segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Nicolelis: Só no Brasil a educação é discutida por comentarista esportivo

Reproduzo entrevista publicada no ví o mundo

Entrevista concedida por Miguel Nicolelis a Conceição Lemes, do Ví o Mundo


por Conceição Lemes
Desde o último final de semana, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e o Ministério da Educação (MEC) estão sob bombardeio midiático.
Estavam inscritos 4,6 milhões estudantes, e 3,4 milhões  submeteram-se às provas.  O exame foi aplicado em 1.698 cidades, 11.646 locais e 128.200 salas.  Foram impressos 5 milhões de provas para o sábado e outros 5 milhões para o domingo. Ou seja, o total de inscritos mais de 10% de reserva técnica.
No teste do sábado, ocorreram  dois erros  distintos. Um foi assumido pela gráfica encarregada da impressão. Na montagem, algumas provas do caderno de cor amarela tiveram questões repetidas, ou numeradas incorretamente ou que faltaram. Cálculos preliminares do MEC indicavam que essa falha tivesse afetado cerca de 2 mil alunos. Mas o balanço diário tem demonstrado, até agora, que são bem menos: aproximadamente 200.
O outro erro, de responsabilidade do Inep, foi no cabeçalho do cartão-resposta. Por falta de revisão adequada, inverteram-se os títulos. O de Ciências da Natureza apareceu no lugar de Ciências Humanas e vice-versa. Os fiscais de sala foram orientados a pedir aos alunos que preenchessem o cartão, de acordo com a numeração de cada questão, independentemente do cabeçalho. Inep é o Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais, órgão do MEC encarregado de realizar o Enem.
“Nenhum aluno será prejudicado. Aqueles que tiveram problemas poderão fazer a prova em outra data”, tem garantido desde o início o ministro da Educação, Fernando Haddad. “Isso é possível porque o Enem aplica  a teoria da resposta ao item (TRI), que permite que exames feitos em ocasiões diferentes tenham o mesmo grau de dificuldade.”
Interesses poderosos, porém, amplificaram ENORMEMENTE os erros para destruir a credibilidade do Enem. Afinal, a nota no exame é um dos componentes utilizados em várias universidades públicas do país para aprovação de candidatos, além de servir de avaliação parabolsa do PRO-UNI.
“Só os donos de cursinhos e aqueles que não querem a democratização do acesso à universidade podem ter algo contra o Enem”, afirma, indignado, ao Viomundo o neurocientista Miguel Nicolelis, professor da Universidade de Duke, nos EUA, e fundador do Instituto Internacional de Neurociências de Natal, no Rio Grande do Norte. “Eu vi a entrevista do ministro Fernando Haddad ao Bom Dia Brasil, TV Globo. Que loucura!  Como  jornalistas  que num dia falam de incêndio, no outro, de escola de samba, no outro, ainda, de esporte, podem se arvorar em discutir um assunto tão delicado como sistema educacional? Pior é que ainda se acham entendedores. Só no Brasil educação é discutida por comentarista esportivo!”
Nicolelis é um dos maiores neurocientistas do mundo. Vive há 20 anos nos Estados Unidos, onde há décadas existe o SAT (standart admissions test), que é muito parecido com o Enem. Tem três filhos. Os três já passaram pelo Enem americano.
Viomundo — De um total de 3,4 milhões de provas aplicadas no sábado, houve problema incontornável em menos de 2 mil. Tem sentido detonar o Enem, como a mídia brasileira tem feito? E dizer que o Enem fracassou, como um ex-ministro da Educação anda alardeando?

Miguel Nicolelis — Sinceramente, de jeito algum — nem um nem outro. O Enem é equivalente ao  SAT, dos Estados Unidos. A metodologia usada nas provas é a mesma: a teoria de resposta ao item, ou TRI, que é uma tecnologia de fazer exames.  O SAT foi criado  em 1901. Curiosamente, em outubro de 2005, entre as milhões de provas impressas, algumas tinham problema na barra de códigos onde o teste vai  ser lido.  A entidade que  faz o exame não conseguiu controlar, porque esses erros podem acontecer.
Viomundo — A Universidade de Duke utiliza o SAT?
Miguel Nicolelis — Não só a Duke, mas todas as grandes universidades americanas reconhecem o SAT. É quase um consenso nos Estados Unidos. Apenas uma minoria é contra. E o Enem, insisto, é uma adaptação do SAT, que é uma das melhores maneiras de avaliação de conhecimento do mundo. O teste é a melhor  forma de avaliar uniformemente alunos submetidos a diferentes metodologias de ensino. É a saída para homogeneizar a  avaliação de estudantes provenientes de um sistema federativo de educação, como o americano e o brasileiro,  onde os graus de informação, os métodos, as formas como se dão, são diferentes.
Viomundo — Qual a periodicidade do SAT?

Miguel Nicolelis –  Aqui, o exame é aplicado sete vezes por ano. O aluno, se quiser, pode fazer três, quatro, cinco, até sete, desde que, claro, pague as provas. No final, apenas a melhor é computada. Vários estudos feitos aqui já demonstraram que o SAT é altamente correlacionado à capacidade mental geral da pessoa.
Todo ano as provas têm uma parte experimental. São questões que não contam nota para a prova. Servem apenas para testar o grau de dificuldade. Assim, a própria criançada vai ranqueando as perguntas, permitindo a ampliação do banco de questões. Outra peculiaridade do sistema americano é a forma de corrigir a prova. É desencorajado o chute.
Viomundo — Explique melhor.
Miguel Nicolelis — Resposta errada perde ponto, resposta em branco, não. Por isso, o aluno pensa muito antes de chutar, pois a probabilidade de ele errar é grande. Então se ele não sabe é preferível não responder do que correr o risco de responder errado.
Viomundo –  Interessante …
Miguel Nicolelis – Na verdade,  o SAT é  maneira  mais honesta, mais democrática de avaliar pessoas de  lugares diferentes, com sistemas educacionais diferentes,  para tentar padronizar o ingresso. Aqui, nos EUA, a molecada faz o exame e manda para as faculdades que quer frequentar. E as escolas decidem quem entra, quem não entra. O SAT é um dos componentes para essa avaliação.
Viomundo — Aí tem cursinho para entrar na faculdade?
Miguel Nicolelis — Tem para as pessoas aprenderem a fazer o exame, mas não é aquela loucura da minha época. Era cheio de cursinho para todo lugar no Brasil. Cursinho  é uma máquina de fazer dinheiro.  Não serve para nada a não ser para fazer o exame. Por isso ouso dizer: só os donos de cursinho e aqueles que não querem democratizar o acesso à universidade podem ter algo contra o Enem.
Viomundo –Mas o fato de a prova ter erros é ruim.
Miguel Nicolelis — Concordo. Mas os erros vão acontecer.  Em 1978, quando fiz a Fuvest (vestibular unificado no Estado de São Paulo), teve pergunta eliminada, pois não tinha resposta.  Isso acontece desde o tempo em que havia exame para admissão [ao primeiro ginasial, atualmente 5ª série do ensino fundamental)  na época das cavernas (risos). Você não tem exame 100% correto o tempo inteiro.
Então, algumas pessoas estão confundindo uma metodologia  bem estudada, bastante conhecida e aceita há décadas,   com problemas operacionais que acontecem em qualquer processo de impressão de milhões de documentos. Na dimensão em que aconteceram no Brasil está dentro das probabilidade de fatalidades.
Viomundo -- Em 2009, também houve problema, lembra-se?
Miguel Nicolelis -- No ano passado foi um furto, foi um crime. O MEC não pode ser condenado por causa de um assalto, que é uma contigência e nada tem a ver com a metodologia do teste.
Só que, infelizmente, gerou problemas operacionais para algumas universidades, que não consideraram a nota do Enem nos seus vestibulares. Isso não quer dizer que elas não entendam ou nãoaceitam o teste. As provas do Enem são muito mais democráticas, mais  racionais e mais bem-feitas do que os vestibulares de qualquer universidade brasileira.
Eu fiz a Fuvest. Naquela época, era muito ruim. Não media nada. E, ainda assim, a gente teve de se sujeitar àquilo, para entrar na faculdade a qualquer custo.
Viomundo -- Fez cursinho?
Miguel Nicolelis -- Não. Eu tive o privilégio de estudar numa escola privada boa. Mas muitas pessoas que não tinham educação de alto nível eram obrigadas a recorrer ao cursinho para competir em condições de igualdade.
Mas o cursinho não melhora o aprendizado de ninguém. Cursinho é uma técnica de aprender a maximizar a feitura do exame. É quase um efeito colateral do sistema educacional absurdo que  até recentemente tínhamos no Brasil. É um arremedo. É um aborto do sistema educacional que não funciona.
Viomundo -- Qual a sua avaliação do Enem?
Miguel Nicolelis -- É um avanço tremendo, porque a longo prazo a repetição do Enem várias vezes por ano vai acabar com o estresse do vestibular. Você retira o estresse do vestibular. Na minha época, e isso acontece muito ainda hoje, o jovem passava os três anos esperando aquele "monstro". De tal sorte, o vestibular transformava o colegial numa câmara de tortura. Uma pressão insuportável. Um  inferno tanto para os meninos e meninas quanto para as famílias. Além disso,  um sistema humilhante, porque as pessoas que não podiam frequentar um colégio privado de alto nível sofriam com o complexo de não poder competir em pé de igualdade. Por isso os cursinhos floresceram e fizeram a riqueza de tanta gente, que agora está metendo o pau no Enem. Evidentemente  vários interesses estão sendo contrariados devido ao êxito do Enem.
Viomundo -- Tem muita gente pichando, mesmo.
Miguel Nicolelis -- Todo esse pessoal que picha acha que sabe do que está falando.  Só que não sabe de nada. Exame educacional não é  jogo de futebol. Tem metodologia, dados, história. E olha que eu adoro futebol. Sempre que estou no Brasil, vou ao estádio para assistir ao jogos do Palmeiras [Ninguém é perfeito (rs)!] O Brasil fez muito bem em entrar no Enem. É o único jeito de  acabar com esse escárnio, com essa ferida que é o vestibular .
Viomundo — Nos EUA, não há vestibular para a universidade. O senhor acha que o Brasil seguirá essa tendência?
Miguel Nicolelis --  Acho que sim. O importante é o seguinte. O Brasil está tentando iniciar esse processo. Quando você inicia um processo dessa magnitude, com milhões fazendo exame,  é normal ter problemas operacionais de percurso, problemas operacionais. Isso faz parte do processo.
Nos Estados Unidos, as provas já são começam a ser feitas via internet. Como o Brasil em pouco tempo está avançando rapidamente, acredito que logo teremos várias provas por ano, como aqui [nos EUA, há sete, lembram-se?], e tudo por computador. O aluno se inscreve e, num dia e hora pré-determinados, vai com a sua senha a um terminal estabelecido — terá de se estabelecer uma rede –  acessa e faz a prova. Será um exame só para ele. Você elimina o risco de vazamento e economiza com a impressão de provas, que custa um dinheirão.
Nós estamos caminhando para o Enem ser a moeda de troca da inclusão educacional. As crianças vão aprender que não é porque elas fazem cursinho famoso da Avenida Paulista que elas vão ter mais chance de entrar na universidade. Elas vão entrar na universidade pelo que elas acumularam de conhecimento ao longo da vida acadêmica delas. Elas vão poder demonstrar esse conhecimento sem estresse, sem medo, sem complexo de inferioridade. De uma maneira democrática.E, num futuro próximo, tanto as crianças de escolas privadas quanto as  de escolas públicas vão começar a entrar nesse jogo  em pé de igualdade. Aí,  sim vai virar jogo de futebol.
Futebol é uma das poucas coisas no Brasil em que o mérito é implacável. Joga quem sabe jogar. Perna de pau não joga. Não tem espaço. O talento se impõe instantantaneamente.
Educação tem de ser a mesma coisa. O talento e a capacidade têm de aflorar naturalmente e todas as pessoas têm de ter a chance de sentar na prova com as mesmas possibilidades.

Da polarização à politização da sociedade

 Copiado do Escrevinhador

Da polarização à politização da sociedade


Por Igor Felippe Santos


A eleição de Dilma Rousseff (PT) é uma vitória da sociedade brasileira. E não temos que ter vergonha de comemorar a derrota de José Serra (PSDB), que se tornou símbolo dos setores que se opõem às bandeiras progressistas no país.


A mídia burguesa, os setores conservadores da igreja católica e evangélica, os ruralistas mais truculentos e o imperialismo dos Estados Unidos perderam uma batalha importante com a derrota de Serra.


O tucano fez uma campanha fratricida, lançando mão de boatos, mentiras e ataques aos movimentos sociais (especialmente ao MST), com um corte de extrema-direita, para fazer terrorismo eleitoral. A imagem das mulheres grávidas no horário político de Serra demonstra sua opção pelo chamado “vale tudo”, inclusive jogar sua biografia no lixo.


Por debaixo dos panos, sem a coragem de debater publicamente, a campanha tucana satanizou a descriminalização do aborto e o casamento civil entre homossexuais, que já foram aprovados em países mais avançados. Com isso, os tucanos caíram no colo da Tradição, Família e Propriedade (TFP) e da Opus Dei.


O clima criado pela campanha de Serra, tanto a oficial como a das sombras, causou uma polarização eleitoral, que obrigou os setores mais importantes da sociedade a tomarem partido. Organizações da sociedade civil, entidades de classe, intelectuais, artistas, estudantes, médicos, profissionais liberais, igrejas e a mídia (desde as televisões, passando pelos jornais, até chegar à internet) tiveram que fazer uma opção entre Dilma e Serra. E aqueles que se omitiram, pagarão o preço de ver o trem da história passar nos próximos quatro anos.

Como o e mbate eleitoral teve um nível muito baixo, essa polarização não girou em torno de projetos políticos antagônicos para o Brasil, mas na capacidade dos candidatos de continuarem as linhas gerais do governo Lula. De qualquer forma, dois campos políticos se expressaram de forma clara nessas eleições, contraponto o setor progressista e conservador. Em 2006, por exemplo, o quadro político não ficou tão claro.


Nesse quadro, o grande desafio dos setores progressistas é manter a coesão desse bloco construído em torno de Dilma e politizar as disputas políticas que virão, em torno do programa democrático-popular. Assim, a partir desta eleição, esse campo poderá fazer pressão por mudanças estruturais necessárias para a sociedade brasileira, que garantam educação, saúde, moradia, saneamento básico e terra para os brasileiros.

Embora as políticas públicas nessas áreas sejam muito importantes, não terão forças para solucionar os princ ipais problemas que essa geração do povo brasileiro enfrenta no seu dia a dia. Os direitos sociais da população só estarão garantidos com reformas estruturais, que implicam enfrentar os interesses da classe dominante brasileira e internacional, que quer impor outra agenda ao país.


As forças do neoliberalismo, lideradas pelos bancos, capital financeiro, empresas transnacionais e os grandes meios de comunicação, farão o possível – e impossível, como mostraram na campanha – para impedir qualquer medida progressista do governo federal.


Não podemos ignorar, inclusive, que esses setores têm força e influência dentro da ampla coalizão de forças que venceu a eleição presidencial. Por isso, é fundamental a pressão da sociedade para enfrentar os interesses conservadores, inclusive dentro do que vier a ser o governo Dilma.


Os setores progressistas venceram uma batalha importante com a vitória de Dilma, mas a luta continua , será intensa e dependerá da participação de toda a sociedade brasileira, que precisa se posicionar em relação a cada disputa, enfrentando os interesses dos poderosos para garantir transformações sociais para resolver os problemas do povo brasileiro.


Igor Felippe Santos é jornalista, editor da Página do MST, integrante da Rede de Comunicadores pela Reforma Agrária e do Centro de Estudos Barão de Itararé.

sábado, 13 de novembro de 2010

Blog do Zé: Banco Central e Dr. Meirelles, palavras, palavras, só isso...

Copiado do Blog do Zé Dirceu

Banco Central e Dr. Meirelles, palavras, palavras, só isso...
Publicado em 12-Nov-2010
Image
Henrique Meirelles
Uma ida do presidente do Banco Central (BC), dr. Henrique Meirelles, à Comissão Mista de Orçamento do Congresso Nacional e, mais uma vez, ficamos sem nada de novo. Ele não escondeu sequer sua oposição a proposta do presidente Lula e do ministro da Fazenda, Guido Mantega, de substituição do dólar como moeda de valor nas reservas e nas transações internacionais por uma cesta de moedas que inclua dentre outras o euro, o iene, o yuan e o real. O presidente do BC continua a discordar de políticas do presidente da República e do ministro da Fazenda! Inclusive da principal proposta que estes levaram à reunião do G-20 que se realiza ontem e hoje em Seul (Coréia do Sul).

Uma ida do presidente do Banco Central (BC), dr. Henrique Meirelles, à Comissão Mista de Orçamento do Congresso Nacional e, mais uma vez, ficamos sem nada de novo. Ele não escondeu sequer sua oposição a proposta do presidente Lula e do ministro da Fazenda, Guido Mantega, de substituição do dólar como moeda de valor nas reservas e nas transações internacionais por uma cesta de moedas que inclua dentre outras o euro, o iene, o yuan e o real.

O presidente do BC continua a discordar de políticas do presidente da República e do ministro da Fazenda! Inclusive da principal proposta que estes levaram à reunião do G-20 que se realiza ontem e hoje em Seul (Coréia do Sul).

Dr. Meirelles justifica sua discordância com o argumento de que, para viabilizar a proposta do ministro Mantega, não há um volume suficiente de outras moedas ou mesmo de DES - Direitos Especiais de Saque, a "moeda" usada contabilmente pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

"Seria algo desejável - concedeu - o proposto pelo ministro, mas para que isso aconteça teria de haver um acordo global. E teria de se criar um volume suficiente de DES. Uma coisa que limita o uso de outras moedas é o volume delas, não suficiente para que elas possam ser usadas e este problema do DES hoje."

Inflação, pretexto conjuntural


O grave, nisso, é que o câmbio deixou de ser um problema do BC e da política monetária e passou a ser a principal questão de nossa economia e do mundo nos próximos meses. Se não há ingenuidade de nossa parte, temos que deixar (principalmente o BC tem de deixar...) de tratar o câmbio como se não tivesse acontecendo nada no mundo - um mundo, registre-se com muita seriedade, onde o câmbio flutuante, na prática, deixou de existir.

Todos o manipulam, mas aqui no Brasil, só agora acordamos para isso. Apesar dos alertas e da obviedade de que não dava mais para continuar acreditando num câmbio flutuante puro e limpo, quando todos os países já praticavam o câmbio sujo.

Para mudar precisamos começar pelos juros, reduzindo a taxa Selic (10,75% hoje) e controlando os capitais, já que o custo do acúmulo de reservas (mais de US$ 275 bi cuja manutenção custa R$ 45 bi/ano) ameaça o equilíbrio fiscal e os investimentos públicos.

O problema é como fazê-lo com o dr. Meirelles apegado a um pretexto conjuntural para manter essa sua história de que a projeção de inflação do BC não dá margem para reduzir juros.
Foto: Valter Campanato/ABr

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O corajoso discurso de Franklin Martins


Lí no Blog do Miro:

Reproduzo a integra da intervenção do ministro chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom), apresentada na abertura do Seminário Internacional das Comunicações Eletrônicas e Convergência de Mídias, em 9 de novembro:

Bom dia a todos vocês.

Em primeiro lugar, eu queria agradecer aos palestrantes dos diferentes
países, que vieram de tão longe aqui, para dividir conosco a experiência que
possuem de regulação de comunicações eletrônicas.

Queria agradecer a todos os participantes, entidades, personalidades,
parlamentares, agentes públicos, acadêmicos, organizações da sociedade civil
empresarial e não empresarial, que aqui estão presentes, e dizer que, para a
Secom, é motivo de uma grande satisfação realizar este seminário.

O mundo das telecomunicações vive, hoje, uma era de desafios e de enormes
oportunidades. O processo de digitalização, a internet, o processo de
convergência de mídias, tudo isso oferece extraordinárias possibilidades,
seja do ponto de vista da difusão da informação, seja do ponto de vista da
produção e difusão cultural, seja do ponto de vista da democratização de
oportunidades e do exercício da cidadania. Além disso, permite o
estabelecimento de uma economia de vastíssimas proporções e enormes
potencialidades, gerando crescimento, gerando emprego, gerando renda,
aumentando a arrecadação de impostos; em suma, organizando um importante
setor da economia, incidindo sobre o conjunto da economia uma sociedade de
informação e de conhecimento.

Algumas consequências desse processo são nítidas. Em primeiro lugar, os
custos de produção caem brutalmente, a digitalização permite que muitas das
atividades, feitas em outras plataformas, em outras bases tecnológicas,
antes, sejam feitas de forma muito mais barata, e isso abre enormes
possibilidades.

As fronteiras entre as telecomunicações e a radiodifusão vão se dissolvendo,
e isso gera grandes desafios. Até algum tempo atrás, era de um lado o
telefone, telefone era voz, não passava disso; do outro lado, você tinha a
radiodifusão. Hoje, cada vez mais, esse processo vai produzindo uma
interpenetração, gerando uma série de interrogações, uma série de
possibilidades, gerando uma série de riscos, mas, mais do que tudo, gerando
enormes possibilidades.

Eu costumo citar que a convergência. Costumo dizer que a convergência de
mídias é um processo inelutável, está em curso e ninguém vai detê lo. Por
isso mesmo é muito bom olharmos para frente, ao invés de ficar olhando para
o passado, olhar para trás. Olhar com nostalgia para o passado pode ser
muito interessante, do ponto de vista, vamos dizer, da pessoa se sentir bem,
rememorar coisas, etc., mas o futuro está ali e o futuro é a convergência de
mídia. Vou dar um exemplo para vocês. Isto aqui é uma televisão portátil, eu
recebo aqui um sinal aberto, gratuito, de radiodifusão e posso assistir
televisão aqui. Agora, esse mesmo aparelho se transforma em um celular, eu
recebo aqui televisão, um sinal numa tecnologia 3G, 3G e meio, 4G, ou o que
vier a aparecer, um sinal que pode ser gratuito, ou não, dependendo do
modelo de financiamento que a empresa tiver adotado. Evidente que o usuário
não vai ficar andando com dois aparelhinhos iguais. Esses dois aparelhinhos
viram um só, isso vale para a mobilidade, mas isso vale dentro de casa. Ou
seja, em pouquíssimo tempo, para o usuário, o cidadão, será absolutamente
indiferente se o sinal está vindo da radiodifusão ou está vindo das
telecomunicações.

Regular esse processo de convergência é um tremendo desafio e uma grande
necessidade para todo mundo, porque, sem regulação, não se estabelecem
regras claras, não há segurança de como atuar e, mais do que isso, não há
uma interferência da sociedade em como produzir um ambiente estável, um
ambiente com perspectiva e um ambiente onde os interesses da sociedade
prevaleçam sobre todos os demais.

Este seminário aqui, ele tem como objetivo recolher as experiências de
vários países, países democráticos, países com os quais nós mantemos
relações intensas, não só do ponto de vista econômico, mas do ponto de vista
cultural, do ponto de vista político, que são parceiros importantes do
Brasil, recolher as experiências de como eles estão regulando esse processo
de convergência de mídia. Ninguém tem um modelo pronto, que está dando
certo, que já resolveu tudo, não; está todo mundo, mais ou menos, sobre a
marcha, enfrentando os problemas que vão aparecendo. Acerta aqui, erra ali,
busca uma solução que se revela criativa, uma outra, que se pensava que era
criativa, se vê que não dá nada, bateu num muro. Mas são. Eles estão lidando
com isso e estão, de um modo geral, muito mais avançados do que nós, como
nós veremos a seguir.

Aprender com as experiências deles não é copiar a experiência deles; é ver
como eles lidaram com problemas semelhantes ao que nós estamos lidando aqui.
Semelhantes, não iguais. Semelhantes, não iguais. Então, aprender com as
experiências deles é importante para nós entrarmos nesse desafio de produzir
um novo marco regulatório para as comunicações eletrônicas, dentro desse
ambiente de convergência de mídia.

No Brasil, o nosso desafio é maior ainda do que estão enfrentando esses
outros países, porque aos desafios que são gerais, próprios das mudanças de
tecnologia, da introdução de novas tecnologias, etc., somam se desafios
peculiares, particulares nossos.

A nossa legislação é absolutamente ultrapassada. Isso não é segredo para
nenhum de vocês. A gente pode fazer discurso, pode dizer que já fez uma
mudancinha aqui, adaptou ali, mas cada um de nós, quando conversa com seus
botões e não com o microfone da televisão, sabe perfeitamente que a nossa
legislação é absolutamente ultrapassada. Para se ter uma ideia, o Código
Brasileiro de Telecomunicações, que é o que rege a radiodifusão em linhas
gerais, é de 1962 - 62 -, ou seja, televisão, não havia TV a cores, não
havia satélites, não havia rede; naquela época, havia mais "televizinho" do
que televisão no Brasil. "Televizinho", para quem não se lembra - a maioria
aqui não é daquela época - se chamava simpaticamente os vizinhos que vinham
assistir televisão na casa de quem tinha. Pois bem, havia mais "televizinho"
do que televisão. Nosso Código é dessa época. Ele não responde aos
problemas, é evidente. E acumularam se problemas imensos, que não foram
sendo resolvidos, que foram sendo encostados, que se fez uma gambiarra, fez
um gatilho(F). Olha, não é só em favela que se faz gambiarra para puxar TV
por assinatura, não. Nossa legislação é um cipoal de gambiarras, porque não
vem se enfrentando as questões de fundo.

A isso se soma uma outra coisa. Nossos dispositivos constitucionais sobre
comunicação, em sua maioria, não foram regulados até hoje. Ou seja, o
constituinte determinou uma série de questões e disse: "É preciso lei para
isso". Vinte e dois anos depois, o Congresso não votou lei alguma que
regulasse isso, alguma. Alguma não. Quando algumas empresas de comunicação
tiveram problemas de caixa - entende? -, aí se votou a lei que regulou a
questão do capital estrangeiro, porque era necessário capital com dinheiro
lá fora. Mas tirando isso, quando foi que se regulou a questão da produção
independente, da produção regional, da produção nacional, da desconcentração
das propriedades? Fica tudo ali na prateleira, fica tudo na cristaleira. Eu
acho que a hipocrisia é uma das piores coisas que pode haver na vida de uma
pessoa e na vida de um país. Se nós achamos que não vale a pena, nós não
queremos produção nacional, garantias para ela, nós não queremos garantia
para produção regional, nós não queremos garantia para que haja produção
independente, nós não queremos evitar a concentração excessiva da
propriedade. Se nós achamos tudo isso, nós devemos revogar essa
Constituição. Agora, isso está lá e isso exige ser regulamentado, e o
processo de regulamentação das comunicações eletrônicas é uma oportunidade
para isso e isso não pode ficar de fora.

Tudo isso produziu. Que, em muitos aspectos, o que eu estou falando não é
novidade para nenhum dos senhores que são do setor, que acompanham, sejam da
academia, de entidades empresariais, não empresariais, de legisladores,
criou se, na área de comunicação, uma situação que foi um pouco terra de
ninguém.

Todos nós sabemos que deputado e senador não pode ter televisão, mas todos
nós sabemos que deputados e senadores têm televisões, através de
subterfúgios dos mais variados. Está certo? É evidente que está errado. Por
que não se faz nada? Porque eu acho que a discussão foi sendo, o tempo todo,
contida, foi sendo, o tempo todo, evitada e, agora, é uma oportunidade para
que se rediscuta tudo isso. Mas isso. Eu vou dizer francamente aos senhores:
o principal não é olhar para trás; é aproveitar e se fazer aquilo que
devíamos ter feito, porque, fazendo isso bem feito, poderemos, ao mesmo
tempo, simultaneamente, olhar melhor para frente e, para frente, ser capaz
de legislar de uma forma mais permanente, mais flexível, mais capaz, mais
moderna, mais integradora, mais cidadã e mais democrática.

Isso tem de ser feito através de um processo de discussão público, aberto,
transparente.

Tudo bem que a gente converse em separado, todo mundo converse em separado,
mas a essência da discussão não é como tal grupo econômico ou tal setor faz
chegar seus pleitos, demandas, exigências, críticas, preocupações ao Poder
Público; é como todos levam isso abertamente, publicamente, de forma
transparente, na sociedade, e a sociedade escolhe e elege os caminhos que
deseja seguir. E isso, basicamente, no local definido constitucionalmente,
no local onde se produzem as leis, e pode ser choque dos interesses, palco
do choque dos interesses, que é o Congresso Nacional.

O governo federal, ao trabalhar para produzir um anteprojeto de um marco
regulatório, vê esse processo como um processo de discussão pública, aberta,
transparente, que não é rápida, é complexo o assunto, são sensíveis os
problemas, as reivindicações são grandes, os ressentimentos e os
preconceitos monumentais de tudo que é lado, os fantasmas passeiam por aí,
arrastando correntes e, muitas vezes, impedindo que a gente ouça o que tem
que ouvir. E isso só se dissolve num debate público aberto e transparente.
Eu acho que a nossa sociedade, apesar de alguns momentos de enorme tensão,
de fúrias mesquinhas, é uma sociedade com uma grande vocação para o
entendimento, para a discussão, para o debate, para acertar posições, e eu
acho que esse debate, se nós formos capazes de nos livrarmos dos fantasmas e
não deixarmos os fantasmas comandar a nossa ação, nós conseguiremos produzir
um clima de entendimento e avançaremos muito nesse sentido.

Isso interessa à sociedade. Essa discussão tem que ser travada frente a
frente com a sociedade, porque isso interessa à sociedade. Isso não é uma
discussão apenas sobre economia, sobre uma repartição de áreas ou cruzamento
de áreas entre grupos econômicos e setores; isso diz respeito à comunicação,
diz respeito à democracia, à criação de oportunidades, a uma sociedade de
informação e conhecimento, à participação política, à produção cultural, e,
para isso, a sociedade deve participar diretamente disso, e esse deve ser o
pano de fundo, em cima do qual se assentam as opções que o país terá de
fazer.

Quais são os princípios? Me perguntam muito: "Ah, mas como é que está? Vai
ser uma ou duas agências? Vai fazer isso ou vai fazer aquilo?". O governo
está discutindo internamente, suando para conseguir produzir algo, ainda
neste mandato, para entregar à presidente eleita, a Dilma Rousseff, para que
ela decida o que quer fazer, se quer abrir para consulta pública aquele
projeto ou se quer trabalhar mais em cima do projeto. Provavelmente é o que
ela fará e tal, ela terá um ponto de partida, mas fará. Eu dizia ontem, e
tenho dito: eu estou convencido de que a área de comunicação no governo da
presidente Dilma terá - eu vou fazer uma comparação -, mais ou menos, o
mesmo tratamento que teve a área de energia no primeiro mandato do Governo
Lula.

No primeiro mandato do Governo Lula, ou se estabelecia um marco regulatório
para energia, que desse perspectiva, condição de planejamento, segurança
jurídica, interferência da sociedade, que se criasse esse ambiente, para que
o investimento fosse retomado com a velocidade necessária, ou se produziriam
apagões em série. Se fez a modificação, se produziu um novo ambiente
regulatório, e o Brasil, penando, se livrou do fantasma do apagão. Diferente
é um dia cair uma torre, etc., mas o apagão, como carência da oferta de
energia, isso parou de existir. Por quê? Porque se criou um novo ambiente
regulatório e se definiu aquilo enquanto algo estratégico para o crescimento
da economia, naquele período. Comunicação é a mesma coisa agora: ou se
produz um novo marco regulatório ou nós vamos perder o bonde de uma área
crucial para o crescimento da economia e, mais do que o crescimento da
economia, para o exercício da cidadania, nos próximos 10, 20 anos, porque
não se chega lá de qualquer jeito, não se chega lá só com o mercado
empurrando de qualquer jeito; é necessário debater, discutir, traçar
políticas públicas, fazer regulação para que as políticas públicas sejam
aplicadas e, em função disso, criar um ambiente que permita o investimento e
permita que a sociedade se sinta portadora de direitos, não só como
usuários, mas como cidadãos.

Isso é especialmente importante. Então, o que eu quero dizer é o seguinte:
precisamos de uma discussão aberta, pública, transparente, sobre isso. E eu
queria convidar a todos os senhores a - na medida do possível, eu sei que
isso não é fácil - deixar os seus fantasmas no sótão, que é onde eles se
sentem melhor. Os fantasmas, quando dominam as nossas vidas, de um modo
geral, nos impedem de olhar de frente a realidade. Passa uma criança
brincando, você não percebe como aquilo é lindo; passa uma mulher bonita -
no meu caso -, você não olha, porque você está com os fantasmas na cabeça.

Eu queria dizer aos senhores o seguinte: há crianças brincando, há mulheres
bonitas, há situações interessantes, há possibilidades extraordinárias, há
disposição política, mas os fantasmas não podem comandar o processo. Se
comandarem, nós perderemos uma grande oportunidade. Se comandarem, nós não
criaremos um ambiente de entendimento, mas perseveraremos num ambiente de
confrontação, e isso não é bom para ninguém. Vamos nos desarmar, não da
defesa dos interesses de cada grupo, evidente, de cada setor, continuarão
defendendo, mas vamos nos desarmar. Isso é muito concreto. Nenhum setor,
nenhum grupo tem poder de interditar a discussão; a discussão está na mesa,
está na agenda, ela terá de ser feita, ela pode ser feita, num clima de
entendimento ou num clima de enfrentamento. Eu acho que é muito melhor fazer
num clima de entendimento.

Eu vou repetir para vocês algo que eu falei na comissão organizadora da
Conferência Nacional de Comunicação, quando determinadas entidades
resolveram se retirar - um direito legítimo delas - da organização daquele
processo, achando que estavam tomando caminhos. Eu acho que eles estavam
equivocados, mas não quero discutir, isso é passado, eu estou olhando para
frente, quero deixar bem claro. Mas eu vou repetir o que eu disse para eles:
o governo federal tem consciência de que, nesse processo de convergência de
mídias, é preciso dar uma proteção especial à radiodifusão, e não faz isso
porque tem nenhum acerto, não; faz isso porque tem sensibilidade social, tem
a sua opinião, que tem sensibilidade social. O sinal da radiodifusão é um
sinal aberto, gratuito, que chega a todo mundo, e, em um país que, apesar
dos enormes progressos dos últimos anos, ainda tem uma percentagem da
população miserável, ou uma grande percentagem da população pobre, ter um
sinal de radiodifusão aberto, gratuito, em todo o território nacional, que
chega a todos, é de extrema relevância.

Então, temos essa sensibilidade, temos a vontade de encontrar, dentro desse
cipoal, que é o processo de convergência de mídias, caminhos que produzam
isso. E eu vou dizer o que eu disse, naquele dia, aos representantes das
organizações que tinham decidido se retirar: se não houver pactuação, se não
houver um processo de discussão público, aberto e transparente, que coloque
na mesa os interesses de cada um, legítimos, e se resolva eles à luz dos
interesses nacionais, quem vai regular não é o debate, é o mercado. Não é o
Congresso. Quem vai regular é o mercado. E, quando o mercado regula, quem
ganha é o mais forte.

A radiodifusão. Aquilo foi em 2008, o episódio, e eu disse a eles. A
radiodifusão tinha faturado, naquele ano, no ano anterior. Aliás, foi início
de 2009. No ano de 2008, ela tinha faturado como um todo, o setor como um
todo, no Brasil, 11,5 bilhões. O setor de telecomunicações, no ano de 2008,
tinha faturado, em todo o Brasil, 130 bilhões. Esses números, se eu não
estou errado, evoluíram, no ano de 2009, para 13 bilhões e um quebrado, para
a radiodifusão, e algo próximo de 180 bilhões para as telecomunicações. Ou
seja, a grosso modo, o faturamento, hoje em dia, das teles, o setor de
telecomunicações é 13 a 14 vezes maior do que o faturamento da radiodifusão,
e aí vale rádio, rede nacional de televisão, rádio do interior, todo mundo,
pelo menos o declarado. É evidente que, se não houver regulação, se não
houver a criação de mecanismos que entendam a importância da radiodifusão e
sua importância social no país, ela será atropelada pelas telecomunicações.
Eu costumo dizer que será atropelada por uma jamanta. Isso não é bom para o
país. Isso não é bom para o povo brasileiro, isso não é bom para a pessoa de
classe C, D e E, que não têm condições de ter acesso a outro tipo de
comunicação eletrônica, que precisa daquilo. Por isso mesmo a regulação deve
entrar nisso. Mas reparem só: para entrar, nós temos que entrar na
discussão. Não dá para dizer: "Eu vou interditar toda outra discussão, e
essa daqui eu quero". Isso não existe. Aqui entre nós, ninguém é tão forte
assim no Brasil para isso, nem o governo federal, nem o setor de teles, nem
a radiodifusão, nem academia. Ninguém é tão forte. Nós precisamos sentar na
mesa e conversar, sentar na mesa e conversar, e produzir, no local onde se
votam e aprovam as leis, que é o Congresso Nacional, um texto que seja capaz
de fazer um novo ambiente regulatório, um ambiente de convergência de mídias
extremamente complexo, em mutação permanente. Que nós sejamos capazes de
fazer isso.

Entre os fantasmas, talvez o fantasma mais renitente, o fantasma que mais
aparece, o fantasma mais garboso dessa discussão toda, seja a tese de que
regulação é sinônimo de censura à imprensa. O Governo Lula já deu provas
suficientes do seu compromisso com a liberdade de imprensa, e deu em
condições onde não teve a imprensa a seu favor. Na época do pensamento
único, era fácil. Eu quero ver ser a favor da liberdade de imprensa,
apanhando dia e noite da imprensa, muitas vezes sem amparo nos fatos, muitas
vezes movido apenas pelo preconceito, muitas vezes movido apenas pela
posição política desse ou daquele órgão, etc. e tal. Nenhum problema com a
liberdade de imprensa, nenhum problema. O Brasil goza de absoluta, de
irrestrita liberdade de imprensa.

Da minha parte, eu, como jornalista, e eu, como militante político, já aos
14, 15 anos, lutava contra a ditadura, faço parte de uma geração que cresceu
ansiando por liberdade de imprensa, aprendeu o seu valor. Eu não estou entre
aqueles que lutou [contra] a ditadura em algumas circunstâncias; eu lutei
contra a ditadura do primeiro ao último dia da ditadura, lutei pela
liberdade de imprensa do primeiro ao último dia da ditadura. Então a
liberdade de imprensa não é algo que é uma circunstância que politicamente
me convém ou não convém; é como eu digo, é algo que vem da alma.

Então, essa história que a liberdade de imprensa está ameaçada, isso é uma
bobagem, isso é um fantasma, isso é um truque, porque isso não está em jogo.
É importante qualificar. A liberdade de imprensa é a liberdade de imprimir.
Ou seja, antigamente, quando não existia rádio, quando não existia
televisão, a liberdade de imprensa significava o direito que cada pessoa que
publicava um jornal tinha de imprimir o que quisesse. Hoje em dia, ela é
mais ampla do que a liberdade de imprimir; ela é a liberdade de divulgar,
porque também entra em meios. Não papel, não fita, que, cada vez mais, a
liberdade de imprensa significará liberdade de divulgar, publicar. A essa
liberdade não deve, não pode, não haverá qualquer tipo de restrição. Mas
vamos com calma. Isso não significa que não pode ter regulação na sociedade.
Eu estou seguro. Os senhores ouvirão o relato das experiências dos
diferentes países, todas democracias. Os Estados Unidos é uma democracia, é
uma democracia. O Reino Unido é uma democracia. Nossa República "hermana" da
Argentina é uma democracia. Portugal é uma democracia. Espanha é uma
democracia. Europa é uma democracia. Em todos eles há regulação de meios
eletrônicos, e isso não significa, por nada, que haja censura. Gostaria
muito que os senhores, quando houver a fase das perguntas, perguntassem
muito, aqui, aos expositores, se a liberdade está ameaçada lá, porque existe
regulação.

Então, isso é uma discussão que é um fantasma. Ele entra na discussão, na
verdade, para não se entrar na discussão. E é isso que eu acho que nós
deveríamos, nesse debate, tentar ultrapassar e ir muito além disso. É
verdade o seguinte: liberdade de imprensa. Eu acho que, às vezes, é essa a
confusão que eu acho que existe. Não quer dizer que a imprensa não pode ser
criticada, que a imprensa não pode ser observada, que a imprensa não pode
ser alvo de críticas de quem quer que seja. Todos nós somos alvos de
críticas. Aliás, quando temos uma atitude madura diante das críticas, de um
modo geral, melhoramos com elas. Isso vale para nossa vida doméstica, vale
para nossa vida profissional, vale para as empresas que alguns de vocês
dirigem, vale para países, vale para o Presidente da República, vale para o
Papa. Ou seja, quando somos criticados e olhamos as críticas sem
preconceito, em geral, melhoramos com ela. Elas podem ser verdadeiras, podem
não ser, mas isso é parte do jogo.

Liberdade de imprensa, volto a dizer - já disse isso várias vezes - quer
dizer que a imprensa é livre, não quer dizer que a imprensa é
necessariamente boa. A imprensa erra, erra muito. Eu, como jornalista, sei
que a imprensa erra muito, qualquer jornalista que está aqui sabe que a
imprensa erra muito. Os leitores, telespectadores, ouvintes sabem que a
imprensa erra muito, e, de um modo geral, é capaz de distinguir, de separar,
o erro cometido de boa fé, no afã de produzir a tempo uma informação para
ser entregue ao público, da manipulação da notícia, que é produzir com
qualquer outra intenção, mas estão sendo submetidos às críticas dos
telespectadores, dos ouvintes, dos leitores, todos os órgãos de imprensa,
que também podem ser submetidos à crítica por outros órgãos de imprensa. A
imprensa no Brasil, nos tempos heróicos, era um cacete só entre os jornais,
eles brigavam o tempo todo. Isso não dizia que não havia liberdade de
imprensa; dizia que havia liberdade de imprensa.

Então, a crítica a erros da imprensa, a crítica à manipulação que certos
órgãos eventualmente venham a fazer, isso faz parte da disputa política, e a
liberdade de imprensa não está arranhada, quando alguém crítica um órgão ou
outro da imprensa; ao contrário, isso faz parte do ambiente democrático, e
com ele se deve aprender a viver e, se possível, aprender a melhorar.

Eu acho que, se nós formos capazes de entender isso, nós vamos ter mais
vozes se expressando, porque o que se quer não é. Onde tem liberdade de
imprensa se quer mais liberdade de imprensa; onde se tem algumas vozes
falando se quer é mais vozes falando; onde tem opiniões se expressando, no
debate público, se quer é mais opiniões se expressando no debate público;
onde se tem artistas e pessoas do povo, produzindo cultura, o que se quer é
mais artistas e mais gente do povo produzindo cultura. É "mais" e não
"menos" que está em jogo, neste debate sobre o novo marco regulatório.

Então, eu queria, para finalizar, novamente, agradecer a todos os senhores,
agradecer especialmente aos palestrantes que vieram de tão longe aqui, para
nos brindar com a sua experiência. Estou seguro de que ela nos ajudará
muito, ajudará muito, não apenas ao governo, mas a toda a sociedade
brasileira, a travar, de uma forma madura, um debate que já custou muito a
chegar e que precisa ser travado o quanto mais cedo possível.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Marco regulatório vs. liberdade da imprensa



DEBATE ABERTO
Marco regulatório vs. liberdade da imprensa

Regular a mídia é ampliar a liberdade de expressão, a liberdade da imprensa, a pluralidade e a diversidade. Regular a mídia é garantir mais – e não menos – democracia. É caminhar no sentido do pleno reconhecimento do direito à comunicação como um direito fundamental da cidadania.

Venício Lima


Em entrevista concedida ao Jornal da Band, no último dia 2/11, a presidente eleita Dilma Rousseff tentou esclarecer, pela undécima vez, uma diferença que a grande mídia e seus aliados têm ignorado e, arriscaria a dizer, deliberadamente confundido: marco regulatório da mídia não tem nada a ver com qualquer restrição à liberdade da imprensa.

Diante da inescapável pauta sobre as "ameaças à democracia e à liberdade de expressão e de imprensa" que o país estaria enfrentando, o apresentador, Fábio Pannunzio, pergunta:

Apresentador – Esse é um assunto que, apesar de a senhora ter falado mil vezes disso, ainda não ficou claro o suficiente para que as pessoas possam entender. Então, vou insistir na pergunta. A senhora disse no seu discurso de anteontem [31/10] que prefere o barulho de uma imprensa livre ao silêncio das ditaduras, não é? A senhora estava se referindo a isso que se atribuí ao PT, que há uma tentativa de controlar a liberdade de imprensa no Brasil? (...)

Presidente eleita – Veja bem, você tem de distinguir duas coisas: marco regulatório de um controle do conteúdo na mídia. O controle social da mídia, se for de conteúdo, ele é um absurdo! É, de fato, um acinte à liberdade de imprensa, com esse acinte eu não compactuo. Jamais compactuarei.

Apresentador – A senhora vetaria se chegasse à sua mesa?

Presidente eleita – Se chegar na minha mesa qualquer tentativa de coibir a imprensa, no que se refere a divulgação de ideias, posições, propostas, opiniões, enfim, tudo que for conteúdo, eu acho que é isso que eu falei mesmo, o barulho da imprensa , seja que crítica for, ele é construtivo. Mesmo quando você discorda dele. Agora, isso não é um milhão de vezes, é infinitas vezes melhor que o silêncio das ditaduras. Isso é uma coisa.

Outra coisa diferente é a questão do marco regulatório. Porque o marco regulatório é outra questão. Vou tentar explicar, com alguns exemplos.

Apresentador – Para que a gente consiga entender, exatamente, a questão.

Presidente eleita – Com exemplos. Por exemplo: a participação do capital estrangeiro. Você tem todo o país regulamenta a participação do capital estrangeiro nas suas diferentes mídias. Outra questão, que é importantíssima, é o fato de que o mundo está mudando em uma velocidade enorme. Então, você vai ter de regular, de alguma forma, a interação entre as mídias, porque, hoje, quem faz isso não pode fazer aquilo, que não pode fazer aquele outro. O problema do cabo, o problema do sinal aberto, como é que junta tudo isso com internet; mesmo assim eu acho que a gente tem de ter muito cuidado.

Você tem de fazer um marco regulatório que permita que haja adaptações ao longo do tempo. Por quê? Porque, eu não sei se você lembra, em 80, nos anos 80, 90, a telefonia fixa era uma potência. Cada vez mais, com a base da internet, você tem a possibilidade, em cima da internet, de ter TV, telefonia, celular, enfim. O mundo está mudando, então até isso você vai ter de considerar. Você não pode ter, também, um marco regulatório que desconheça a existência da banda larga. E se você vai poder, ou não vai poder, fazer televisão, em que condições você vai fazer televisão. Isso o Brasil vai ter de regular minimamente, até porque tem casos que, se você não fizer isso, você deixa que haja uma concorrência meio desproporcional entre diferentes organismos.

Apresentador – Ok, muito obrigado pela resposta.

[Curiosamente essa parte da entrevista não consta do vídeo disponibilizado no site do Jornal da Band]

Confusão deliberada

Um marco regulatório se refere à regulação do mercado de mídia e à garantia de direitos humanos fundamentais. A regulação é necessária para impedir a propriedade cruzada e a concentração do controle nas mãos de umas poucas famílias e oligarquias políticas; garantir competição, pluralidade e diversidade. Para impedir a continuidade do "coronelismo eletrônico"; garantir o direito de resposta, inclusive o direito difuso, e o direito de antena. Em particular, marco regulatório se refere à radiodifusão (como se sabe, mas é sempre bom relembrar, uma concessão pública) e às novas tecnologias (internet, banda larga, telefonia móvel etc.).

Como diz a célebre frase do juiz Byron White da Suprema Corte dos Estados Unidos, "é o direito dos telespectadores e ouvintes, não o direito dos controladores da radiodifusão, que é soberano".

É disso que se trata.

Pergunto ao eventual leitor(a) se ele acredita que em democracias como os Estados Unidos, a Inglaterra, a França, a Alemanha, Portugal, Espanha – para citar apenas alguns –, a liberdade da imprensa vive sob permanente ameaça? A comparação faz sentido no atual contexto brasileiro porque esses são países onde existe, há décadas, marco regulatório para o campo das comunicações, vale dizer, regulação da mídia.

A legislação ignorada

No Brasil, tanto a lei quanto a Constituição são cristalinas sobre a necessidade de fiscalização e regulação das concessões de radiodifusão. Ademais, os avanços tecnológicos das últimas décadas, que têm como marco a revolução digital e provocaram a chamada "convergência de mídias" pela diluição das fronteiras entre as telecomunicações e a radiodifusão, tornaram inevitável a regulação do setor.

Mais uma vez: é disso que se trata.

O Código Brasileiro de Telecomunicações (Lei nº 4.117, de 27 de agosto de 1962) prevê no seu artigo 10:

Art. 10. Compete privativamente à União:

II – fiscalizar os Serviços de telecomunicações por ela concedidos, autorizados ou permitidos.

Além disso, o código admite a punição para o caso de abusos de concessionários. Está escrito na lei:

Art. 52. A liberdade de radiodifusão não exclui a punição dos que praticarem abusos no seu exercício.

Art. 53. Constitui abuso, no exercício de liberdade da radiodifusão, o emprêgo dêsse meio de comunicação para a prática de crime ou contravenção previstos na legislação em vigor no País, inclusive: (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 236, de 1968)

Alguns exemplos de abusos citados na Lei:

e) promover campanha discriminatória de classe, côr, raça ou religião; (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 236, de 1968)

(...)

g) comprometer as relações internacionais do País; (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 236, de 1968)

Por outro lado, o Decreto n. 52.795 de 1963, que regulamenta os serviços de radiodifusão, antecipa normas e princípios que seriam, mais tarde, incorporados à Constituição de 1988. Está lá:

Art. 28 – As concessionárias e permissionárias de serviços de radiodifusão, além de outros que o Governo julgue convenientes aos interesses nacionais, estão sujeitas aos seguintes preceitos e obrigações: (Redação dada pelo Decreto nº 88067, de 26.1.1983)

11- subordinar os programas de informação, divertimento, propaganda e publicidade às finalidades educativas e culturais inerentes à radiodifusão;

12 – na organização da programação:

a) manter um elevado sentido moral e cívico, não permitindo a transmissão de espetáculos, trechos musicais cantados, quadros, anedotas ou palavras contrárias à moral familiar e aos bons costumes;

b) não transmitir programas que atentem contra o sentimento público, expondo pessoas a situações que, de alguma forma, redundem em constrangimento, ainda que seu objetivo seja jornalístico;

c) destinar um mínimo de 5% (cinco por cento) do horário de sua programação diária à transmissão de serviço noticioso;

d) limitar ao máximo de 25% (vinte e cinco por cento) do horário da sua programação diária o tempo destinado à publicidade comercial;

e) reservar 5 (cinco) horas semanais para a transmissão de programas educacionais.

Por fim, a Constituição de 1988, prevê, especificamente, leis federais para a regulação de diferentes aspectos das comunicações, assim como a instalação de um Conselho para auxiliar o Congresso Nacional em qualquer assunto relativo ao capítulo "Da Comunicação Social".

Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.

(...)

§ 3º – Compete à lei federal:

I – regular as diversões e espetáculos públicos, cabendo ao Poder Público informar sobre a natureza deles, as faixas etárias a que não se recomendem, locais e horários em que sua apresentação se mostre inadequada;

II – estabelecer os meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade de se defenderem de programas ou programações de rádio e televisão que contrariem o disposto no art. 221, bem como da propaganda de produtos, práticas e serviços que possam ser nocivos à saúde e ao meio ambiente.

§ 4º – A propaganda comercial de tabaco, bebidas alcoólicas, agrotóxicos, medicamentos e terapias estará sujeita a restrições legais, nos termos do inciso II do parágrafo anterior, e conterá, sempre que necessário, advertência sobre os malefícios decorrentes de seu uso.

§ 5º – Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio.

(...)

Art. 221. A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios:

I – preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;

II – promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;

III – regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;

IV – respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

Art. 222. (...)

§ 3º Os meios de comunicação social eletrônica, independentemente da tecnologia utilizada para a prestação do serviço, deverão observar os princípios enunciados no art. 221, na forma de lei específica, que também garantirá a prioridade de profissionais brasileiros na execução de produções nacionais. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 36, de 2002)

(...)

Art. 223. Compete ao Poder Executivo outorgar e renovar concessão, permissão e autorização para o serviço de radiodifusão sonora e de sons e imagens, observado o princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal.

(...)

Art. 224. Para os efeitos do disposto neste capítulo, o Congresso Nacional instituirá, como seu órgão auxiliar, o Conselho de Comunicação Social, na forma da lei.

Direito à comunicação

Como disse a presidente eleita, há que se distinguir "marco regulatório de um controle do conteúdo na mídia". Quem os confunde está, de fato, querendo evitar a regulação do mercado e a perda de privilégios históricos.

Insisto: regular a mídia é ampliar a liberdade de expressão, a liberdade da imprensa, a pluralidade e a diversidade. Regular a mídia é garantir mais – e não menos – democracia. É caminhar no sentido do pleno reconhecimento do direito à comunicação como um direito fundamental da cidadania.

É disso que se trata.

Venício A. de Lima
é professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher, 2010.

O triste fim de FHC




Promotor e intérprete de uma ambição exagerada para um pássaro que não voa.

Por Mino Carta.


Quem já leu um livro de Fernando Henrique Cardoso? É a pergunta que às vezes dirijo à plateia que, generosa além da conta, acompanha uma palestra minha. Que levante o braço quem leu. De quando em quando, alguém acena ao longe, por sobre e em meio a uma fuga de cabeças imóveis. Trata-se, obviamente, de uma pesquisa rudimentar. Tendo a crer, porém, que o príncipe dos sociólogos e ex-presidente não é tão lido quanto os jornalistas tucanos supõem.

É grande, isto sim, o número daqueles que lhe atribuem acertadamente a chamada “teoria da dependência”, objeto do ensaio escrito no Chile em parceria com o professor Enzo Falletto. Ali está uma crítica inexorável da burguesia nativa, incapaz, segundo a dupla de ensaístas, de agir por conta própria para tornar o Brasil um país contemporâneo do mundo.

Muitos anos após a publicação do livro, quando FHC ocupava a Presidência do País, eu me atrevi a perguntar aos meus botões se ele não estaria a provar a célebre teoria. Teria a oportunidade de demonstrar na prática seu teorema, pelo qual o Brasil é inescapavelmente destinado ao papel de dependente. Dos Estados Unidos, está claro. Ninguém como o presidente Fernando Henrique entendeu ser inevitável, ineludível, imperioso, cair nos braços do colega americano, no caso Bill Clinton.

Não me permito aventar a hipótese de que o nosso herói agiu em benefício próprio. Atendeu, legitimamente, isto sim, às suas convicções. A operação revela uma extraordinária habilidade política, a refletir seu incomum poder de sedução. A burguesia nativa encantou-se com aquele que recomendava o esquecimento de seu próprio passado, incapacitada, talvez, à comparação entre a teoria da dependência e a ação do presidente tucano, enquanto Bill escancarava os braços e oferecia o abrigo do ombro possante. Nem se fale do deleite da mídia: eis o presidente intelectual que o mundo nos inveja.

FHC é um encantador de serpentes. Plantou-se sobre o pedestal da estabilidade, obtida de início com a URV, enfim com o real, mérito indiscutível, premissa de progressos em espiral, que se renovam em uma espécie de estação de colheitas cada vez mais apressadas.

Trunfo notável, traído com a reeleição alcançada pela via da compra de votos para concretizar a emenda constitucional, e conduzida na campanha de 1998 à sombra da bandeira da estabilidade rasgada exatos 12 dias após a posse. Tanto em 94 quanto em 98, o obstinado Sapo Barbudo foi o adversário fadado à derrota, graças, inclusive, ao apoio maciço da mídia dos ainda influentes barões de longa vida e dos seus obedientes sabujos. Dá-se, inclusive, naquele 1998 vincado pela crise russa, um fenômeno peculiar: os patrões da mídia nativa passam a acreditar não somente nas promessas do seu candidato à reeleição, mas também nos seus colunistas que tão sofregamente o sustentam. Uma vez reeleito, FHC desvaloriza o real e deixa os senhores de tanga.

A Lula, vencedor em 2002, FHC entrega um país economicamente à deriva. O tucanato chegara ao poder oito anos antes com o propósito de ficar ali por duas décadas. Muita ambição, talvez, para um pássaro que não voa. Tenho uma lembrança pré-tucana que me vem à mente, remonta a 28 anos atrás. Acompanho André Franco Montoro na sua campanha à governança de São Paulo, na ocasião pela zona canavieira do estado. Chegamos a Rafard quando já caía a noite e a caçamba de um caminhão se dispôs a ser palanque nas bordas da cidadezinha.

Eu estava a bordo, do alto via aquela plateia de rostos iluminados obliquamente e ouvia a brisa ciciar em meio ao canavial que nos cercava. A sequência dos oradores previa também a fala de FHC e, ao cabo, aquela de Montoro. Quando o então suplente de senador tomou a palavra, Mário Covas veio sentar-se ao meu lado na amurada do convés. A cada período do discurso, olhava-me com cumplicidade e meneava a cabeça em desalento. Nunca esqueci aquele momento e quando o senador em lugar de Montoro, líder da cisão peemedebista criadora do tucanato, deixou-se encantar pelo convite de Fernando Collor e por sua própria, incomensurável vaidade, melhor entendi o comportamento de Covas na noite de Rafard.

Sua confiança no companheiro valia zero. E foi como se saísse da amurada e se chegasse ao orador garboso ao dizer com todas as letras, oito anos depois: “Se você for para o governo de Collor, eu saio do partido e trato de mandá-lo a pique”. FHC tirou o time de campo. Covas sabia ser persuasivo, e teve a ventura de não assistir ao desastre de 2002, a primeira derrota de José Serra.

Outro episódio para mim marcante tem 30 anos e alguns meses. Estamos a viver a última grande greve dos operários de São Bernardo e Diadema, comandada pelo presidente do sindicato, Luiz Inácio, melhor conhecido como Lula. Vou frequentemente ao estádio da Vila Euclydes para viver de perto aquela situação, e um dia Raymundo Faoro, o amigo que hoje me faz falta, liga e diz: “Quero ver também”. Veio a São Paulo e no aeroporto, quando fui buscá-lo, fomos interceptados por um emissário de FHC. O senador gostaria muito de se encontrar conosco a caminho do estádio. Faoro disse está bem.

Houve um café servido em xícaras de porcelana, e então o príncipe dos sociólogos iniciou a sua peroração a favor do nosso distanciamento daquela imponente manifestação dos grevistas. O segundo ato foi encenado no salão nobre do Paço Municipal de São Bernardo, precipitado pelo mesmo motivo. “Sou um jornalista – disse eu – esta conversa para mim é tempo perdido.” Faoro não disse nada. Levantamos e fomos ao palanque de Lula. Foi quando o autor de Os Donos do Poder e o líder sindical se conheceram. Refleti sobre as razões de FHC: por que pretendia impedir que Faoro fosse ter com Lula? Permito-me a seguinte conclusão: pelo jurista e historiador nutria turvos ciúmes intelectuais, pelo líder operário algo mais que a premonição de uma inevitável rivalidade. Tratava-se de um confronto já latente.

Como amiúde acontece com fanáticos da ambição, o instinto da rivalidade está sempre preparado para o bote. Qual seria, exatamente, a primeira corda da relação Fernando Henrique-José Serra? Digo, do ângulo daquele. De grande ami zade, é a resposta oficial. E nos bastidores das intimidades mais recônditas, até mesmo inconfessáveis? Não duvido que a amizade de FHC por Serjão Motta fosse autêntica, totalmente sincera. Pois Serjão era um ser amoitado por natureza, provavelmente o mais sábio do terceto. Não tinha o menor interesse em sair à luz do sol para se exibir. Com Serra, parece-me fácil imaginar que a amizade de FHC seja agulhada pela rivalidade. Latejante.

Eis dois modelos de ambição diferentes, de certa forma opostos, pelo menos sob certos aspectos. Por exemplo. Ambos são hábeis em trabalhar à sombra, em manobrar por baixo dos panos. FHC, contudo, sabe como manter intacto este fluxo subterrâneo. Serra, talvez por causa da origem calabresa, às vezes não se contém e mostra a cara. FHC faz questão de aparentar tolerância e bonomia, mesmo em relação a quem abomina, como convém ao político matreiro a explorar os sentimentos alheios ao montar o ardil que irá engolir quem confiou em excesso. Serra é, para o mal de seus desenhos, de cultivar ressentimentos e rancores. Ódios precipitados, quando não daninhos para ele mesmo.

Nesta rivalidade se esvai o PSDB. A ambição transbordante, evidente demais, afastou ambos de uma liderança sábia e até arguta como a de Ulysses Guimarães. Depois de ter assustado fatalmente Tancredo Neves, que os quis longe do governo destinado a sobrar para José Sarney. Cogitado para o Planejamento, Serra só teve espaço em São Paulo. FHC, que Tancredo definia como “o maior goela da política brasileira”, não foi além de um cargo inútil no Congresso.

Vanitas, vanitatum, diziam os latinos ao se referir à vaidade. Não é por acaso que o PSDB, nascido do inconformismo em relação à linha peemedebista que a tigrada tinha como muito branda, acaba por assumir, tardia e desastradamente, e empurrado pela presença de Lula, o papel da UDN velha de guerra. O enredo é impecável na moldura da deplorável trajetória da esquerda brasileira. É uma história escrita por um punhado de verdadeiros, digníssimos heróis, crentes alguns até as últimas consequências, e por uma armada de cidadãos inconsequentes, quando não oportunistas. Tal é a minoria branca, como diz Cláudio Lembo. Descrentes de tudo, muitos até sem se darem conta de sua descrença porque incapazes de perceber seus impulsos mais fundos.

Magistral a entrevista de FHC ao Financial Times publicada às vésperas do primeiro turno. Dizia ele que, em caso de vitória de Dilma Rousseff, o desenvolvimento do Brasil seria “mais lento”. Confrontado com aquele do governo Lula ou do seu? Se for com este, podemos vaticinar um futuro terrificante. No tempo de FHC, o índice anual de crescimento não passou de 2,5%. Em matéria de desfaçatez, a entrevista é digna do Guiness. “Eu fiz as reformas – afirma o rei da cocada preta –, Lula surfou na onda.” Então, por que é o presidente mais popular da história? Culpa do próprio PSDB, dos companheiros incompetentes, “entenderam errado”, permitiram “a mitificação de Lula”, o qual, embora nascido da classe trabalhadora “portou-se como se fizesse parte da velha elite conservadora”.

Quem serviu à velha elite conservadora, foi o presidente FHC, que confirmou o Brasil como quintal dos EUA e o atrelou ao neoliberalismo. O confronto entre os dois governos é inevitável, bem como entre a repercussão internacional de um e de outro. Ocorre-me imaginar como há de roer as entranhas do príncipe dos sociólogos constatar que o metalúrgico teve mundo afora, com sua política independente, o reconhecimento que lhe faltou, a despeito de sua política dependente.
E nas suas últimas falas, FHC age no seu melhor estilo, é o náufrago que exige lugar no bote salva-vidas em lugar de crianças, mulheres e velhos. São estes, aliás, os culpados pelo naufrágio, donde o privilégio lhe cabe. Quanto a José Serra, que afogue.


Mino Carta


Mino Carta é diretor de redação de CartaCapital. Fundou as revistas Quatro Rodas, Veja e CartaCapital. Foi diretor de Redação das revistas Senhor e IstoÉ. Criou a Edição de Esportes do jornal O Estado de S. Paulo, criou e dirigiu o Jornal da Tarde. redacao@cartacapital.com.br

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O Brasil deixou de ser uma sardinha

Carta Maior - Flavio Aguiar - A eleição vista de alto-mar

O Brasil deixou de ser uma sardinha – se é que foi um dia. Olhando para a política externa brasileira, dá para comparar nosso amável e complicado país a um... golfinho! Os golfinhos são seres coletivos – ao contrário dos tubarões. Nadam em equipe, defendem-se e pescam em grupo.

Flávio Aguiar

A política brasileira tem muito a ver com peixes.

Lá por volta de 195... e poucos, Getúlio declarou num de seus discursos melhores e mais inflamados: “enganam-se os que pensam que o povo nos reconduziu ao poder para comer sardinhas. Vamos comer tubarões”. Ou algo assim, estou citando de memória frase que anotei mais de 50 anos atrás.

Depois, guardei essa frase que um amigo meu, engenheiro naval, me contou, na seguinte história:

“Conversando com um oficial da marinha sobre as opções do Brasil, há 30 anos, quanto à construção de navios de toda a sorte, ele me observou que tínhamos de escolher entre produzir não só navios, mas um parque industrial próprio para isso, e depender das potências então existentes (eram tempos da guerra fria). É uma escolha: ser rabo de tubarão ou cabeça de sardinha”.

Hoje só resta um tubarão na geopolítica. Com algumas orcas (baleias assassinas) e tubarinhos ao redor. Mas tem gente – as oposições – que continua afincada na idéia de que devemos ser rabo de tubarão. Talvez barbatana, porque no rabo a gente participa do leme, e isso é demais para aquela gente. Preferimos – eles, na verdade – só usufruir as algas que as correntes nos trazem aos bigodes, para eles, é claro, não para a maioria do povo. Este que vá pescar sardinhas.

Por outro lado, o Brasil deixou de ser uma sardinha – se é que foi um dia. Olhando para a política externa brasileira, dá para comparar nosso amável e complicado país a um... golfinho!

Os golfinhos são seres coletivos – ao contrário dos tubarões. Defendem-se, pescam, em grupo. Os tubarões não os atacam – porque uns cinco golfinhos juntos conseguem dar cabo de um tubarão, ou pelo menos mandá-lo para longe, senão para as profundas. Além do mais, os golfinhos nadam em equipe, deveriam ganhar a medalha de ouro da olimpíada de nado coletivo natural, se isso houvesse. Mal comparando (com óbvia vantagem para os golfinhos, mas sem desmerece-la) é isso que a nossa diplomacia tem feito, faz muito tempo e também nos últimos anos, na orquestra sinfônica de Lula sob a batuta de Amorim.

E é isso que as nossas oposições não agüentam. Por isso hoje pensam que são orquídeas, tão belas, nas árvores do nosso Brasil, quando não passam de caranguejos (nada contra os caranguejos naturais!!!), que só andam para trás e pensam que o espelho retrovisor é o pára-brisa. Ou vai ver que têm, eles sim, cabeça de sardinha. E das enlatadas, ao molho do império de plantão.

Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Reeleger Ana Júlia, tarefa de uma geração


Por Leopoldo Vieira

Como vem ocorrendo em todos os debates, o tema Juventude foi amplamente discutido, mas sempre como um apelo retórico dos demais candidatos.

Ana Júlia foi a única que fez uma pergunta específica que, no caso do sorteio, caiu para o candidato do PSTU responder: “Cleber, você acha que é possível um projeto de desenvolvimento sem políticas públicas para a juventude?”
Isso aconteceu porque Ana Júlia considera os jovens o elo decisivo entre o Pará do “Já teve” e o Pará que cresce, se industrializa e promove justiça social, por isso investe em políticas como o Bolsa-Trabalho, reforma escolas, realiza a meia-passagem intermunicipal, garante os kits escolares, introduziu o Navegapará, e tantas outras medidas.

Como não vêem o jovem como estratégico, portanto prioridade, as demais candidaturas “choveram no molhado”.
Jatene sequer abordou o assunto, até porque pouco fez pela juventude em seu governo, deixando o Pará em 9º lugar no Índice de Desenvolvimento Juvenil (IDJ-UNESCO).
PSOL e PSTU afirmaram que nada é feito para tirar o jovem da criminalidade, das ruas e que faltam investimentos em esporte, cultura e lazer, chegando ao cúmulo de afirmar que os 22 mil jovens egressos do Bolsa-Trabalho direto ao mercado de trabalho, com carteira assinada, nada representa, pois isso corresponderia a somente 0,5% da população economicamente ativa.
Não sabem do que falam.
Segundo a CAGED, 80% dos empregos gerados no Brasil (14 milhões) desde 2003, foram ocupados por jovens. Logo, dos 40 mil empregados gerados por Ana Júlia no Pará, também tiveram percentual semelhante. O Bolsa-Trabalho se propõe a qualificar sim uma parcela da juventude extremamente pobre e marginalizada, em situação de risco, com baixíssima escolaridade, e promove uma revolução de oportunidades, tirando ela da mais completa falta de perspectiva para a economia formal, com direitos trabalhistas. Exatamente por isso, o Bolsa-Trabalho ajuda a combater a entrada dos jovens no crime.
Ana Júlia transformou em lei uma reivindicação histórica da juventude, que é o direito de pagar meia-passagem em transportes terrestres e aquaviários, para ir às escolas e universidades estudar. Agora, 100 mil jovens não deixarão de se formar e concluir seus estudos básicos porque não tem como pagar passagens. Com a meia-passagem intermunicipal e os kits escolares, Ana Júlia desonerou de forma significativa a renda doméstica familiar e deu condições dignas de estudo para jovens que antes sequer podiam comprar o material básico para um bom aprendizado.

Mas desonerar a renda doméstica não é um fim em si. Fazendo isso, ela contribui para amenizar um dos problemas fundamentais da educação: o abandono da escola, por parte dos jovens, em busca de trabalho, precocemente; ou a necessidade inviável de conciliar estudo bem aproveitado com jornada de trabalho.
Com a reforma de 650 escolas, melhora o ambiente de estudo e o desempenho escolar. Não é à toa que o Pará sai de 2,3 para 3,1 no Ideb, tendo crescido o dobro do resto do país e alcançando a meta estipulada pelo MEC para o estado.

Quem vê o Navegapará, como os demais candidatos, como “lan houses”, está por fora do século XXI. Isso, além de possibilitar que o jovem do interior, o de baixa renda, possa ter acesso ao entretenimento, informação e socialização virtual que só os jovens mais ricos gozavam, também pode desenvolver seu aprendizado pela educação à distância, portanto suas condições de formular seu projeto de vida e seus conhecimentos para as relações sociais e o mercado, e o mais importante: não serão analfabetos digitais, a maior tragédia que poderia acontecer para uma geração nascida no interior de uma inédita revolução tecno-informacional.
Sem contar que, na área cultural, a SECULT inovou, e selecionou editais específicos de cultura, que são voltados ao financiamento de atividades artísticas paraenses, só para jovens artistas e produtores culturais. Uma oportunidade enorme para eles fazerem o que gostam e ajudar a valorizar nossa cultura, num estado onde ela sempre foi vista como grande evento.
Mas, o melhor ainda estar por vir.
Para impedir que o jovem de baixa renda abandone a escola, o programa de governo de Ana Júlia prevê a bolsa-educação, que vai possibilitar que ele não precisa largar os estudos para trabalhar tão cedo, antes de concluir o ensino médio. Também prevê esta mesma bolsa para egressos do ProJovem e Bolsa-Trabalho, para que eles possam seguir estudando após a qualificação profissional os recolocar no mercado de trabalho.

Para estruturar o tempo livre saudável, os 13 pontos de Ana Júlia “para acelerar as oportunidades da juventude”, prevê a interiorização, com referência onde tem Bolsa-Trabalho e ProJovem, das CASAs da Juventude, incluindo, agora, espaços para cultura (anfiteatros e salas de projeção), esporte (quadras/campos poliesportivos) e lazer, com cursinhos populares, bolsas-atleta e editais de cultura da juventude vinculados aos projetos desenvolvidos nesses centros, valorizando o jovem esportista e artista do município em questão. Oportunidade para a “galera” e para a cidade de modo geral mudar seus indicadores.
Esses são os dois carros-chefes da política de juventude “acelerada” do segundo mandato, mas não pára por aí.

Para responder a uma questão urgente, conforme a “CPI da Pedofilia” verificou, o Bolsa-Trabalho terá reserva de vagas para jovens vítimas da exploração sexual, para que elas tenham uma oportunidade de fato de mudar de vida.
A Emater terá uma assessoria técnica voltada só aos jovens rurais, para seus projetos poderem acessar o crédito agrícola do Ministério do Desenvolvimento Agrário e as escolas tecnológicas terão, também, cotas para essa juventude do campo, que representa 43% da população juvenil do estado, e vai ela mesmo aprender a gerenciar e produzir para alimentar a sociedade.
No segundo mandato, teremos a introdução das cotas sócio-raciais na UEPA, para abrirmos o reconhecido curso de Medicina, por exemplo, para jovens de baixa renda e afrodescentes que, inclusive, por terem uma vida longe de ser fácil, poderão dar um novo ponto de vista para os profissionais que saem dali, sobre a questão, por exemplo, da falta de médicos do interior.
Se é verdade que o Pará tem a maior taxa de analfabetismo do Norte brasileiro, isso não passa em branco pela candidata Ana Júlia, que planeja, além de fortalecer o Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos-MOVA, enolver, a partir de um projeto de vivência, estudantes universitários para uma grande campanha de erradicação do analfabetismo, especialmente o juvenil, porque não podemos mais conceber, por justiça e pelos desafios que temos, mais uma geração de analfabetos.

Para completar o avanço, uma política estruturante que vê o jovem como motor do desenvolvimento com justiça social, à exemplo do que ocorre nacionalmente, Ana Júlia já prepara um amplo estudo, via IDESP, para o Poder Público conhecer todos os detalhes da condição socioeconômico-cultural dos jovens paraenses, para desenvolver um Plano estadual de oportunidades, válido por 10 anos, consistindo no planejamento do investimento na atual geração para fazer o Pará chegar ao século XXI.
Por fim, se no Brasil, a juventude se entusiasma com a grande fase do país, com crescimento de 5%/ano em média, Copa do Mundo, Olimpíadas, descoberta do pré-sal, passar da condição de devedor à credor do FMI, a transição de 30 milhões de pessoas da pobreza à classe média etc., no Pará, a Alpa e o Pólo do Biodiesel são dois paradigmas de que a tarefa política da atual geração neste momento é reeleger Ana Júlia governadora.

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LEOPOLDO VIEIRA é coordenador de juventude da campanha de Dilma Rousseff no Pará e autor de Juventude: Novas Bandeiras.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Direita brasileira ensaia um Golpe Mediático


Crônicas e Críticas da América Latina


Vencer, vencer ou vencer é preciso

Pedro Ayres
Jornalista

Uma das mais insidiosas mentiras, há muito usada para anular a consciência política das massas, é a falta de memória do povo.Volta e meia, quando intentam justificar o injustificável até mesmo para o próprio amoralismo, recordam o falso axioma - o povo brasileiro não tem memória. De tanto falarem e repetirem essa mentira que, por incrível que possa parecer, tornaram-se as maiores vítimas da própria mentira. Foi e é o feitiço contra o feiticeiro. Hoje, 56 anos depois de 24 de agosto de 1954, o que era emoção e sentimento de dor, agora tem sentido político e claro objetivo. Assim como 1964 também já tem outro entendimento, menos autocomiserativo, mais analítico e dialético, em que, ao invés de lutas entre personalidades políticas, entende-se que o que houve foi a vitória do sistema neo-capitalista mundial contra os anseios do povo brasileiro por mais soberania, independência, progresso e bem-estar social.

Desde 1964 que o capitalismo nacional e estrangeiro luta para esmagar a lembrança de Getúlio Vargas e de tudo aquilo que ele representou em termos de propostas nacionalistas e trabalhistas. Cientistas sociais, politólogos, brazilianists, jornalistas e economistas compõem a grande legião de "estudiosos" que há muito decretaram o "fim da Era Vargas", como sinônimo da total e completa submissão aos interesses imperialistas por parte do país e de esmagamento dos direitos sociais e civis da massa trabalhadora.

O leit motiv dessa campanha, era a crença na mentira que eles mesmos tinham criado. Assim, o resultado é que não foram capazes de compreender o mais importante fenômeno político deste início de século - a geração de um movimento político popular, em que a memória, a emoção e os sentimentos de identidade são a principal liga de sua luta.

O incrível é que tudo isso foi se realizando em termos concretos, como memória coletiva e na consolidação do que há muito as massas almejavam ver resolvido. Foi realmente uma tarefa inigualável, pois, além de resistirem à dominação ideológica do sistema, eliminaram a aculturação que o império tentava e tenta impor. Hoje, porém, através da transmissão oral das experiências e recordações de velhas lutas populares, do conhecimento e aprendizado a respeito do que se passa na América Latina e das lutas de nossos vizinhos, foram construindo um conceito de Estado e a conseqüente economia política para esse Estado.

Uma construção que hoje pode ser compreendida como um pensar político próprio e início de uma nova proposta política. Uma proposta que ainda está em formação, mas, que significa algo bem distinto do que existe em termos capitalistas e daquilo que se poderia intitular como a não-ideologia capitalista. Na realidade, como acontece em todas as etapas de transição histórica, há um momento em que os processos de superação de algumas contradições secundárias são tão rápidos em suas dinâmicas, que há a sensação de algo difuso e até mesmo, confuso. É, pois, esta a situação que se está a viver na América Latina e que desnorteia o formalismo da lógica burguesa, acostumada a crer na imutabilidade de seu poder e destino.

A furiosa e imoral campanha desenvolvida contra o Governo Lula e a candidatura Dilma Rousseff, mais do que uma indigna luta em favor de um candidato do sistema, representa os raivosos esgares de ódio do Império e seus sequazes ante este sinal de que o seu tempo chegou ao fim. Para o Império e seus cúmplices brasileiros, tão ou mais grave que a perda de seus privilégios e interesses econômico-sociais, está a suprema das ofensas, que é a ascensão do povo à categoria de um ser humano com reais direitos e regalias cívico-políticas.

É assim que se pode e se deve compreender o atual presente da campanha eleitoral brasileira. De um lado, um povo mobilizado por seus direitos e manifestando-se com festas, alegria e certeza da justa vitória. Do outro, as elites oligárquicas, cheias de ódio, preconceitos e plena convicção de sua derrota nas urnas no próximo 3 de outubro. Como os ideais democráticos, para essas elites e para o Império, sempre foram meras palavras - "words, words, mere words, no matter from the heart"-, a pregação golpista e a sórdida aliança com estelionatários é apenas o lógico corolário de sua história de exploração e saqueio das riquezas dos povos sob esse tipo de domínio.

Vencer é necessário, vencer no primeiro turno é mais preciso ainda. Nós, o povo, temos que dar a mais clara e cabal resposta a esses crápulas através de uma votação aplastante em favor de Dilma Rousseff e de todos os candidatos que conformam a aliança de apoio à sua candidatura. Temos que dar um basta a essas sujas e corruptas manobras engendradas por aqueles que sempre foram contrários a um Brasil livre e desenvolvido.

Todos, pois, à Vitória!
********************

Pedro Ayres

Jornalista

Dilma e Lula.jpg
Vencer, vencer ou vencer é preciso

Pedro Ayres
Jornalista

Uma das mais insidiosas mentiras, há muito usada para anular a consciência política das massas, é a falta de memória do povo.Volta e meia, quando intentam justificar o injustificável até mesmo para o próprio amoralismo, recordam o falso axioma - o povo brasileiro não tem memória. De tanto falarem e repetirem essa mentira que, por incrível que possa parecer, tornaram-se as maiores vítimas da própria mentira. Foi e é o feitiço contra o feiticeiro. Hoje, 56 anos depois de 24 de agosto de 1954, o que era emoção e sentimento de dor, agora tem sentido político e claro objetivo. Assim como 1964 também já tem outro entendimento, menos autocomiserativo, mais analítico e dialético, em que, ao invés de lutas entre personalidades políticas, entende-se que o que houve foi a vitória do sistema neo-capitalista mundial contra os anseios do povo brasileiro por mais soberania, independência, progresso e bem-estar social.

Desde 1964 que o capitalismo nacional e estrangeiro luta para esmagar a lembrança de Getúlio Vargas e de tudo aquilo que ele representou em termos de propostas nacionalistas e trabalhistas. Cientistas sociais, politólogos, brazilianists, jornalistas e economistas compõem a grande legião de "estudiosos" que há muito decretaram o "fim da Era Vargas", como sinônimo da total e completa submissão aos interesses imperialistas por parte do país e de esmagamento dos direitos sociais e civis da massa trabalhadora.

O leit motiv dessa campanha, era a crença na mentira que eles mesmos tinham criado. Assim, o resultado é que não foram capazes de compreender o mais importante fenômeno político deste início de século - a geração de um movimento político popular, em que a memória, a emoção e os sentimentos de identidade são a principal liga de sua luta.

O incrível é que tudo isso foi se realizando em termos concretos, como memória coletiva e na consolidação do que há muito as massas almejavam ver resolvido. Foi realmente uma tarefa inigualável, pois, além de resistirem à dominação ideológica do sistema, eliminaram a aculturação que o império tentava e tenta impor. Hoje, porém, através da transmissão oral das experiências e recordações de velhas lutas populares, do conhecimento e aprendizado a respeito do que se passa na América Latina e das lutas de nossos vizinhos, foram construindo um conceito de Estado e a conseqüente economia política para esse Estado.

Uma construção que hoje pode ser compreendida como um pensar político próprio e início de uma nova proposta política. Uma proposta que ainda está em formação, mas, que significa algo bem distinto do que existe em termos capitalistas e daquilo que se poderia intitular como a não-ideologia capitalista. Na realidade, como acontece em todas as etapas de transição histórica, há um momento em que os processos de superação de algumas contradições secundárias são tão rápidos em suas dinâmicas, que há a sensação de algo difuso e até mesmo, confuso. É, pois, esta a situação que se está a viver na América Latina e que desnorteia o formalismo da lógica burguesa, acostumada a crer na imutabilidade de seu poder e destino.

A furiosa e imoral campanha desenvolvida contra o Governo Lula e a candidatura Dilma Rousseff, mais do que uma indigna luta em favor de um candidato do sistema, representa os raivosos esgares de ódio do Império e seus sequazes ante este sinal de que o seu tempo chegou ao fim. Para o Império e seus cúmplices brasileiros, tão ou mais grave que a perda de seus privilégios e interesses econômico-sociais, está a suprema das ofensas, que é a ascensão do povo à categoria de um ser humano com reais direitos e regalias cívico-políticas.

É assim que se pode e se deve compreender o atual presente da campanha eleitoral brasileira. De um lado, um povo mobilizado por seus direitos e manifestando-se com festas, alegria e certeza da justa vitória. Do outro, as elites oligárquicas, cheias de ódio, preconceitos e plena convicção de sua derrota nas urnas no próximo 3 de outubro. Como os ideais democráticos, para essas elites e para o Império, sempre foram meras palavras - "words, words, mere words, no matter from the heart"-, a pregação golpista e a sórdida aliança com estelionatários é apenas o lógico corolário de sua história de exploração e saqueio das riquezas dos povos sob esse tipo de domínio.

Vencer é necessário, vencer no primeiro turno é mais preciso ainda. Nós, o povo, temos que dar a mais clara e cabal resposta a esses crápulas através de uma votação aplastante em favor de Dilma Rousseff e de todos os candidatos que conformam a aliança de apoio à sua candidatura. Temos que dar um basta a essas sujas e corruptas manobras engendradas por aqueles que sempre foram contrários a um Brasil livre e desenvolvido.

Todos, pois, à Vitória!
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Pedro Ayres

Jornalista

Seria possível uma onda vermelha?

Da Carta Maior:

DEBATE ABERTO
Na reta da chegada, seria possível uma onda vermelha?

Lideranças como o MST e Leonardo Boff vêm afirmando que é preciso afastar o risco tucano. Essa será a missão nas próximas semanas, para quem acredita num Brasil dinâmico, como pressente tão bem o povo em sua sabedoria, que parte de sua vida real, tantas vezes sofrida e agora sentindo mudanças.

Luiz Alberto Gómez de Sousa


Duas observações iniciais. Não tenho militância partidária. Aposto, antes de tudo, num processo de mutações sócio-políticas a largo prazo e na caminhada das forças populares. Acompanho com interesse os movimentos sociais e sinto que eles são determinantes, como mediadores das forças que atuam na sociedade, ainda que alguns deles, presos a análises ideológicas abstratas, tenham descolado do povo real. Já adianto que isso não se deu no MST, sempre ligado às bases. Além disso, em certas ocasiões, principalmente no começo de novos processos históricos, os partidos e o governo também podem chegar a ter especial importância, dando oportunidade às forças sociais e a seus movimentos de se manifestarem e crescerem. É aí que o Estado, como sociedade política, pode assumir um papel relevante. No caso do Brasil, ele esteve presente em momentos de construção da nação e daí os esforços de alguns para desconstruí-lo e reduzi-lo a um estado mínimo.

A segunda observação é que, sentindo a sensibilidade mais profunda da nação e de seus apoios sociais concretos, dá para perceber que transformações radicais já começaram a se dar com firmeza durante o período do governo Lula. É preciso que elas sigam adiante, apoiadas por próximos mandatos, para tornar o processo social sempre ascendente e cada vez mais sólido. Há tempos históricos únicos, como a Holanda no século XVII ou a Inglaterra no XIX, em que a nação, com as contradições e imperfeições inevitáveis, passou a outro patamar. Pareceria que o Brasil atravessa um momento desses. E então Estado, partidos, movimentos, têm um papel fundamental.

São processos que dependem de forças nos subterrâneos da sociedade (underground), que se expressam através de diferentes atores, movimentos ou lideranças. Neste momento preciso do Brasil, as forças populares e o PT têm cumprido, com Lula, um papel protagonista. Não é a toa que todas as baterias dos setores até agora dominantes se voltam contra eles, principalmente contra o PT, retomando ou reinventando velhos ou novos dossiês e todo tipo de denúncias. O próprio partido, às vezes, pode ter fornecido material para os ataques, mas na maioria das vezes estes são forjados ou adulterados. E existem dentro do PT, há que convir, nichos de uma “nomenclatura” de velhos hábitos que nem sempre ajudam. Há também, na oposição de esquerda, aqueles que aguardavam milagres que não tinham condições objetivas de se realizar e se desiludiram proporcionalmente a suas esperanças inalcançáveis. Eles se unem, mesmo sem querer, às azedas críticas conservadoras.

No centro de processo está um dirigente genial, que encarna magistralmente o papel de catalisador de possibilidades. Fora do Brasil isso é mais bem entendido do que aqui, por parte de meios de comunicação que se auto-proclamam “formadores de opinião”. Como seria possível tal pretensão, quando a maioria acachapante da população caminha em outras direções? Há neste momento um encontro raro na história entre bases reais e uma liderança que saiu de dentro delas. Uma gangorra de alternância política agora não ajudaria, a não ser para politólogos que só se fixam em aspectos institucionais em suas análises acadêmicas, fora de um contexto histórico real.

A popularidade de Lula é esmagadora, assim como o crescimento de Dilma nas pesquisas. Esta última provou ter vôo próprio e tem demonstrado nos últimos anos, enorme capacidade de propor e de realizar. Depois de um tempo de carisma fulgurante, precisamos talvez de um esforço de consolidação em alto nível e especial tino administrativo. Os meios de comunicação atucanados tudo fizeram para negar (lembram-se da Globo com as diretas?), mas aos pouco vão tendo que aceitar a realidade. E agora se voltam para a eleição em outros níveis. Estes é que devem então ocupar a nossa atenção nas próximas semanas.

O problema no futuro imediato não será o PSDB, na sua função normal, numa democracia, de ser oposição, mas o PMDB, com dentes aguçados, pensando em uma possível co-habitação. Este já conseguiu colocar como candidato a vice-presidente um político tradicional, incolor porém matreiro. Dá a impressão de que o próprio Lula – ou alguns de seus assessores – não acreditavam na consistência do processo e entraram rapidamente em alianças ambíguas.

Foi um erro o PT não ter candidatos próprios no Rio de Janeiro e em Minas Gerais que, bem apoiados, poderiam ter sido alternativas reais (no caso do Rio não é a primeira vez que ocorre esse erro, imposto desde uma paulicéia míope). Resta-nos aqui votar em Sérgio Cabral e, em Minas, fazer um esforço especial em Hélio Costa, com a vantagem deste último ter, como companheiro de chapa, um político do valor de Patrus Ananias. Haveria que apostar fundo em São Paulo na eleição de Mercadante, que está em ascensão (lembram-se de Erundina nas últimas semanas?). Outro desafio está no Rio Grande do Sul, para Tarso Genro já vencer no primeiro turno, pois num segundo corre perigo com a união dos adversários. Temos eleições que vão bem, com o PT ou aliados confiáveis, como no Acre, na Bahia, em Pernambuco, Ceará ou Sergipe.

Há que dizer que as alianças, dependendo de quais sejam, podem trazer benefícios e uma dimensão pluralista. Um partido isolado e intolerante arrisca cair no autoritarismo ou resvalar no clientelismo. Alianças com o PSB de Eduardo Campos, o PC do B e de setores do PDT podem ser saudáveis. Por outro lado, alguns nanicos podem atrapalhar, pela sede de poder. No próprio PMDB há lideranças respeitáveis e de valor como a de Pedro Simon, mas a seu lado temos Jader Barbalho, Renan Calheiros, o inefável Sarney e a figura de Orestes Quércia, que pelo menos apóia Serra e está do outro lado. Ciro Gomes anda calado, fazendo campanha para seu irmão no Ceará, mas é um nome que seria útil no futuro. Que fim inglório o do histórico partidão, travestido num conservador e raivoso PPS!

Um escândalo é o que ocorre no Maranhão. Ali Jackson Lago, administrador eficiente, foi derrubado pelo clã Sarney. E infelizmente, ressentido, quis ser candidato juntando-se a Serra. Ele possivelmente cairá logo adiante pela Ficha Limpa. Mas o governo não precisava apoiar acintosamente Roseana, quando tem também ali, na base aliada, um Flávio Dino, do PC do B, que poderia, ao eleger-se, limpar o estado de um coronelismo anacrônico. Os votos de Jackson poderiam ajudar. Será que o eleitorado, mesmo num estado difícil como o Maranhão, não fará essa escolha? Lembremos que no Pará, no passado, as bases se rebelaram com decisões da direção petista.

O outro grande e fundamental esforço é com senadores e deputados. Assim, no Rio, seria importante, por exemplo, eleger Lindberg Farias para senador, Alessandro Molon ou Antonio Carlos Biscaia para deputados federais, Robson Leite para deputado estadual. Seria tempo, nas várias instâncias eleitorais, de preparar o declínio inglório de certas lideranças. Para isso há que aproveitar o grande momento do Ficha Limpa, que a sociedade praticamente impôs aos partidos. Um líder do governo ousou dizer que esse projeto não era prioridade do estado, apenas da sociedade, e por isso não tinha a mesma prioridade de outros projetos. Ainda bem que o fizeram calar a tempo.

As eleições se resolvem nas últimas semanas. É sempre perigoso cantar vitória antes do tempo. Mas com imaginação e um pouco de audácia, poderíamos apostar numa onda vermelha, na reta de chegada. É hora de colocar as energias em todos os níveis eleitorais. Há uma grande tarefa de melhorar o legislativo, literalmente avacalhado, agora que o Ficha Limpa vem para dar uma varredura geral. O eleitorado poderia afastar certos candidatos sem esperar decisões judiciárias. Afinal, ele é o próprio autor do projeto, através de movimentos sociais e de mobilizações massivas.

É difícil falar de Marina Silva, grande liderança que, como Lula, saiu das bases da sociedade. Quando a conheci, passei a ter por ela uma grande estima, admirando sua inteligência e sensibilidade. Mas o fato de ser empurrada para a disputa do poder, fez com que suas intuições e força telúrica em corpo franzino, perdessem a limpidez das propostas que trazia. Foi levada a falar de tudo um pouco, sem marcar uma diferença expressiva e criativa. Teria sido mais útil se tivesse ficado como uma voz lúcida e livre no cenário nacional e internacional, no parlamento ou em cargo executivo e não arrastar-se monotonamente nas pesquisas entre 8 e 9% do eleitorado. Se essa cifra correspondesse a uma real sensibilidade ecológica, até que seria muito bom. Mas há ali misturados votos negativos de rejeição e também, ainda que menos visível, um papel que a velha UDN jogou no passado, com propostas puristas que caíam muito bem em certos meios sociais. E, via Gabeira, encontra indiretamente Serra.

Alguns, com viseiras ideológicas abstratas e uma visão absolutista, continuam com a cantilena de que todos os candidatos principais são iguais, negando o processo histórico em marcha. Todos eles somados apenas poderiam ultrapassar o 1% do eleitorado. No fundo, parecem estar dizendo que o povo não sabe votar e que é preciso apostar numa elite iluminada e vanguardeira que um dia imporia a luz.

Felizmente lideranças expressivas, como o MST e Leonardo Boff, vêm afirmando que é preciso afastar o risco tucano. Essa será a missão nas próximas semanas, para quem acredita num Brasil dinâmico, como pressente tão bem o povo em sua sabedoria, que parte de sua vida real, tantas vezes sofrida e agora sentindo mudanças. Na urna já seria tempo de pôr em prática a Ficha Limpa. E há, sobretudo, que dar liberdade a Dilma para fazer um governo com menos amarras que o atual, com outro legislativo que possa defendê-la melhor de alianças corrosivas e que reabilite esse poder, essencial numa democracia.

Luiz Alberto Gómez de Sousa, sociólogo e ex-funcionário das Nações Unidas, é diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião da Universidade Cândido Mendes.

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