece de costas com a marca de um pé no traseiro; em um país em que tudo isso não gera um só processo contra esses veículos como ocorreria em qualquer país democrático, será que dá para levar a sério suposição de que este governo pretenderia perseguir quem não o apóia?
Não tenho a mesma dúvida do Kotscho. Sei muito bem quem são e onde estão esses 5% que não apóiam Lula. Sou vizinho deles, no bairro paulistano do Paraíso. Aliás, convivo com boa parte desse setor da sociedade. Essas pessoas são, em média, de classe média alta, têm renda acima de dez salários mínimos e estão no Sul e no Sudeste. São Minoria entre os mais ricos e escolarizados, mas estão concentradas nesse segmento.
São pessoas que, na média – refiro-me à maioria relativa delas, é claro, jamais a todas –, são racistas, querem separar Sul ou Sudeste do resto do Brasil, chamam o Bolsa Família de “esmola”, não aceitam que negros cursem universidades, querem que o Brasil volte a fazer negócios só com a Europa e com os Estados Unidos… Enfim, que têm saudades do tempo em que consumo, oportunidades e esperança eram coisa de rico.
Mas tenho uma dúvida sobre os tais 5%. Como é que pode um contingente de brasileiros desprezível percentualmente, mas que é rico, influente e escolarizado – apesar da ignorância – não ter absolutamente nenhum medo do ridículo? Como é que pode gente que sempre apoiou violência contra adversários políticos tais como tortura, estupro e assassinatos, ter coragem de acusar suas vítimas?
O excelente blog do Professor Hariovaldo já me fez rir muito – se você não conhece precisa conhecer; é um dos sites indicados por este blog, aí ao lado. Inclusive, eu mesmo, por duas vezes, já lhe servi de matéria-prima para seus divertidíssimos posts simulando o discurso reacionário. Mas a caricatura que o blogueiro gozador encarna não chega nem aos pés da caricatura viva e real de reacionário que é o blogueiro da Veja Reinaldo Azevedo.
Vejam só que coisa maluca: o blogueiro Ricardo Kotscho escreveu um post interessante especulando sobre quem são os 5% que aparecem nas pesquisas considerando o governo Lula de péssimo para baixo. Estranhou que as ciências sociais ainda não tenham perscrutado esse universo de pessoas que, aconteça o que acontecer, aferram-se a um discurso que não encontra a menor ressonância nos fatos, de que está tudo uma droga no Brasil.
Os blogueiros da Globo Ricardo Noblat e da Veja Reinaldo Azevedo abordaram o post de Kotscho justamente porque entre seus leitorados devem estar 99% dos 5% que odeiam este governo e que acham que está tudo péssimo no país. No blog do Noblat, ficou para o leitorado dizer o que foi dito pelo próprio Azevedo em post, que o petista Kotscho estaria querendo “fichar” os 5% que não apóiam Lula para que o governo persiga essas pessoas (?!).
Em um país em que um jornal ligado à oposição publica ficha policial falsa de membros do governo na primeira página e chama o presidente da República de maníaco sexual e de cachaceiro; em um país em que uma revista semanal publica foto na capa em que o presidente da República aparece de costas com a marca de um pé no traseiro; em um país em que tudo isso não gera um só processo contra esses veículos como ocorreria em qualquer país democrático, será que dá para levar a sério suposição de que este governo pretenderia perseguir quem não o apóia?
Não tenho a mesma dúvida do Kotscho. Sei muito bem quem são e onde estão esses 5% que não apóiam Lula. Sou vizinho deles, no bairro paulistano do Paraíso. Aliás, convivo com boa parte desse setor da sociedade. Essas pessoas são, em média, de classe média alta, têm renda acima de dez salários mínimos e estão no Sul e no Sudeste. São Minoria entre os mais ricos e escolarizados, mas estão concentradas nesse segmento.
São pessoas que, na média – refiro-me à maioria relativa delas, é claro, jamais a todas –, são racistas, querem separar Sul ou Sudeste do resto do Brasil, chamam o Bolsa Família de “esmola”, não aceitam que negros cursem universidades, querem que o Brasil volte a fazer negócios só com a Europa e com os Estados Unidos… Enfim, que têm saudades do tempo em que consumo, oportunidades e esperança eram coisa de rico.
Mas tenho uma dúvida sobre os tais 5%. Como é que pode um contingente de brasileiros desprezível percentualmente, mas que é rico, influente e escolarizado – apesar da ignorância – não ter absolutamente nenhum medo do ridículo? Como é que pode gente que sempre apoiou violência contra adversários políticos tais como tortura, estupro e assassinatos, ter coragem de acusar suas vítimas? "
Eduardo Guimarães - Comerciante, blogueiro e ativista político.
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